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Carta Branca

Cada qual com seu igual

5 de agosto de 2022 às 9h26

No meu tempo de guria, o ditado aí do título circulava entre a turma do colégio, servindo de conselho e de advertência. O conteúdo se aplicava aos namoricos e amizades. Valia também para os locais onde procurar trabalho e como receita de negócios. Ensinava que não era legal a gente se meter com pessoas diferentes, fosse a diferença registrada em relação à raça, religião ou procedência. Nós devíamos ficar próximos daqueles que eram próximos de nós, tanto no jeito de viver, como na forma pensar. Soava perigoso misturar alhos com bugalhos.

O ditado: “Cada qual com seu igual” era o equivalente a outro bem conhecido em Portugal: “Cada ovelha com sua parelha”.

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Difícil agora é imaginar o que passa na cabeça do pessoal fiel ao catecismo antigo. Quero dizer, o que passa na cabeça dos que continuam acreditando que cada qual deve andar com seu igual. Não sabemos como se sentem ao ouvirem elogios para o comportamento exatamente oposto. Refiro-me à propaganda pró diversidade.

Diversidade virou palavra de prestígio. É o último grito na gerência de organizações. Os modernos manuais que orientam empresários e líderes de grupo fazem recomendação expressa. Dizem que o ideal é haver diversidade. Recomendam ter pessoas diferentes trabalhando ou estudando juntas. Mais ainda, sugerem avizinhar raças, gêneros, idades, culturas e formação variada para melhorar tudo: do ambiente de trabalho à perspectiva de fazer os projetos prosperarem. A orientação vai na contramão da velha crença. A ordem agora é justamente aproximar quem não anda junto todo o dia. Nada de achar que a melhor combinação é aquela que orienta cada qual ficar com seu igual. Pelo contrário. Recomenda-se o contraste, a aproximação de estranhos. Uns podem aprender muito mais com outros no ambiente divergente. Viva a miscelânea!

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Se a empresa planeja criar uma estratégia nova em relação aos seus produtos, por exemplo, faz bem em montar a equipe com funcionários de perfil desparelhado.

Para conseguir uma proposta inovadora, vale mais a pena botar os diferentes lado a lado. Aliás, é quase um contrassenso esperar que nasçam novidades entre aqueles que convivem dentro e fora do trabalho, que são amigos desde a infância. Estes, os iguais, serão provavelmente todos homens, brancos, que jogam futebol nas quartas-feiras, assistem às mesmas séries na TV, tomam chimarrão com a patroa no fim da tarde e programam roteiros parecidos para as férias.

Rende mais – se ensina hoje – dar o desafio da inovação para equipes integradas por pessoas dessemelhantes. A razão é óbvia: gente igual pensa igual. Gente diferente, quando atua junto, aumenta a probabilidade de atinar com saídas ainda não pensadas.

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Em resumo: uma vez se achava ruim que água e óleo não virassem uma coisa só. Agora, fica claro que aí mesmo está a vantagem. Da disparidade é capaz de surgir a novidade.

Por daiane