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Jornal da Semana
Dia da Mulher

Participação das mulheres nas forças de Segurança Pública

, 4 de março de 2022 às 9h10

Até a década de 1980, o trabalho policial era uma ocupação essencialmente masculina. Entretanto, as transformações na sociedade e novas concepções de segurança pública criaram condições para que as mulheres pudessem ocupar espaços nas forças policiais desempenhando papel crucial em defesa da sociedade.

A primeira turma de mulheres ingressou na academia de Polícia Militar do RS em fevereiro de 1986. Antes disso, a corporação já contava com o importante trabalho das mulheres no quadro de servidores civis mantidos até hoje.

No Brasil há cerca de 45,8 mil mulheres na Polícia Militar. Elas representam 11% do efetivo ativo. E, segundo dados do Senso de 2020 da Brigada Militar, no Rio Grande do Sul representam 16% dos 17.952 policiais.

No Vale do Taquari são 77 policiais militares que desempenham funções de policiamento ostensivo, administrativas, patrulhas Maria da Penha, Proerd e Força Tática.

Minha família tem orgulho e respeito por eu ser da Força Tática

Natural de Uruguaiana, a soldada Marnie Madiery de Oliveira, 26 anos, atua na Força Tática da BM com diversas ações em 25 municípios da região. Entre as atribuições está patrulhamento em locais de alta incidência criminal, enfrentamento ao crime organizado, abordagens, operações de controle de distúrbio, ações emergenciais em estabelecimentos prisionais, reintegrações de posse, policiamento em eventos, escoltas e cumprimentos de mandados judiciais.

Para eficiência no combate à criminalidade, frequenta treinamentos mensais que englobam: abordagem policial, patrulhamento tático motorizado, uso diferenciado da arma de fogo, técnica e tática de controle de distúrbios, instruções táticas individuais, instrumentos de menor potencial ofensivo tais como arma de condução elétrica, granadas, bastão, calibre 12, espargidores, atendimento pré-hospitalar, medidas preliminares em local de crise, entre outros.

Para Marnie o papel da mulher é exatamente como o do homem. Dentro da técnica policial militar a única função que preferencialmente será destinada ao homem é de fazer a revista pessoal em outro homem e a da mulher será feita por uma policial mulher. “Para mim é gratificante atuar na Força Tática. Mostra como as mulheres estão cada vez mais qualificadas e determinadas a desempenhar todas as funções que forem incumbidas. Eu posso afirmar que me orgulho muito de ter conseguido chegar onde estou e também me orgulho de todas as minhas colegas de profissão. Nós mulheres sabemos o quão difícil pode ser conciliar casa, filhos e trabalho na polícia, exige muita vontade e determinação”.

Segundo ela, alguns familiares até questionaram sua escolha, porém, todos entenderam, respeitaram e apoiaram, pois, sabiam que foi bem pensada. O fato de ter policiais militares na família que é predominantemente feminina ajudou com que todos sentissem orgulho e respeito. “Meu filho é a melhor parte disso tudo, quando chego do serviço ou me fardo vejo a expressão de orgulho e como ele, mesmo muito pequeno, diz que quer ser policial como a mãe quando crescer”.

Em uma avaliação mais abrangente relata que muitas pessoas ainda pensam que ser policial militar é função dos homens. Por isso acredita que ainda demore para que a igualdade seja tratada com naturalidade na função. Por outro lado, revela que é muito bom ver, principalmente durante o serviço na rua as pessoas que passam e falam o quão respeitoso é ver as mulheres conseguindo chegar em lugares que eram predominantemente masculinos. “Acredito que faz com que outras mulheres se sintam representadas e tenham até mesmo mais confiança de se abrir em alguns tipos de ocorrências”.

Um fato que marcou sua trajetória na Brigada Militar foi o atendimento de uma ocorrência em que havia um conflito de idosa com o filho usuário de drogas. O indivíduo estava tentando tirar a vida da própria mãe. “Ao chegarmos no local e iniciar as buscas não logramos êxito em localizar o acusado, porém, levamos a idosa com sua saúde intacta até a delegacia para efetuar o registro da ocorrência. No momento em que fomos levá-la novamente à sua residência encontramos a porta da casa arrombada. Entramos no local e conseguimos localizar o indivíduo aguardando o retorno de sua mãe para que então pudesse tirar a vida dela. Situação em que logramos êxito em prender o indivíduo. Existem muitos momentos e ocorrências que envolvem confrontos e situações de vulto. Não há nada mais gratificante do que o êxito em ajudar ao próximo, salvar a vida de alguém, prender os indivíduos que cometem algum tipo de crime”.

Marnie pretende continuar estudando para crescer na carreira policial militar.

“Não lembro de ter sofrido preconceito por ser mulher na polícia”

“Em 15 anos já efetuei várias prisões, recuperação de veículos roubados, Maria da Penha, acidentes”, é o que relata a soldada Camila Nunes de Siqueira, 36 anos, natural de Arroio do Meio. Segundo ela, a mulher precisa estar preparada para executar as mesmas funções dos homens, pois mesmo com visões às vezes diferentes, o trabalho e a rotina são iguais.

Camila atua no policiamento, no atendimento de ocorrências, onde tem contato diário com a população. Destaca a boa receptividade do comércio local com os policiais.

Casada e mãe de um filho de nove anos, destaca a importância do apoio do marido para conseguir conciliar a rotina na BM e com a família. “Em casa procuro cuidar do meu filho e deixar o trabalho de lado, já que na Brigada tem dias de muito trabalho e estresse, é importante ter horário de descanso”.

A soldada não lembra de ter sofrido preconceito ao longo de sua carreira. “Procuro sempre zelar pela camaradagem em parceria com os colegas. Na carreira espero um dia passar no concurso para sargento”.

“Amor pela profissão foi cultivado”

Com 10 anos de BM, a soldado Karin Eloisa Barkert Caetano, 31 anos, de Santa Clara do Sul, é formada em Direito e cursa Medicina Veterinária pela UNISC.

Ela atua na Corregedoria do Comando Regional da Brigada Militar. Entre as atribuições, estão trabalhos administrativos como elaboração de portarias de Inquéritos e Sindicâncias, controle de prazos, finalização e remessa desses procedimentos à Justiça Militar Estadual, citação de militares para audiências, elaboração de Boletins de Ocorrência Policiais Militares entre outros, além dos serviços de permanência de 24 horas na Sede do quartel e atuação em operações externas.

Para ela, atuar num ambiente de trabalho que até pouco tempo atrás era predominantemente masculino, é desafiador. “Precisamos demonstrar que podemos ocupar o mesmo lugar que os homens na prática, fazendo as mesmas coisas e trabalhando da mesma maneira […] Acredito que a presença feminina na segurança contribua com um olhar mais sensível em relação ao todo”.

Casada com o delegado Ciríaco Caetano e mãe de uma menina de 12 anos, revela que estão habituados a essas características peculiares da profissão e lidam bem com elas. Revela que durante a carreira foram poucos os casos de preconceito. Somente no curso de formação e por parte dos próprios colegas. “Eventualmente nós mulheres ouvíamos comentários de cunho machista”.

Ela revela que jamais havia se imaginado policial quando fez o concurso, mas a carreira e as vantagens eram razoavelmente atrativas na época. Durante o curso não se via mais atuando em outra área que não a da segurança. “Foi um amor cultivado”.

Um fato marcado, logo após se formar em Montenegro, foi lotada junto à 2ª Companhia do 9º Batalhão de Porto Alegre onde permaneceu por quase um ano. Na metade de 2013 a capital foi alvo de inúmeros manifestos contra o aumento das passagens de ônibus, que sempre acabavam com um cenário de caos e destruição. “Em uma delas, fazíamos a segurança do Palácio do Governo e da Assembleia Legislativa. Foi necessária a utilização de bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral para dispersar os manifestantes, mas o mais marcante foi aquele choque de realidade ao ver colegas e cavalos sendo atingidos por tudo que se pode imaginar: pedras, galhos, urina, lixo… E mesmo assim todos cumprindo com aquilo que prometemos quando incluímos: ‘prometo dedicar-me inteiramente ao serviço policial militar, à manutenção da ordem pública e à segurança da comunidade, mesmo com o sacrifício da própria vida’ ”.

Soldada Marnie Madiery de Oliveira, 26 anos, detalha treinamento mensal e rotina da Força Tática

No futuro Karin pretende se formar na Medicina Veterinária e prestar concurso interno para Oficial Veterinário, que atua junto aos Regimentos e Canis da Instituição

Soldada Camila Nunes de Siqueira atua há 15 anos no policiamento ostensivo da BM, sendo 13 em Arroio do Meio

Por daiane