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Economia

Alta da Selic impacta nos investimentos e no consumo

, 1 de outubro de 2021 às 8h50

Na tentativa de controlar a alta da inflação, o Banco Central, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom) subiu mais um ponto percentual a taxa básica de juros, a Selic, na semana passada, chegando a 6,25%. Desde o início do ano foram cinco aumentos, acumulando uma alta de 4,25 pontos, saindo de 2% para 6,25%.

Por mais que o assunto possa parecer distante, o aumento da Selic implica diretamente no dia a dia de todos, já que é a taxa básica do sistema bancário. Um dos reflexos diretos é o encarecimento do crédito, que freia o consumo e também os investimentos. “As empresas, muitas vezes, compram com prazo de 30 dias para pagar, mas vendem o produto com prazo de 60, 90 dias, ou mais. Esse crediário oferecido ao consumidor vai ficar mais caro. Além disso, as empresas, especialmente as indústrias, deixam de fazer investimentos esperando o momento em que o crédito for mais atrativo”, explica o gerente-geral da agência do Banco do Brasil de Arroio do Meio, Edson de Castro.

O gerente explica que o Governo tenta, com a medida, frear o consumo, o que gera mais oferta de produtos e a consequente queda de preços. “A inflação tem muito a ver com a oferta e procura. Por um lado, temos a escassez de produtos por causa da pandemia, o que encarece bastante, mas, ao mesmo tempo, ainda temos o consumo. Por mais alto que alguns preços estejam, o consumidor segue comprando. E é justamente nisto que o Governo tenta dar uma segurada”, avalia.

Por mais que a elevação da Selic seja necessária para conter a inflação, que vem crescendo há meses, há o risco de retração da indústria e do comércio, o que pode aumentar o desemprego. Para Edson, a partir do momento que empresas deixam de investir porque o crédito está alto, novos postos de trabalho que poderiam vir de ampliação de produção, deixam de ser criados. “É um efeito em cadeia. Como comprar fica mais caro, as pessoas vão protelar sonhos e alguns gastos maiores. Quem depende de financiamento, seja para trocar de carro, adquirir a casa própria, ou investir na ampliação do negócio, tende a esperar”, afirma.

O gerente reforça que, para quem já possui empréstimos junto aos bancos, nada muda com a alta da Selic. O impacto está atrelado somente aos novos contratos. A exceção são aqueles que utilizam taxas pós-fixadas, que variam conforme o indexador atrelado.

Por outro lado, a alta da Selic deve atrair investidores estrangeiros que passam a ver uma boa rentabilidade no Brasil, se comparado a outros países. Deve ocorrer uma grande entrada de capital estrangeiro no mercado interno, valorizando o real frente ao dólar. Neste cenário, exportar pode não ser mais tão vantajoso e a maior oferta de produtos no mercado interno pode forçar a queda de preço ao consumidor final.

Poupança mais atrativa

As sucessivas altas da taxa Selic têm feito alguns investidores voltarem os olhares para a caderneta de poupança, que passa a ter rendimentos maiores. Desde 2012, a poupança rende anualmente 70% da Selic, sempre que esta estiver abaixo de 8,5%. Com mais rentabilidade, a poupança se torna uma alternativa para quem migra dos investimentos de risco para os de renda fixa.

Impactos diretos na cadeia produtiva, que fica mais cara

O presidente da Câmara da Indústria Comércio e Serviços (CIC-VT) Ivandro Rosa diz que é preocupante o aumento da Selic, tendo em vista o encarecimento de recursos para empréstimos e novos investimentos ou até o financiamento da safra e outras movimentações necessárias para a produção industrial. “Acaba encarecendo a cadeia produtiva como um todo. Somado a essa questão do aumento da taxa Selic, também nos preocupa por demais esse aumento que ocorreu no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), na semana passada, com uma medida provisória que acabou elevando as taxas. Isso impacta diretamente no custo das operações de crédito”, observa.

A alta do IOF, em caráter temporário até o fim do ano, tem por objetivo, segundo o Governo, custear o programa social Auxílio Brasil, a versão reformulada do Bolsa Família, e compensar a isenção de tributos federais na importação de milho.

Para Ivandro, o aumento de tributos acaba agravando a crise e complicando a retomada econômica. Diz que o aumento da Selic já era esperado, tendo em vista o controle da inflação, mas a questão do IOF foi uma surpresa. “Nos preocupa muito porque nossa expectativa era de um número expressivo de contratações, agora no final do ano. São contratações temporárias que muitas vezes acabam se tornando definitivas. O mercado de trabalho estava sendo movimentado e esses aumentos de Selic e IOF acabam diminuindo esse vigor da retomada”, explica, ponderando que muitos investimentos não serão feitos.

Para o presidente da CIC-VT a mudança de cenário econômico é lenta. A curto prazo vê apenas o estímulo do comércio que vai contratar para o Natal. “Não há um cenário muito favorável para 2021. Devemos ter PIB perto de 5%, juros altos e inflação perto de dois dígitos. O PIB não reflete uma expansão uniforme da economia”, afirma. A tendência, destaca, é de que a crise do milho, que eleva custos de produção das proteínas animais, se estenda até agosto do ano que vem.

Agregar valor

Cita o agronegócio como exemplo, onde o Brasil tem optado, há décadas, por exportar matéria-prima, como o milho, o que não agrega valor aqui. A exportação não paga ICMS, não gera salários e não agrega valor ao produto. “Essa questão da desindustrialização é um processo que começou há muitos anos e nós nunca tivemos a um nível como estamos agora, quando a indústria representou tão pouco na economia”.

Em âmbito regional, está sendo criado um Arranjo Produtivo Local de bebidas e alimentos, para estimular o segmento. “Entendemos que este setor pode ser incrementado porque gera valor agregado, renda, tributos”, diz.

Reformas

Ivandro dimensiona que os problemas econômicos não são apenas resultados da pandemia e acredita que o caminho passa pela aprovação de reformas. Mas como o próximo ano é eleitoral, não prevê grandes movimentos neste sentido. “Em poucas palavras: não é de um dia para o outro que chegamos à situação que estamos e não é de um dia para outro que nós sairemos”, sentencia.

Gerente do Banco do Brasil Edson de Castro explica que o crédito mais caro visa conter a inflação

Presidente da CIC-VT Ivandro Rosa acredita que alta da Selic e do IOF vão postergar investimentos

Por daiane