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Carta Branca

Sobre a escravidão

7 de outubro de 2021 às 15h50

Quando você viaja, já sabe que a mala vai voltar com alguma esfoladura e nem se importa. Sabe que compensa. A experiência da viagem é transformadora. Com a leitura é a mesma coisa. A terminar um livro realmente bom, nós somos outra pessoa.

Digo isso para prevenir sobre o que vai lhe acontecer com a leitura que recomendo aqui. O título é “Escravidão”. O autor, Laurentino Gomes – um conhecido jornalista. Aliás, são três livros e não apenas um, porque a obra “Escravidão” está dividida em três volumes. Bem mais do que mil páginas são necessárias para contar a história da escravidão no Brasil. E você vai perceber que o que “Escravidão” mostra é só a ponta do iceberg.

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O primeiro dos três volumes de “Escravidão” foi lançado em 2019. Cobriu um período de mais de 250 anos, desde o primeiro leilão de cativos em Portugal, em 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.

O segundo volume, foi lançado neste ano. Concentra-se no século XVIII, o século que marcou o auge do tráfico negreiro através do Atlântico. Nesse período mais de seis milhões de seres humanos foram comprados na Africa e vendidos no Novo Mundo. O Brasil sozinho recebeu um terço desse total.

O terceiro volume ainda não foi publicado. Será dedicado ao movimento pela abolição da escravatura, em 1888, e às consequências da escravidão na vida brasileira.

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Acabo de completar a leitura dos dois primeiros volumes da trilogia. Tenho certeza de que li uma das obras mais importantes já publicadas no Brasil. Verifico que a minha ignorância sobre o assunto era arrasadora. Eu não sabia que no total o Brasil importou quase 5 milhões de pessoas para servirem de escravos e que a soma representou 40% de todos os negros trazidos para o continente americano.

Eu não sabia que os comerciantes de gente não davam a mínima bola para arrancar à força os negros da sua terra ou separar famílias. Eles se preocupavam em fazer negócios rendosos. Contavam a mercadoria humana usando a palavra “peça”. Eu não sabia que todos os que podiam compravam um escravo, inclusive as congregações religiosas e os escravos libertos. Eu não sabia quase nada sobre a escravidão no Brasil.

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Confira aí se você imaginava uma cena como esta que Laurentino Gomes descreve:

“Na chegada no brasil, a carga dos navios negreiros era vendida em leilões em praça púbica. Nessas ocasiões, homens e mulheres eram lavados, depilados, esfregados com sabão, untados com óleo de coco ou dendê, pesados, medidos, examinados e apalpados em suas partes íntimas, obrigados a correr, pular e exibir a língua e os dentes. Ao termino desse metódico ritual, vendedores e compradores acertavam o preço de acordo com a idade, o sexo e o vigor físico dos cativos que, em seguida, eram marcados a ferro quente com as iniciais da fazendo ou o nome do seu novo proprietário. Por fim, com argolas e correntes atadas aos pés a ao pescoço, marchavam a pé rumo ao novo local de trabalho.”

Nós precisamos falar muito mais sobre a escravidão no Brasil.

Por daiane