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História negra no Vale do Taquari

, 19 de novembro de 2021 às 8h59

Por Dra. Karen Daniela Pires


O presente texto, tem como objetivo apresentar um pouco da história do escravismo afro-brasileiro na atual região do Vale do Taquari/RS, território este, que no passado pertencia ao município de Taquari. No ano de 1849, Taquari se desmembrou de Triunfo/RS. Na época, seu território correspondia a uma grande área, envolvendo os atuais municípios de Lajeado, Venâncio Aires, parte de Guaporé, Santa Cruz (colônia de Monte Alverne), Estrela e a atual Vila de Santo Amaro do Sul. A configuração territorial de Taquari começou a se modificar no ano de 1866, com a transferência da Colônia Monte Alverne, da Freguesia de Santo Amaro, para a Freguesia de Santa Cruz, em Rio Pardo. Por muito tempo a temática da escravidão negra foi silenciada, pouco citada em publicações sobre história regional no Vale, com isto, por muito tempo a impressão foi que nesses espaços dos municípios do Vale do Taquari o escravismo tinha ocorrido de forma insignificativa, pouco numeroso em comparação com outras regiões do Brasil. Porém, com o avanço de pesquisas acadêmicas o tema da escravidão passou a ser visto com um olhar diferente, com a tabulação de dados retirados de variadas fontes documentais, percebeu-se que houve uma escravidão em padrões de grandes escravarias e por um longo prazo.

Então, há uma urgência na apresentação dessa temática e no conhecimento da diversidade dos grupos étnicos que compuseram o Vale e que compõem, sendo que os descendentes de escravizados estão vivendo na região. Vivemos em um país extremamente racista que por séculos exclui negros, não se pode mais ocultar o passado e fechar os olhos para a contínua violência contra o povo negro. Essa violência histórica precisa ser reparada no Vale do Taquari, pois esse espaço faz parte desse passado criminoso contra a população negra escravizada. A continuidade do silêncio para com esse passado é a permanência dos privilégios dos brancos, de uma cultura europeia que sempre se colocou como a melhor e mais celebrada nos municípios da região. A construção de um país democrático se dá com a plena conscientização histórica e social de todos os grupos étnicos. Infelizmente, é preciso avançar muito nesse sentido na região, a população negra é vista como inferiorizada e invisibilizada.

Aos, poucos os grupos negros, as comunidades quilombolas, reconhecidas pela Fundação Palmares, estão ocupando espaços de fala e estão mostrando sua voz e seu empoderamento na região. O movimento atual também está quebrando com o silenciamento a respeito da história afro-brasileira. Essas movimentações não ocorrem somente no mês da consciência negra, pois durante todo o ano eventos e rodas de conversa são propostas pelo movimento negro da região. Importante frisar que o debate sobre a cultura afro não deve ocorrer em datas marcadas, há uma urgência de se falar sobre os problemas raciais o ano todo, somente com um debate contínuo e intenso é que se acabará com o racismo. É necessário conhecer e debater o sistema escravista para que as pessoas entendam que a história do Vale não começa com a chegada dos imigrantes alemães e italianos, antes disso, havia muitos trabalhadores escravizados em propriedades que se situavam nas margens do rio Taquari e em locais mais afastados. Estas pessoas escravizadas eram de diversas partes do continente africano e de outras regiões do Brasil.

Estes trabalhadores escravizados foram trazidos por proprietários de fazendas, estes donos eram portugueses que foram adquirindo terras e muitos ganharam lotes do rei de Portugal, as chamadas sesmarias. Em estudo, se notou os diferentes grupos étnicos dos escravizados, sendo de origem do Congo, Angola, Moçambique, Costa da Mina, entre outros, com estes exemplos, já é possível notar a diversidade cultural dessas pessoas. Estas estiveram aqui na região do Vale, com certeza, e seu legado cultural permanece com os descendentes, e isso não é falado. As pessoas não sabem disso, não sabem da ligação dessa região com o continente africano, assim como, todo o Brasil. O Brasil é um país de maioria negra, que não esqueçamos.

Saiba mais sobre a pesquisadora e a pesquisa:

Karen, no mestrado em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) da Univates, fez uso de fontes documentais cartoriais, entre elas, cartas de alforria, compra e venda de escravizados, processos-crime, testamentos, inventários. Tais documentos forneceram um amplo banco de dados para o aprofundamento do estudo da escravidão afro-brasileira. Já, na tese defendida pelo mesmo programa de Pós-graduação, na mesma universidade, tratou da exploração de fontes paroquiais que foram essenciais para entender dinâmicas escravistas não exploradas na dissertação de mestrado.

Por daiane