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Iolanda Giasson: a liderança que mudou a vida das mulheres do meio rural

, 6 de março de 2020 às 15h55

O espírito mobilizador continua muito forte na professora aposentada Iolanda Menta Giasson. Aos 80 anos, depois de ter incutido o espírito de luta em centenas de mulheres, continua atenta e mobilizada pelas causas sociais. Na década de 1980, sua presença foi decisiva para mudar a vida das trabalhadoras rurais do Vale do Taquari e de outras regiões.

Iolanda chegou em Lajeado no fim dos anos 70 com a missão de trabalhar com mobilizações populares, especialmente de mulheres. Natural de Ijuí, escolheu a cidade para se estabelecer com os três filhos e o marido Zildo, que fora transferido para trabalhar em Porto Alegre. Em Ijuí o casal de professores já atuava em mobilizações populares e, no Vale do Taquari, Iolanda percebeu que havia muito a fazer. As mulheres do meio rural eram desassistidas, não tinham direitos constituídos e viviam uma realidade dura e injusta. Sofriam preconceito ao irem para a cidade, não tinham voz dentro de casa, estavam sobrecarregadas com os afazeres domésticos, da lavoura e os cuidados com a família. Eram muitas obrigações e pouca valorização.

Atuante no Movimento de Evangelização Rural (MER), a professora começou a fazer reuniões nas quais as mulheres explanavam sobre seus problemas e desconfortos sociais e emocionais. Era, possivelmente, um dos poucos espaços de fala que as mulheres do campo tinham. Nos encontros podiam expor suas angústias e seus anseios. Queriam respeito e os mesmos direitos que as mulheres que trabalhavam nas fábricas tinham: o auxílio doença e maternidade e o acesso à saúde e à aposentadoria. Para alcançar esses direitos, precisavam existir legalmente, visto que a profissão de trabalhadora rural não constava na Constituição. Este era o grande desafio.

Em Arroio do Meio, Iolanda esteve pela primeira vez a convite da Emater/RS-Ascar. Palestrou, ouviu os problemas e incutiu nas mulheres o espírito de organização e mobilização pelo que desejavam. Encontrou um terreno fértil, que já tinha sido preparado pelas Missões Populares, que incentivaram as mulheres rurais a buscarem seu lugar ao sol. “Eu sempre mostrava que a solução era a organização, a mobilização e que as mulheres rurais precisavam lutar para garantir seus direitos. Era uma luta de classe, tinham de batalhar para terem a profissão de trabalhadora rural reconhecida na Constituição”, recorda.

As mulheres mostraram sua força e a mobilização, mesmo que rechaçada por muitos homens e, no início, sem o apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, cresceu consideravelmente. Iolanda trabalhou na formação de líderes que foram multiplicando as reuniões nas comunidades e, em março de 1985, debutava o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR) de Arroio do Meio.

A partir dos encontros do oito de março, realizados em várias regiões do Estado, as mulheres trabalhadoras rurais organizaram um grande encontro estadual, em outubro de 1985, no Gigante da Beira-Rio. Agora ninguém mais segurava as mulheres que lutavam por reconhecimento e dignidade. “As mulheres são muito guerreiras. Quando têm um propósito vão até o fim, não têm medo. São muito sábias. Podem não ter a informação, mas têm muita vontade de aprender e são generosas. Muitas mulheres tiravam dinheiro do bolso para pagar a passagem para as outras”, lembra Iolanda.

Do tempo em que atuou junto às mulheres, Iolanda observa que nunca tomou decisões por elas. Sempre as encorajou para que fizessem suas próprias escolhas. Educadora popular, fã de Paulo Freire, usou de um método de trabalho baseado em questionamentos e análises a partir do problema sentido. Buscava elevar a auto-estima das trabalhadoras rurais e, de certa forma, apresentar um mundo que lhes era negado. “Fazíamos seminários em Porto Alegre e elas aprendiam como andar de ônibus, como ir até a Assembleia Legislativa. Em outra oportunidade fomos no INSS e elas aprendiam como buscar as informações necessárias”.

Brasília

O encontro estadual realizado no Beira Rio abriu caminho para que as mulheres não desistissem da sua luta. Do estádio, saíram com um abaixo-assinado com milhares de assinaturas e que tinha a capital federal como destino. Naquela época, a mobilização das mulheres acontecia também em outros estados e, em 1986, centenas de mulheres trabalhadoras rurais foram a Brasília defender sua causa. O Vale do Taquari, que tinha movimento autônomos em Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul e Lajeado, se fez presente. Do centro do país as mulheres voltaram com a boa nova: a profissão de trabalhadora rural fora reconhecida e elas passaram a existir no campo dos direitos constituídos.

Missão cumprida

Iolanda não tem dúvidas de que a mobilização das mulheres foi determinante para que seus direitos fossem assegurados. Tanto no reconhecimento da profissão, como na conquista dos demais direitos. Acredita que o feminismo foi a grande revolução do mundo, capaz de inúmeras transformações num espaço de tempo relativamente curto.

Ao olhar para a trajetória que ajudou as mulheres a construir, não se coloca como protagonista. Destaca que foi um tempo de aprendizado conjunto, de muita troca, partilha, solidariedade, companheirismo e união. Um período de enfrentar desafios que iam desde a resistência dos homens e a falta de apoio dos sindicatos ao deboche e o descrédito. Mas as mulheres os enfrentaram com amor, assumindo uma postura libertária que transformou suas vidas, as famílias e a sociedade.

Quando olha para trás e percebe a evolução que muitas mulheres tiveram, Iolanda sente que cumpriu parte de sua missão. “Vendo a alegria, a conquista do empoderamento, a capacidade das mulheres decidirem pela própria vida, de discordar e expor suas ideias, me sinto feliz. Com a sensação de dever cumprido. Ainda espero poder fazer muito mais. Sempre há novos desafios e quero dar minha contribuição para fazer uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna, com melhor qualidade de vida, um planeta mais protegido, com respeito à biodiversidade e que consiga reverter o aquecimento global”.

Retomada

Atuante nos movimentos sociais desde a juventude, observa que muito das melhorias conquistadas pelos brasileiros veio por meio da mobilização popular. Lamenta que não tenha havido um trabalho de formação mais amplo, como o feito no movimento das mulheres. Avalia que a falta de trabalho de formação de bases fez com que os movimentos sociais perdessem força e que é preciso encontrar uma forma de novamente mobilizar as pessoas, visto que o trabalhador vem perdendo direitos com as reformas e ainda há muito pelo que lutar.

Por Alan Dick

Iolanda Giasson: mulheres são guerreiras e solidárias. Era comum uma mulher pagar a passagem para a outra que não tinha ou não ganhava dinheiro do marido para participar das mobilizações