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Desesperar jamais

13 de maio de 2022 às 10h15

Uso pouco de Uber. Depois de muitos anos no meu novo emprego tenho vaga para estacionar. Por isso, uso carro próprio diariamente. Na última segunda-feira, no entanto, fui obrigado a “pegar um carro de aplicativo”. Como sempre faço, ao embarcar tentei entabular uma conversa com o motorista. Gosto de fazer isso para conhecer pessoas e tomar conhecimento de histórias interessantes que, como aconteceu, inspiram crônicas e reflexões.

Confesso que o condutor relutou em conversar. Por isso não forcei a barra, mas ao ouvir uma notícia no rádio ele deu a brecha que precisava para embalar o papo. Aos poucos ele soltou o verbo. Contou que tinha 65 anos e que, depois de 14 anos trabalhando como motoboy, foi demitido da função.

– Meu patrão mantinha três restaurantes. Eu tinha muito serviço, mas com a pandemia ele fechou duas operações e dispensou um monte de gente, entre eles, eu! – contou.

Em tom de lamento acrescentou que não recebeu a indenização a que tinha direito pelo desligamento.

– Não faço a mínima ideia de quando receberei este dinheiro porque meu ex-patrão argumenta que tem grandes dificuldades para manter o estabelecimento remanescente – queixou-se.

Apesar da situação o motorista de Uber mostrou-se conformado:

– Vou reclamar do que? Afinal, tenho 65 anos, sou um velho, e entendo que os empresários prefiram os mais jovens que têm mais vitalidade, energia e disposição para o trabalho – afirmou.

O motorista do Uber consegue defender-se das agruras,
Mas muitos outros fazem biscate para pôr comida na mesa

Para manter a casa e principalmente para sustentar o filho de 11 anos o “uberista” revelou que aluga um Siena para trabalhar como motorista de aplicativo. Admite que é preciso estar na rua por 10, 12 horas consecutivas para fazer frente aos boletos, mas não desiste:

– Tenho muitos amigos que estão numa situação bem pior que a minha. Eles sequer têm condições para locar um carro. Pra piorar, eles têm doenças na família e outras complicações que eu não tenho. Por isso, não reclamo da sorte – sentenciou.

Como ele, milhões de gaúchos ficaram desempregados ao longo dos dois anos de pandemia. Alguns trabalhadores – como funcionários de farmácias, trabalhadores do transporte coletivo e do segmento de supermercados – puderam trabalhar normalmente. Ao contrário da maioria, obrigada a ficar em casa. Os empregadores não tiveram escolha porque foram obrigados a fechar as portas, amargando prejuízos, demitindo gente, com perdas que irão perdurar por muito tempo.

O motorista do Uber consegue defender-se das agruras, mas outros tantos apenas lamentam, enquanto fazem biscates para colocar um mínimo de comida na mesa.

Por daiane