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Interferência humana contribui para o surgimento de novos patógenos

, 5 de junho de 2020 às 10h15

A compreensão dos organismos vivos – como funcionam, sua origem, evolução e mutações, entre outros aspectos – é o elemento chave da biologia. A ciência que estuda da a vida, é a base de vários campos especializados, que norteiam diversas situações, incluindo o enfrentamento a doenças e agentes patógenos.

A bióloga e professora da Univates, Cátia Viviane Gonçalves, mestre em Ecologia, explica a importância da biologia para a humanidade.

AT– Muitos falam que o novo coronavírus (SARS-CoV-2) é um vírus criado em laboratório. Isto é possível? Como surgem os vírus novos?

Professora Cátia – A origem de vírus emergentes sempre gera polêmicas e, muitas vezes, teorias da conspiração que não possuem qualquer embasamento científico. Em um artigo publicado na revista Nature em abril de 2020, Andersen e colaboradores sustentam que é muito provável que o SARS-CoV-2 tenha se originado em populações de mamíferos nativos da Ásia e posteriormente migrado para a espécie humana. A variedade de hospedeiros originais ainda é incerta, e necessita ser estudada mais a fundo. Todavia, a utilização de animais nativos como alimento pelas populações locais é uma “lenda” que deve ser esclarecida e encarada com uma suficiente dose de ceticismo. Infelizmente, este tipo de “interpretação simplista” tende a mascarar a real causa das transferências de vírus do ciclo zoonótico para o ciclo antrópico (humano). Na verdade, o processo geralmente se dá quando a espécie humana “pressiona” os habitats nativos de uma região, entrando em contato direto com organismos originalmente desconhecidos para o seu sistema imunológico. Ou seja, quando o “desenvolvimento” não é sustentável e agride de forma direta as reservas originais da biodiversidade, por óbvio são abertas “caixas de pandora biológicas” o que faz com que as consequências sejam imprevisíveis. Ou seja, no momento estamos enfrentando o SARS-CoV-2 mas, continuando como estamos (invadindo e destruindo cada vez mais as reservas originais da biodiversidade) é muito provável que novos patógenos venham a afetar a humanidade em médio prazo, sem que seja necessária a ação “cientistas do mal” na criação de vírus mortais. Estamos fazendo isto todos os dias de forma descontrolada e global…

AT – Qual o papel da biologia na geração de conhecimento sobre agentes infecciosos que se espalham com rapidez como o coronavírus?

Professora Cátia – Exatamente para que possamos conhecer e compreender o funcionamento da biodiversidade do planeta, a pesquisa básica em qualquer área (incluindo a biologia) é fundamental. No caso específico do SARS-CoV-2, caso ele tivesse sido isolado ainda durante o seu ciclo zoonótico, o desenvolvimento de uma vacina ou de antivirais poderia ter sido muito mais rápido e eficiente. Ou seja, pesquisas biológicas relacionadas às características do hospedeiro nativo original, como a definição de sua espécie, a compreensão de sua ecologia e a análise de sua fisiologia, são imprescindíveis para que a humanidade possa lidar com qualquer doença emergente. Assim, a pesquisa básica deve ser levada a sério e realizada com antecedência, justamente para que, em casos como o da Covid-19 a reação da ciência possa ser mais eficiente. Como não é possível definir o quanto do todo conhecemos cientificamente, não é possível criar limites temporais para a pesquisa básica. Ou seja, ela deve estar acontecendo NESTE MOMENTO para que possamos enfrentar de forma adequada as novas pandemias que certamente virão.

AT – As pesquisas apontam que o novo coronavírus já sofreu mutações. Isto dificulta a descoberta de uma medicação eficaz?

Professora Cátia – Na verdade não foram tantas as mutações que pudessem alterar o vírus de forma drástica. Até o momento, o SARS-CoV-2 tem se demonstrado um vírus relativamente estável quando comparado com outros, como é o caso do vírus da gripe, por exemplo. O que tem ‘dificultado’ o desenvolvimento tanto de vacinas quanto de antivirais eficazes é o fato de que este vírus era totalmente desconhecido para a ciência até o início de 2020. O desenvolvimento de vacinas e medicamentos é complexo e depende de pesquisas feitas ANTES de os eventos, como é o caso da pandemia que vivemos no momento, ocorrerem. Pode se dizer que, apesar de poder parecer muito para algumas pessoas, termos vacinas aptas a serem testadas em humanos em um intervalo de quatro a cinco meses, como acontece com o SARS-CoV-2, é algo incrivelmente rápido! Este tipo de resultado somente foi possível com o engajamento global na busca de soluções e na desaceleração das taxas de transmissão (achatamento da curva) alcançados pelas reduções no contato social. Estamos colhendo os frutos do que conseguimos fazer até agora e a única coisa que está ao nosso alcance direto no momento é ganhar tempo para que a ciência possa fazer o que precisa ser feito.

Por Alan Dick