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Chimarrão: tradição que se adapta e perpassa gerações

, 17 de setembro de 2021 às 10h15

Bebida símbolo do Rio Grande do Sul, o chimarrão já foi cantado em dezenas de músicas, de milongas a vaneiras, por inúmeros artistas. Do litoral à campanha e de norte a sul, para boa parte dos gaúchos, apreciar o chimarrão é um ritual quase, se não, diário. Pela manhã, antes ou depois do almoço e no fim do dia, sozinho ou numa roda, o hábito perpassa gerações.

Para a coordenadora da 24ª Região Tradicionalista, Luce Carmem da Rosa Mayer, nada representa mais a hospitalidade do gaúcho e o bem receber do que servir um chimarrão quando recebe uma visita. As rodas de mate, afirma, mantêm as tradições. Mesmo diante da pandemia, com a recomendação de que cada um tenha sua própria cuia, exceto as pessoas que residem juntas. “Nas rodas de conversa, cada um traz seu chima”, destaca, observando que dá para cultivar a tradição com segurança e os cuidados necessários.

O Peão Veterano do CTG Querência do Arroio do Meio, Jonas Bica, lembra que as rodas de chimarrão têm sua origem na cultura indígena. Observa que as diversas tribos que ocorrem na América Latina, de uma forma geral, têm o hábito, em determinado período do dia, de sentarem-se para conversar sobre diversos assuntos do cotidiano. “Para eles isto é um ritual, de sentar-se e comungar experiências, lições, orientações, etc. Os indígenas sul-americanos, de diversas formas utilizam ervas nestes rituais de conversas. Os indígenas dos andes, mascam folhas de coca; na Amazônia, os indígenas comungam um pó de uma erva que colocam na boca, os kaingangs e guaranis sorvem a infusão das folhas de erva-mate. Diante disto, a partir do contato dos espanhóis com os guaranis, passam a adotar o hábito de sorver o chimarrão em comunhão, como já faziam os indígenas antes mesmo do contato com os brancos”.

Mesmo que a pandemia tenha forçado algumas mudanças, o chimarrão segue firme e forte. Jonas destaca que a cultura gaúcha, ao longo da história, demonstra a capacidade de adaptar-se aos novos horizontes. Como exemplo cita o próprio chimarrão, que adaptou materiais aos avios do mate, nos primórdios dos contatos dos espanhóis com indígenas. Depois, na guerra do Paraguai, quando o gaúcho passou a utilizar bombacha e poncho (ou marinheira). “A pandemia traz outra adaptação na história evolutiva do gaúcho, a roda de mate passa a ser menor, em seus pequenos ciclos familiares, já que a característica dos vírus, de uma forma geral, é a transmissão através de líquidos, como gotículas oriundas de espirro, lágrimas, ou saliva. O hábito muda, mas não acaba, se reinventa e segue o seu caminho”.

Como gostos não se discutem, a definição de um bom chimarrão é muito particular. Há quem prefira ervas mais fortes, aos modos da fronteira, e outros que preferem um chimarrão mais suave. Segundo o Peão Veterano, mulheres, de uma forma geral, gostam de ervas (ou jujo) no chimarrão, como massanilha, cidreira, erva-doce, macela, entre outras. Crianças gostam, no início, quando estão aprendendo a tomar chimarrão, de açúcar ou mel no mate. Homens, de uma forma geral, gostam de chimarrão sem adornos ou outras infusões, senão a erva, puramente. “Em todos um consenso: a água da cevadura não pode queimar a erva, ou seja, faz-se o chimarrão com água morna. Para sorver o mate, a água entre 60 e 70 graus. No mais, o gosto de cada pessoa formata o seu chimarrão com a cuia, bomba e erva a seu gosto”, observa.

Por daiane

Peão Veterano Jonas Bica diz que a pandemia forçou mudanças nas rodas de mate, mas a cultura gaúcha demonstra capacidade de adaptar-se aos novos horizontes