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Polícia

Conjunção de forças para combater a violência

, 8 de julho de 2012 às 13h00

Entre novembro do ano passado e março deste ano, o delegado de polícia de Lajeado Sílvio Kist Huppes foi o responsável pelo mutirão cartorário que remeteu 4800 inquéritos ao Ministério Público e consequentemente ao Judiciário. Logo após, assumiu a titularidade da delegacia mais tumultuada da região, a de Lajeado.

Conforme ele, o combate à violência não é um problema restrito da polícia e do poder público, depende da conjunção de forças com as áreas da saúde e educação, e principalmente através da criação de oportunidades aos mais vulneráveis. Sílvio iniciou a carreira policial em 2008 quando foi aprovado em concurso público, assumindo a delegacia de Flores da Cunha, e teve passagens por Novo Hamburgo, Canoas e Porto Alegre, quando foi transferido para região. Antes disso advogou em Arroio do Meio, onde também atuou como assessor jurídico da prefeitura, entre 2005 e 2008. O delegado é graduado em Direito pela PUC de Porto Alegre.

AT – Como tem se mantido as estatísticas de ocorrências (crimes mais comuns e locais)?

Delegado Sílvio – Os crimes mais comuns continuam sendo aqueles contra o patrimônio (furtos, roubos e estelionato) além de ameaças e lesão corporal. Sendo que os crimes contra o patrimônio não têm local específico, mas os furtos e roubos têm um pico de incidência entre o final da tarde e o início da noite, quando muitas pessoas estão se deslocando para casa. Hoje em dia, com a dificuldade de acionar o veículo sem a respectiva chave, a abordagem geralmente ocorre quando a pessoa está chegando no veículo ou saindo deste, portanto o cuidado redobrado neste momento.

AT – O que dificulta o combate do crime nas periferias?

Delegado Sílvio – A maior dificuldade é que a droga é guardada em pequenas quantidades e o local mudado com frequência. Assim, ou moradores que têm participação no tráfico, ou que são intimidados e ameaçados a auxiliar guardam por poucos dias e passam adiante, dificultando a ação da polícia. Além disso, a maioria tem medo de prestar declarações e, dessa forma, poucas informações chegam ao conhecimento da polícia.

AT – Qual a maior deficiência para um efetivo combate à criminalidade?

Delegado Sílvio – Há uma carência histórica de efetivo na Polícia Civil. Muitas pessoas imaginam que segurança pública se resolve com mais policiais na rua. É claro que isso é importante, mas é fundamental que a Polícia Civil tenha agentes para investigação dos crimes e instrução dos inquéritos policiais, pois só assim os delinquentes serão responsabilizados, condenados e presos.

AT – Como avalia a sincronia entre a Polícia Civil, Brigada Militar e Judiciário?

Delegado Sílvio – Com relação à Polícia Civil e o Poder Judiciário a relação é muito boa e com relação à Brigada Militar, responsável pelo policiamento ostensivo, creio que devamos aperfeiçoar os canais de comunicação, pois muitas informações obtidas pelos brigadianos nas ruas não chegam a conhecimento da Polícia Civil, responsável pela investigação dos crimes. Não por outra razão, em outros países não há esta separação entre a polícia que faz o policiamento de rua preventivo e a polícia que investiga os crimes.

AT – No seu ponto de vista, os policiais estão atendendo os anseios da comunidade? Por quê?

Delegado Sílvio – Considerando a defasagem do efetivo e a carência de recursos para aquisição de equipamentos modernos de investigação, posso afirmar que os policiais civis trabalham muito e que se não há maior resolutividade dos crimes é porque não há condições humanas e materiais para isso. Se o cidadão quer mais segurança, deve cobrar do Estado que promova concurso público para ingresso de policiais civis.

AT – O que explica o aumento da criminalidade em municípios do Vale do Taquari, inclusive nos pequenos?

Delegado Sílvio – O consumo de droga, especialmente o crack, estimula o cometimento de furtos e roubos para sustentar o vício. Além disso, a lei é extremamente branda com o usuário e inúmeros indivíduos presos por tráfico aguardam em liberdade o julgamento dos processos, os quais por conta dos diversos recursos processuais têm uma duração longa e durante esta os meliantes continuam comercializando a droga, aumentando a sensação de impunidade.

AT – Como tem sido o engajamento da comunidade (denúncias) no auxilio à polícia?

Delegado Sílvio – Conforme a Constituição, Segurança Pública é dever do Estado e responsabilidade de todos, portando, a comunidade precisa estar ao lado da polícia e denunciar, mesmo que de forma anônima.

AT – Que características um policial precisa ter hoje?

Delegado Sílvio – Atualmente todo policial civil possui nível superior e precisa saber trabalhar em equipe, ter raciocínio rápido e discernimento para o uso progressivo da força. Além disso é recomendável preparo físico, conhecimentos de informática e, o mais importante, comprometimento com a atividade policial, pois muitas vezes a situação exige que trabalhemos noite adentro e durante o final de semana.

Por fim, acredito que o país já esteja preparado para começar a discutir a viabilidade e conveniência – ou não, de criação de uma polícia única, onde a prevenção (realizada por policiais uniformizados) e a investigação caminham lado a lado e reportam-se à mesma estrutura administrativa e de operações.

Por daiane

Natural de Arroio do Meio, o delegado de polícia de Lajeado, Sílvio Kist Huppes, 34 anos, é filho do promotor de Justiça aposentado Silvério Huppes e da professora universitária Ivete Kist, e irmão de Ivana Kist Huppes Ferrazzo, promotora de Justiça de Porto Alegre