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Inverno

É tempo de pinhão!

, 19 de junho de 2020 às 10h59

A queda da produção de pinhão fez o preço do alimento disparar em comparação com o mesmo período do ano passado. Em 2019, apesar da supervalorização no início da safra, o valor do kg acabou ficando abaixo de R$ 10 para o consumidor final. Nesta temporada, o preço está variando entre R$ 13,5 e R$ 17 dependendo do ponto de venda.

Segundo o engenheiro Florestal da Emater/Rs-Ascar, Álvaro Malmann, o aumento da cotação está ligado a fatores climáticos registrados durante o período de polinização em 2018 – pois as pinhas levam dois anos para se desenvolver. O excesso de chuvas/estiagens, e a falta de horas mínimas de frio, fizeram a produção gaúcha despencar.

O índice de quebra varia de 20% a 60% em relação à safra passada. Apesar da queda de produtividade, as pinhas e pinhões que vêm sendo colhidos apresentam boa qualidade. Entretanto, a maior parte do pinhão que abastece o varejo gaúcho nesta temporada está vindo do Paraná.

No RS, a maior parte da produção está concentrada em Soledade e Passo Fundo. Na Serra Gaúcha e Campos de Cima da Serra, a produção é inferior por questões culturais e características de vegetação. A atividade é considerada extrativista, com finalidade de subsistência, hobby ou de preservação ambiental.

A comercialização das florestas para o mercado, é basicamente informal. Na cadeia produtiva do pinhão, ainda se observam poucas iniciativas de beneficiamento, industrialização e armazenamento. Também não há uma política governamental de fomento à produção. Apenas existe uma portaria normativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), a DC-20, que regula o período de colheita, o transporte e a comercialização do pinhão entre 15 de abril e o fim de junho. A normativa também proíbe o corte de exemplares de Araucaria angustifolia nativas entre abril e junho.

De acordo como o Informativo Conjuntural divulgado pela Emater/RS-Ascar, em parceria com a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), o objetivo de estabelecer uma data para início da colheita e do comércio é permitir a plena maturação das pinhas e a sua debulha natural de forma a proteger a reprodução dos pinheiros e garantir a alimentação da fauna. O corte das araucárias somente é autorizado por motivo de riscos pessoais e/ou materiais, de interesse social e/ou utilidade pública, para construções em áreas urbanas consolidadas e de árvores oriundas de reflorestamento.

VIABILIDADE ECONÔMICA

Na região se destacam os municípios de Pouso Novo, Progresso e Ilópolis. De acordo com o técnico em agropecuária da Emater/RS-Ascar do Pouso Novo, Charles Fantin Machado, no município cerca de 70 famílias realizam a colheita de forma informal. A maioria das árvores é oriunda de mato nativo.

Em algumas localidades, moradores constataram a ação predatória de bandos de macacos (bugios e pregos), derrubando pinhas verdes e provocando danos nas árvores, que causam a secagem da seiva, prejudicando também o reflorestamento comercial com pinheiros.

Por outro lado, existem investimentos em andamento. A empresária do setor do turismo, Ana Alice Freisleben, radicada em SP, plantou mais de 2 mil araucárias em Linha Medorema, numa propriedade adquirida de familiares, que passará a se chamar Estância dos Pinhais. A extensa pesquisa da empresária e parceiros em torno da qualidade genética das mudas, preparo de solo e espaçamento, permitirá um melhor volume de produção e padrão de frutos, viabilizando a profissionalização. As araucárias começam a produzir em dez anos.

A empresária também investe na produção de oliveiras, que assim como as araucárias dependem de certa quantidade de dias frios para produzir frutos. Lembrando que as oliveiras começam a produzir azeitonas em três anos.

De acordo com Machado, a Emater irá acompanhar a produção. Dependendo dos resultados, irá fomentar o segmento no município como alternativa de desenvolvimento econômico em locais de relevo acidentado onde não há acessibilidade para agricultura mecanizada. Segundo ele, além dos pinhões, a madeira das araucárias advindas de reflorestamento, são altamente valorizadas no mercado. “Há muitas áreas abandonadas que poderiam ser aproveitadas com espécies que têm uma importância cultural, ambiental e valor agregado”, explica.

A entidade já apoia a Cooperativa Agrícola Mista Alto da Serra (Coagrisera) que desenvolve atividades de fruticultura e olericultura de espécies que dependem de frio e altitude.

O DESENVOLVIMENTO DO FRUTO

O fruto se forma dentro de uma pinha fechada, que com o tempo vai-se abrindo até liberar o pinhão. As sementes são dotadas de uma película, como uma espécie de asa, que se descola da pinha madura e possibilita que as sementes sejam espalhadas pelo vento, iniciando-se assim o processo de crescimento de um novo pinheiro. A polinização das novas pinhas nas árvores e das sementes que caem no chão são feitas pela gralha azul, que também enterram sementes para armazenar alimentos.

A pinha atinge proporções razoáveis, constituindo-se de uma esfera compacta com diâmetro entre 15 e 20 centímetros. No fim do outono as pinhas estouram ao sol do meio-dia, depois de sofrerem dilatação após a manhã fria. Com o estouro esses pinhões espalham-se num raio de aproximadamente cinquenta metros. Mas, esta não é a única forma de disseminação. O homem e outros animais que se alimentam desse pinhão também tem participação na reprodução de novas plantas.

CULINÁRIA

O pinhão é muito apreciado no sul do Brasil, (estados do Paraná, que tem a maior área de araucárias, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e também em alguns estados da região sudeste, como São Paulo e Minas Gerais, onde ocorrem alguns focos de araucária. É consumido assado ou cozido, destacando-se alguns pratos, como a paçoca de pinhão, doces de pinhão, sopas, molhos e outras iguarias. Também pode ser apreciado como aperitivo e em várias sobremesas.

Do ponto de vista nutricional, o pinhão é um alimento rico em calorias. Por ser rico em fibras, o consumo de pinhão pode trazer diversos benefícios, como prevenir doenças intestinais. É composto por vários minerais, como cobre, zinco, manganês, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, enxofre e sódio.

Por Alan Dick