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CORONAVÍRUS (COVID-19): O TEMPO NÃO FAZ QUARENTENA

, 3 de julho de 2020 às 10h45

Em 1º de janeiro de 2020 a tão esperada virada de ano chegou. Festas, brindes, risos, juramentos, novos planos, novas metas, desejos e objetivos para realizar no decorrer dos 365 dias do novo ano. Férias escolares, férias no trabalho, praias, passeios, carnaval, etc. Notícias sobre infectados e mortos pelo coronavírus na China. Os dias se passaram e a pandemia lentamente se alastrou e tomou conta do mundo. Quase tudo parou, menos o tempo! Dúvidas, ansiedade, angústia, pânico e medo da morte tomam conta em parte da humanidade. Ficar em casa, se higienizar, não abraçar, manter o distanciamento social e o comércio baixando as portas se tornam reflexos do começo de um período caótico.

E o tempo? Ah, esse não para! Há cerca de cinco meses, a sociedade começou a se reconfigurar mundialmente. A descoberta de um novo vírus circulando pelo planeta impôs mudanças imediatas para conter uma transmissão que ainda se alastra matando pessoas em centenas de países. De um dia para o outro, fomos orientados a mudar a rotina, os hábitos e o modo como trabalhamos, estudamos e nos comportamos com as pessoas. Nunca se viveu, nas últimas décadas, uma pandemia que afetasse tantos países ao mesmo tempo e por isso ninguém estava preparado. Enquanto não existir uma vacina ou um tratamento eficaz que garanta a segurança em andar na rua sem o uso de máscara e sem medo de uma possível contaminação e, provavelmente o pior, de infectar o outro ou a própria família, a sociedade não será a mesma. Estamos aprendendo durante essa fase uns com os outros.

Aprendendo com a dor da perda, a preocupação, a incerteza, a angústia, a ansiedade, o estresse, a solidão, o medo da morte… A pandemia “coronavírus” vem ensinando que as pessoas precisam mudar e dar valor ao que realmente importa: a união e a vida. Hoje sentimos falta do que sempre tivemos: a liberdade de ir e vir, o abraço espontâneo e o aperto de mão fraterno. A crise gerada mudou profundamente o modo de vida contemporâneo no mundo todo com possíveis consequências ainda inimagináveis.

Pais, filhos, famílias e sociedade em grande parte sentem-se angustiados à espera do reencontro ao recomeço. Sentimos falta da rotina, essa mesma rotina que estressava, angustiava, que gerava cansaço e correria. Sim, hoje muitos estão a sentir falta da rotina, onde o tempo era sem tempo para um diálogo, para um bate-papo com o vizinho, um almoço em família, um passeio com amigos. A falta de tempo para verificar o caderno dos filhos, para participar da reunião na escola, para fazer uma atividade física, para cuidar de si, para amar, para viver. Não se tinha tempo ou o tempo tornava-se pouco mediante a tantas e tantas tarefas. E agora?

Agora, deseja-se imensamente que tudo volte ao normal, que a rotina se restabeleça. Não sabemos como lidar com sentimentos, não sabemos o que fazer como o tempo, não sabemos como lidar com o que sentimos e pensamos. Agora vivemos sem saber o que fazer desse tempo sem rotina certa, com filhos estudando em casa virtualmente, com famílias fisicamente unidas, com home office (trabalho remoto). Estamos, agora, em um processo de “catarse”, um caldeirão que ‘mistura’ medos, ansiedades, estresse do tempo, ócio, novos desafios, fragilidades pessoais e políticas.

Não se restringe a não termos mais contato físico uns com os outros, mas sobre reflexões a respeito de nossas responsabilidades e limites. Temos de aprender a reconhecer as diversas potencialidades de cada situação que vivemos para, assim, desenvolver as multiplicidades de experiências como a fé, a solidariedade, a mudança de perspectiva e a valorização da vida. Estamos em um tempo de novos aprendizados, oportunidades e planejamentos. O período é atípico, portanto, será de grande valia compreender os fenômenos de modo mais amplo e enxergar vários aspectos da situação, a fim de tomar as melhores decisões possíveis. Não podemos esquecer que a parada se faz necessária, porém a viajem continua já que o tempo não para.

Na tentativa de evitar a proliferação do vírus, o ensino também carece de muita atenção para que se consiga vencer o distanciamento físico e criar novos caminhos para o processo de ensino-aprendizagem. Lembrando que a prática de ensinar é de responsabilidade dos professores, da escola e a de educar é de responsabilidade da família, dos pais. Portanto, a participação das famílias sempre foi peça essencial na engrenagem de uma boa gestão educacional. No momento em que as atividades presenciais estão suspensas, ela se torna ainda mais importante. Essas famílias precisam também ser apoiadas em suas necessidades para que consigam dar apoio às crianças e aos adolescentes estudantes na medida do possível e considerando suas vulnerabilidades.

Somos eternos aprendizes. Portanto, quando tudo passar, o mundo será um lugar mais empático. Precisamos ser otimistas para que também possamos manter um estado afetivo mais saudável, minimizando, no futuro, o risco de sintomas mais graves como o estresse pós-traumático, que é tão prejudicial à saúde quanto o atual momento de medo. Não é a primeira vez que precisamos enfrentar desafios. Alguns de nós, inclusive, crescemos com o caos e a perda e descobrimos que estamos bem preparados para este momento. A arte de colocar leveza na vida é necessária nestes momentos difíceis. Ser leve nos momentos bons é fácil. O difícil é colocar leveza nos momentos difíceis, esses são os vitoriosos. Lembrem-se: os momentos bons, assim como os momentos difíceis, passam, pois o tempo não para!

Por Alan Dick