Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 22 de Outubro de 2020

O Alto Taquari

Jornal da Semana
Em Outras Palavras

Vamos fazer o bem?

31 de julho de 2020 às 10h25

Milagres são fenômenos raros. Por isso são chamados de… milagre! A parte mais reconfortante deste período de restrições são as iniciativas beneficentes que brotam espontaneamente em todos os lugares. Sou cético em relação a possibilidades de mudanças profundas no comportamento das pessoas. Promessas de visitar os avós em asilos, reencontrar afetos ausentes há anos ou ajudar os necessitados não me convencem.

Acredito, no entanto, que as campanhas forjadas entre amigos, vizinhos ou colegas de trabalho têm grandes chances de se tornarem perenes. Muita gente confinada há meses dentro de casa tomou consciência de que possui muito mais do que necessita. E isso envolve objetos pessoais – como roupas e calçados – e alimentos.

Ao mesmo tempo, vislumbramos inúmeras pessoas que enfrentam dificuldades para alimentar a família. Trabalhadores domésticos, autônomos e informais estão proibidos de exercer suas funções. Apesar do esforço maciço que inclui a enxurrada de notícias negativas que disseminam o pânico, a curva não parou de subir, os empregos sumiram e temos muita gente passando fome.

Raramente reconhecemos que temos muito,
diante da carência de tantas outras pessoas

Sempre fui refratário a iniciativas beneficentes oficiais, tipo campanhas do agasalho, entre outras. Prefiro entregar diretamente aos beneficiários os donativos que muitas vezes se perdem pela falta de fiscalização para a distribuição. Noto, nesta pandemia infindável, que diversos amigos fazem o mesmo, entregando na casa dos necessitados as cestas básicas, roupas, calçados, máscaras de proteção e medicamentos.

Comento com meus filhos o hábito de “olhar para cima”, ou seja, nos comparar com aqueles que têm melhores condições financeiras ou materiais. Raramente “olhamos para baixo” para reconhecer as bênçãos que recebemos como saúde, moradia, família, emprego, amigos e outras conquistas que costumo agradecer na oração que antecede o sono.

Reitero o que escrevi no início desta crônica: não acredito no milagre da generosidade, mas tenho certeza de que teremos avanços de comportamento. A capacidade de “fazer a limonada” deste “limão” da crise dependerá do esforço individual para amparar a quem necessita.

Vírus, estiagem, enchente, gafanhotos. Não faltam motivos para o fazer o bem, não importa a quem!

Por Alan Dick