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José Clóvis Soares: estamos vivendo o caos

, 26 de março de 2021 às 9h25

O tão alardeado colapso do sistema de saúde, que no início da pandemia de coronavírus era uma grande preocupação e que no decorrer de quase um ano pareceu distante, chegou. Com o número de casos da doença em alta, os hospitais estão com muita dificuldade para atender os doentes, especialmente os casos graves, para os quais os recursos da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) são uma esperança.

Nos cinco hospitais da Rede de Saúde Divina Providência são 640 leitos. 350 são destinados exclusivamente para o tratamento da covid-19. A estrutura de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) foi triplicada desde o início da pandemia, segundo o diretor-geral de Operações de Saúde da Rede de Saúde Divina Providência, José Clóvis Soares. Eram 36 leitos e hoje são 122, com a possibilidade de atender mais 18 pacientes em ventilação mecânica, totalizando 140. Mesmo assim, o sistema não é suficiente para a demanda, visto que o número de pessoas contaminadas segue aumentando. “Hoje os hospitais estão atendendo além da capacidade e não se consegue atender da forma como se gostaria”, avalia.

O problema, segundo Soares, vai muito além da estrutura física, pois envolve a necessidade de profissionais de saúde, equipamentos e insumos. Na semana passada a situação de vários hospitais gaúchos foi manchete, após direções explanarem em encontro virtual da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa, o cenário enfrentado. “É um caos, não temos que nos conformar. Continuamos tentando salvar o maior número de pacientes, mas é um momento muito difícil”, pontua José Clóvis. Ele revela que as equipes estão se deparando com pacientes agravando e sem equipamentos disponíveis. Também há hospitais que estão com iminência de falta de oxigênio ou déficit nos recursos humanos.

Se não bastasse a falta de estrutura, os hospitais enfrentam um problema ainda mais grave: os baixos estoques de medicamentos necessários para a intubação de pacientes graves. “A falta de medicação está nos assombrando. Já estamos utilizando alternativas, um segundo protocolo, mas mesmo assim corremos o risco de logo não termos medicação para atender os pacientes já internados. Além de não conseguir tratar os que já temos, não vamos conseguir receber novos pacientes”, alerta.

O diretor salienta que os hospitais estavam preparados com um estoque ampliado para, pelo menos, 60 dias, mas o consumo tem sido muito alto em função do aumento dos casos graves de covid-19. Foram abertos e ocupados mais leitos de UTI, além de haver muitos pacientes intubados esperando vaga no tratamento intensivo – na terça-feira a rede estava com 98 pacientes esperando vaga em UTI.

Soma-se a isso o fato de o cronograma de entrega não ter sido cumprido pelo fornecedor, o que comprometeu gravemente a reserva dos hospitais. Os governos Federal e Estadual já foram acionados para auxiliar. Uma das saídas encontradas é a importação destas drogas, o que esbarra em burocracias da Anvisa e causa demora. “Os hospitais estão buscando alternativas, mas não temos condições de enfrentar isso sozinhos”, afirma Soares, salientando que há um esforço muito grande por parte de quem está na linha de frente em salvar vidas. “Esse cenário abala os profissionais e a todos. Estamos perdendo pacientes que, em outras realidades, poderiam ter chances de ficar bem, se recuperar”, reforça.

A possibilidade de colapso do sistema de saúde foi alertada às autoridades estaduais e federais ainda no início do ano. “Sabíamos que não daríamos conta. Estão morrendo pessoas que não precisavam morrer porque estão demorando para chegar no ventilador (pulmonar). Não temos estrutura para atender todos casos críticos. E quanto mais o paciente demora a chegar neste atendimento, menor sua chance”. Segundo ele, a maioria das vagas que abrem na UTI é por óbito.

Para Clóvis, é preciso lutar para que o número de casos diminua. “Temos que segurar a curva para termos condições de atender essas pessoas”, afirma. Destaca que há casos graves em diversas faixas etárias e as variantes têm tornado o vírus mais transmissível. Para ele, um dos principais fatores para o colapso da saúde é de que a população relaxou nas medidas de preventivas, com festas e aglomerações, sem uso de máscara. E faz um apelo: “mantenham o distanciamento social. A pandemia é um problema de todos. Não é o momento de aglomerar. Nós da linha de frente não estamos dando conta. É um desgaste muito grande para todos”.

Custos muito elevados

Outro ponto observado pelo diretor é o aumento no preço de insumos e medicações. Cita como exemplo o rocurônio, cuja ampola passou de R$ 12,58 para R$ 33,33 e chegou a ser ofertada a mais de R$ 300. A medicação, que integra o chamado kit intubação, é uma das que estão com estoque baixo e possui uma demanda grande: cada paciente intubado utiliza 10 ampolas ao dia.

A situação exposta acima dá uma ideia de quão alto é o custo de um paciente covid-19. Além da medicação e insumos, o cuidado é intensivo, demandando mais profissionais no seu atendimento. “Os hospitais estão se endividando, fazendo investimentos além da condição. Mas o foco principal é salvar vidas. Estamos pagando mais caro, mas não estamos deixando de comprar o que é preciso para atender aos pacientes. A vida vem em primeiro lugar. Depois temos de ver como fica a questão financeira. Precisamos mais recursos e de ajuda para pagar essa conta”, declara.

Tratamento

José Clóvis afirma que a covid-19 tem um comportamento ainda desconhecido e cada caso é único. Há quem evolua para a gravidade de forma rápida, enquanto outros pacientes apresentem sintomas mais leves.

Questionado sobre o chamado kit tratamento precoce, o diretor afirma que, segundo relatos dos profissionais médicos da rede, há casos com sucesso e outros não. Além disso, há vários tipos de medicações sendo testadas, mas ainda não há um tratamento específico. “Estamos ainda aprendendo sobre essa doença”, observa.

O HSJ

Conforme dados da Secretaria de Saúde do Estado, com base no que é repassado pelos hospitais, o HSJ estava com 17 pessoas internas na manhã de ontem com diagnóstico ou suspeita de covid-19. O número representa uma taxa de ocupação superior a 100%. O HSJ conta com 13 leitos covid-19. No último boletim da secretaria de Saúde de Arroio do Meio, 16 pacientes do município estavam internados no HSJ. Um em estado crítico, aguardando vaga em leito de UTI.

Por Alan Dick

José Clóvis Soares é Diretor-Geral de Operações de Saúde da Rede de Saúde Divina Providência, formada por cinco hospitais, dois em Porto Alegre, o HSJ em Arroio do Meio, o Estrela e o Santa Isabel de Progresso. Ele também é membro da diretoria da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Filantrópicos e Religiosos do RS