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Pandemias integrarão novo processo de globalização

, 5 de junho de 2020 às 10h45

A professora de geografia do Ensino Médio da Escola Guararapes, Ândrea Regina Scheid, explica que as transformações da humanidade não são marcadas somente por grandes impérios, guerras ou avanços e desenvolvimentos tecnológicos. Segundo ela, acontecimentos como pandemias e epidemias colocaram sociedades inteiras sob grandes tensões e transformações.

No atual processo de globalização, esta é a primeira de muitas outras pandemias globais que estão por vir. A complexidade na economia, as relações sociais e a mobilidade espacial, passarão a ser características da vida a qual teremos de nos adaptar, com a ampliação do enfoque de expansão e soluções governamentais.

Ândrea é graduada em Geografia e História, pós-graduada em Meio Ambiente e Sustentabilidade, e História do Brasil, e é técnica em Guia de Turismo. Confira a entrevista:

AT – Como pensar a geografia a partir da Pandemia?

Professora Ândrea Regina Scheid – A partir do século XX e XXI, a geografia tem colaborado diretamente no entendimento das relações entre espaço geográfico, saúde e desigualdades sociais. Mapas são utilizados em estudos de saúde desde 1854, quando o médico inglês John Snow, mapeou os casos de cólera na cidade de Londres, sendo que este estudo colaborou diretamente para o controle da doença. A geografia é o estudo do espaço produzido pela relação entre HOMEM e o MEIO. A partir deste, podemos identificar vários fatores que concorrem para a deflagração e dispersão de uma pandemia. Com a geografia, podemos calcular pontos de origem, epicentros e fazer análises locais, regionais e globais de impactos e previsões. Os Sistemas de Informação Geográfica (SIG) são bastante utilizados no combate à disseminação de doenças. A tecnologia SIG é responsável por agrupar e cruzar as informações oficiais com insumos geográficos em tempo real e apresentar os resultados.

AT – Qual a relação pandemia x epidemia com a geografia?

Professora Ândrea – A epidemia e a pandemia apresentam conceitos diferenciados. Uma epidemia faz referência a doenças que se disseminaram por uma região geograficamente limitada, como uma cidade. Como exemplo no contexto atual da Covid-19, que surgiu na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, na China, em dezembro 2019, no continente asiático. Já o termo pandemia é utilizado para se referir a doença da Covid-19, que se espalhou por um espaço geográfico muito grande. Conforme os dados apresentados pela mídia escrita e falada, no continente europeu, determinados países em suas respectivas cidades apresentaram dados elevados de mortes pela Covid-19.

As transformações no cenário social a partir de doenças em um termo de pandemia, a quarentena, etimologicamente associada à ideia de isolamento por 40 dias, tem na geograficidade seu caráter central (o isolamento é espacial). Dentre as muitas possibilidades possíveis de compreensão da pandemia é importante enfatizar, portanto, aquela que diz respeito à sua geograficidade, ou seja, às várias possibilidades de leitura espacial da conjuntura de uma crise junto à população local em sua dimensão municipal, estadual, nacional e mundial.

AT – As doenças causam diversos impactos e transformações na sociedade, com aspectos positivos e negativos. Poderia elencar algumas destas transformações, seja em termos econômicos, sociais, tecnológicos e até na forma de os povos se organizarem, a partir de doenças ou pandemias?

Professora Ândrea – Os impactos e transformações de grandes epidemias e pandemias marcaram a história da humanidade em seu espaço geográfico. As transformações não são marcadas somente por grandes impérios, guerras, avanços e desenvolvimentos tecnológicos. Acontecimentos como pandemias e epidemias em séculos passados colocaram sociedades inteiras sob grandes tensões e transformações. Afetaram e atingiram o homem na Antiguidade, no Medievo e na fase Contemporânea. Essas doenças que vieram, dizimaram diferentes povos na humanidade, causando certo controle populacional.

Do ponto de vista da geografia, uma pandemia em seu espaço geográfico desenvolve um processo imediato. Alteraram-se as escalas da economia e da vida. Ampliaram-se os entrecruzamentos, que um mundo complexo enseja e exige. Por isso, precisamos ampliar nosso enfoque de expansão de uma pandemia. Somos voltados à mobilidade espacial. Saímos mais de casa, consumimos, compramos todos os bens e serviços de que precisamos para sobreviver (e muito mais do que o necessário). Fazemos muitas reuniões, temos diferentes tipos de lazer, em espaços públicos e privados. Dependemos menos das relações familiares e rompemos os círculos da casa para alcançar os da cidade e do mundo. Atualmente, a expansão de uma pandemia é muito maior do que em outras pandemias ocorridas em outros períodos da história como: Peste de Atenas (entre 430-427 a.C.) – A cidade de Atenas sofreu com uma doença desconhecida que, acredita-se, causou a morte de até 35% da população. Peste Negra (1347-1353)- Foi uma pandemia de peste bubônica que causou a morte de até 2/3 da população europeia. Gripe espanhola (1918-1919)- Os primeiros casos de gripe espanhola foram registrados nos Estados Unidos. Acredita-se que essa doença matou, pelo menos, 50 milhões de pessoas.

AT – As doenças sempre foram um desafio para a humanidade. Hoje, com todas as facilidades de locomoção, a disseminação de algumas é muito mais rápida. Como a globalização interfere na propagação de doenças infecciosas e também no seu enfrentamento?

Professora Ândrea – A circulação de pessoas tem peso na difusão da pandemia. Ao se deslocar – viajar para determinado local –, o indivíduo infectado entra em contato com pessoas de outro território e, assim, se inicia a disseminação da doença. A difusão da Covid-19 no país segue o modelo relacionado às interações espaciais na rede urbana, onde há um novo desafio a ser enfrentado: a busca de saúde global em um processo de globalização. A economia globalizada em que vivemos atualmente diminui de forma significativa as fronteiras entre os países. As relações financeiras entre países, informações simultâneas, migrações, o crime organizado, o conhecimento científico, as tecnologias, os sistemas de poder, a produção e o trabalho humano, tudo isso se globaliza. A globalização pode elevar e oportunizar o crescimento econômico e cultural dos povos. Dependendo da situação, a globalização pode apresentar uma escala complexa sem o êxito econômico desejado.

O processo de globalização será possivelmente a primeira de muitas outras pandemias que estão por vir e isso passará a ser uma característica da vida social à qual teremos de nos adaptar. As transformações provocadas no mundo pela globalização apresentam e geram situações perversas como a da difusão e propagação de um vírus e criam outras possibilidades como já alertava o geógrafo brasileiro Milton Santos: será necessário recriarmos a possibilidade de voltarmos à escala da vida na casa, de termos tempo para reencontrar os mais próximos em período de isolamento social. Favorecermos e desenvolvermos a construção de uma consciência espacial e o pertencimento a um mundo, ao mesmo tempo, desigual e solidário. Não há como enfrentar esse desafio no plano individual e privado, mas apenas coletivamente e com ações públicas.

AT – Há países onde ainda não há casos de coronavírus, enquanto outros registram milhares de mortes. Pode nos explicar esse fenômeno?

Professora Ândrea – Nos primeiros meses de 2020, era possível apresentar dados exatos relacionados aos países infectados pelo Coronavírus. Atualmente é difícil pensar num território que não tenha casos a reportar sobre a atual doença. Por incrível que pareça existem países, sim, que estão imunes à pandemia. Qual seria o segredo destes países? Poucos países não reportaram a Covid-19 perante três supostos fatores: países que apresentam governos por regimes ditatoriais (onde os dados não são divulgados pelos governos, a mídia não tem acesso de dados/informações) ou países que apresentam poucos recursos, (possuem o turismo como economia) e desenvolvimento econômico em seu espaço geográfico. Outro fator seria a situação das ilhas afastadas dos continentes (com uma redução populacional e onde adotaram restrições aos turistas). Vale lembrar que nesses três possíveis fatores citados, junto aos países que não contraíram o vírus até o momento, também adotaram medidas de prevenção e isolamento, como o fechamento de escolas e vários segmentos econômicos, principalmente o turístico.

AT– Qual o papel dos governos no combate à uma pandemia?

Professora Ândrea – A maioria dos governantes perante o combate à pandemia tenta desenvolver uma aproximação junto às populações em um momento de crise, por uma emergência de saúde pública, como a que estamos vivendo. As pessoas concordam que firmar e apoiar o líder de um país, estado, município em uma situação de emergência é importante quando veem que o representante está reagindo e lutando com bom senso e equilíbrio em prol da população. Os governantes perante a população no combate à pandemia que estamos vivendo apresentam, em sua grande maioria, uma estrutura de liderança com uma boa comunicação, apresentando a real situação de cada país em relação a seus aspectos econômicos perante uma crise. A preocupação dos governantes no cenário atual da pandemia está sendo apresentada a partir de dados, estatísticas, gráficos, comparativos entre municípios, estados e países relacionados à saúde x pandemia x economia; Registros diários dos dados financeiros investidos em saúde perante a pandemia; Investimentos financeiros públicos com projeções futuras das situações econômicas que estão e serão atingidas pela pandemia; A recuperação econômica de um determinado espaço geográfico pode ser fator determinante para a evolução de pós-pandemia a partir das ações de seus governantes.

Por Alan Dick

Professora Ândrea Regina Scheid posa junto aos itens do bazar da loja Hibisco, de Arroio do Meio, ilustrando a área de atuação da geografia