Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 08 de Julho de 2020

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Jornal da Semana
Carta Branca

Limitação e abundância

22 de maio de 2020 às 11h10

Se alguém lhe pedisse para fazer um retrato de abundância, você apresentaria o quê?

Fiz esta mesma pergunta ao Google e ele trouxe figuras de moedas de diferentes países (dólar, principalmente). Também, alimentos, plantas em floração, sementes, frutas, peixes; joias, coisas assim. Até aí, ficou parecendo que abundância só cresce no quintal dos ricos…

Mas, junto com essas, encontrei uma imagem que me intrigou. Era a figura de um homem com as mãos erguidas para o céu, fazendo um gesto de gratidão.

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Fiquei pensando.

A imagem do homem leva a imaginar que abundância nem sempre tem a ver com algo que se pode ver ou pegar. Abundância poderia ser, também, uma sensação de satisfação. Seria uma vivência interna, capaz de abrir dentro do coração da gente um espaço de gratidão. Ou seja, a sensação de estar bem, de ter o suficiente, de estar em paz, produziria a vontade de agradecer.

Você aí vai perguntar como é possível sentir-se contente e agradecido, nestes tempos de coronavírus, em que estamos quase que aprisionados? Como sentir-se bem, quando coisas simples estão proibidas? Não se pode passear. Não se pode estar com os amigos. Em alguns casos, nem trabalhar se pode. Num ambiente assim, você fica achando que falar em abundância e gratidão é quase pedir briga.

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Eu estava com todas essas coisas na cabeça quando me caiu na mão um texto escrito por Rachel de Queiroz no ano de 1947. Ali, a escritora responde a carta de uma moça de 25 anos. A moça está muito doente, foi desenganada pelos médicos. Como é natural, está desesperada. Queixa-se principalmente de não poder sair, passear. Sente que a vida é injusta com ela.

A resposta é longa. Rachel lembra à jovem que estamos todos com os dias contados. Alguns vão antes, outros, depois, mas todos temos de ir. E quem vai cedo, diz Rachel de Queiroz, vai menos gasto, menos corrompido, menos cheio de feridas…

Outra forma de consolar a moça é apresentar-lhe uma particular definição do que a vida é. Rachel de Queiroz diz que viver não é algo exterior, é principalmente uma experiência interior. Ou seja, diz que a vida é como sentimos a vida. Diz que o que nós sentimos como sendo a vida, sentimos dentro. Isto vale para tudo, sejam as experiências de viagens, os sucessos, as dificuldades. E, por fim, a escritora dá um conselho à moça que vai morrer. Aconselha a usufruir o instante. Embora deitada na cadeira de repouso, se tiver um pedaço de céu à frente, isto um já pode representar extraordinária aventura.

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Pensei que uma fala assim pode contribuir com um significado novo para este nosso tempo de confinamento.

Se a vida é o que acontece dentro de nós, se a vida é a forma que experimentamos a vida, que tal cultivar a abundância no coração, em vez de xingar tanto as limitações que nos pegam fora?

Por Alan Dick

Por Ivete Kist

ivetekist@hotmail.com