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Carta Branca

A paisagem correndo na janela

24 de dezembro de 2021 às 9h08

O fato que vou contar aconteceu num desses jantares que se armam nas empresas para marcar o fim do ano. Esses encontros em que pessoas que mal se conhecem ficam lado a lado numa mesa. A boa educação recomenda que puxem conversa e, em geral, todos se esforçam.

Eu estava na ponta de uma mesa e rodeada de gente que conhecia só de vista. De forma simpática, alguém se dirigiu a mim e perguntou em voz bem alta:

– O que tu estás fazendo atualmente?

A resposta não me veio logo. Eu fiquei meio sem jeito. Pedir um tempo para pensar como explicar seria ridículo. Tinha que dizer algo aceitável e tratei de me virar. Acho que a resposta foi satisfatória, porque a conversa logo andou para outro lado.

Mas, depois, fiquei pensando no assunto.

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Entrou no costume fazer várias coisas simultaneamente. Ficou sendo bonito não ter tempo nenhum, além de estar em múltiplas paradas. Ganha admiração quem põe velocidade no pedal e dá retorno à toda. Correria parece ser o ideal da vida. Tem de ser pra já. Sendo esta a onda, as consequências também chegam ligeirinho. O lugar para olhar, pensar, imaginar fica minguado. Quase não há espaço para ouvir. Que dirá, para entender melhor os sentimentos e arredondar ideias? E, claro, até as crianças vão sendo empurradas para o mesmo brete.

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Bom, com um pano de fundo assim, vê a sinuca em que fiquei com a pergunta sobre a atual ocupação. Seria maluquice responder que minha prioridade hoje é crescer por dentro, ganhar profundidade. Como falar em “ ser – mais do que em fazer”? Ali na mesa, na confraternização da firma, com chope liberado, como é que eu explicaria isso?

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Mas explico agora. A idade ensina coisas. Nesta especial matéria, a idade ensina que o tempo anda na velocidade dele, faz milênios. Quem passa voando ou passa devagar é a gente mesmo. O tempo é o tempo desde sempre. Sou eu que escolho como vou lidar com ele. Se eu fizer o tempo render para o interior de mim, haverá uma sensação maior de permanência, por incrível que pareça. Se eu me jogar naquilo que pode ser visto e contabilizado, a sensação de velocidade aumenta. Ou seja, a agitação faz parecer que a gente está num carro e vê a paisagem (a vida) correndo na janela.

Tenho procurado inverter essa ordem que se tornou tão comum. Em vez de sair fazendo, dou prioridade para me abastecer primeiro. Ou seja, a prioridade vai para aumentar a cota de silêncio e de reflexão, como aquecimento para cumprir obrigações.

Esta explicação – impossível numa festa – faço aqui, na tentativa de arranjar alguma simpatia entre vocês. A explicação serve também para mostrar o sentido que dou para os votos de Boas Festas, que faço.

O desejo é que haja menos atucanação e mais serenidade e contentamento.

Forte abraço!

Por daiane