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Dia do Trabalho

“Como profissional da linha de frente, é preciso ter um olhar humano e de empatia com a história de cada paciente individualmente”

, 30 de abril de 2021 às 10h25

A enfermeira Suélen Fernanda Schneider, 24 anos, mora na Barra do Forqueta e atua no Hospital São José (HSJ), em Arroio do Meio, desde janeiro de 2014. Acostumada com o dia a dia do ambiente hospitalar, que reúne momentos de alegria, como nascimento de um bebê e outros de dor e sofrimento, vê a pandemia como a situação mais desafiadora já enfrentada profissionalmente. Até ser realocada para a ala covid-19, em fevereiro Suélen trabalhava no centro cirúrgico. Em entrevista ela conta como é o dia a dia dos profissionais da linha de frente na luta contra a doença que já ceifou a vida de mais de três milhões de pessoas em todo o mundo.

AT – Como foi ser destacada para o atendimento de pacientes com covid-19? Sentiu medo? Qual foi a reação da família?

Suélen – No primeiro momento sim, senti medo com relação a estar mais próxima de uma situação tão difícil que estamos vivendo dentro do hospital, onde ainda nada é totalmente certeiro, onde os profissionais não estão totalmente preparados, onde tudo é imprevisível e novo. Lembro que no dia em que fui realocada para a ala covid, cheguei em casa exausta por ainda estar assimilando tudo, conversei com meus pais sobre a mudança, eles apenas me deram força, dizendo que sabiam da minha capacidade de enfrentar aquilo no momento e que, em casa, manteríamos os cuidados que já vínhamos tomando desde 2020. Essas palavras de apoio me ajudaram naquele momento.

AT – Um ano depois dos primeiros casos, há muito mais conhecimento sobre a doença. O que mudou de março de 2020, quando tudo ainda era desconhecido, para os dias atuais?

Suélen – O mundo mudou, e aquele mundo que vivíamos antes da covid não existe mais. A vida de todos mudou. Não digo apenas no nosso cotidiano como profissional de saúde, mas no sentido de que hoje nossos valores são diferentes. Acredito que desde março de 2020 até hoje, a ala covid se fortaleceu, se preparou mais para atender casos graves. Os profissionais da ala se uniram e adquiriram mais conhecimento para atender o paciente, a família e todo envolvimento emocional. E, claro, a própria instituição, com a ajuda de empresas, conseguiu modificar a ala covid, com a compra de diversos insumos e materiais importantes para o atendimento à comunidade.

AT – Quais foram e são os principais desafios desta função?

Suélen – A pandemia trouxe não só desafios para os profissionais de saúde em questão emocional e da falta de conhecimento para lidar com a covid, como também para a instituição no sentido de reorganizar o atendimento, ampliar leitos e abastecer-se com equipamentos de proteção individual e medicamentos, sendo que houve escassez no mercado, exigindo muita logística de todos para tudo funcionar. Outro desafio que muitos profissionais sentiram foi a apreensão de sermos realocados para um novo setor. Sair do nosso espaço habitual é sempre um grande desafio.

AT – Muito se fala que o paciente com covid precisa de atendimento diferenciado, quando se compara com outras doenças. Além da questão física, há o aspecto emocional e psicológico, a distância da família, o medo da morte. Como você, enquanto profissional da linha de frente, percebe isso tudo? Como é esse dia a dia de quem está internado?

Suélen – Um dos maiores desafios que a covid trouxe a todos, foi o abalo emocional. Se para nós profissionais da saúde, esse enfrentamento é difícil, para o paciente internado é ainda pior, pois ele se encontra em um ambiente diferente, em que a família não pode estar por perto e, muitas vezes, a comunicação apenas por mensagem não é o suficiente para acalmar os dois lados. Sempre existem dois lados e precisamos dar suporte para ambos. Como profissional da linha de frente, é preciso ter um olhar humano e de empatia com a história de cada paciente individualmente, o seu bem-estar emocional com certeza implica na melhora do quadro da doença.

AT – No mês de março houve muitos casos graves em Arroio do Meio e em todo Estado, causando sobrecarga do sistema de saúde. Como esta sobrecarga afeta vocês profissionais da linha de frente?

Suélen – Sobrecarga do sistema de saúde consequentemente implica na sobrecarga de trabalho dos profissionais da linha de frente. Principalmente no mês de março, além da demanda maior de casos graves, tivemos profissionais afastados pela doença, sobrecarregando ainda mais a equipe. Eu via todos os meus colegas exaustos fisicamente e emocionalmente, trabalhando muito além da sua carga horária para atender a demanda daquele momento e ajudar o turno seguinte. Procurávamos uns nos outros, motivos para seguirmos firmes. Consequentemente essa sobrecarga afeta nossa vida pessoal. É um ciclo. Levamos muito cansaço emocional para casa, voltamos com ele no dia seguinte para um novo dia de trabalho e assim por dias, sem sabermos se haveria um fim.

AT – Que aprendizado a pandemia e seu entorno tem lhe trazido para a vida como um todo?

Suélen – Um dos motivos que me manteve firme na covid, foi pensar no aprendizado que eu iria adquirir naquele momento para a minha vida profissional e pessoal. Sempre digo que cresci muito como enfermeira, compreendi ainda mais a importância de um atendimento humanizado e com empatia, fui em busca de conhecimento para atuar na pandemia e atender pacientes críticos, isso levarei por toda minha vida profissional. Minha vida pessoal também mudou, aprendi a apreciar mais o pouco tempo que tenho livre em casa com minha família, aprendi a me conhecer mais e dar valor a pequenos momentos e conquistas. Eles são únicos.

Suélen: após a experiência da pandemia, aprendi a apreciar mais os momentos livres e dar mais valor a pequenas conquistas

Por Alan Dick