Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 03 de Junho de 2020

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Jornal da Semana
Em Outras Palavras

Celebrar a rotina

22 de maio de 2020 às 11h10

Imagino a rotina daqueles que moram sozinhos ou de quem coabita com várias pessoas na mesma casa. Quem está confinado com familiares tem, além da possibilidade de compartilhar despesas, companhia para dividir as angústias típicas deste momento.

Muita gente convive sem qualquer dificuldade apenas com uma mascote – um animal de estimação, como um gato, cachorro ou pássaro ou plantas – e até mesmo totalmente sozinha. Conheço amigos que aperfeiçoaram esta convivência, impensável para muitos. Como eu, que necessito da convivência social com intensidade.

A incerteza de saber quando voltaremos ao convívio “normal” aumenta a aflição de milhões. Quando surgem as dificuldades é comum criarmos mecanismos para desviar a atenção ou reduzir a tensão.

Uma amiga de longa data realiza, todos os sábados à noite, sessões virtuais de “visita ao passado”. Isso é feito através da exibição de fotos antigas que, quando esgotarem, serão substituídas por vídeos que retratam casamentos, aniversários e festas de fim de ano.

Jamais sofremos um bombardeio tão
intenso de notícias ruins e imagens ofensivas

Recordações, por sinal, são poderoso antídoto no combate à solidão. Dirão que encontros virtuais são frios, mas cá entre nós: é bem melhor que ir ao “centro telefônico” (lembram?) ou ligar de um aparelho fixo para ouvir a voz dos afetos. Convenhamos… sou da “velha guarda”, mas uma ligação de whats é tudo de bom! Permite ver e ouvir, quase tocar, nosso interlocutor, embora nada substitua o abraço e o beijo.

Jamais sofremos tamanho bombardeio de informações repetidas à exaustão com conteúdos pesados, negativos, fúnebres. As imagens de covas rasas, vítimas fatais em macas de UTI e de depoimentos pungentes de familiares de mortos massacra nossas noites em rede nacional. Sim, o risco é grande, mas será que é preciso chocar com tamanha veemência? Onde está a “empatia” para se colocar no lugar de parentes das vítimas?

Não vejo a hora de pegar a BR-386, passar pelo shopping de Lajeado, dobrar à direita para degustar a paisagem até o trevo de acesso à terrinha. Depois, percorrer a Dr. João Carlos Machado e vislumbrar o movimento de conversas animadas e comércio fervilhando. Depois vou comprar cucas de coco no Zezi, tomar cerveja e comer “churras” com Enio e Elio e suas esposas ou jantar no Beto Baldo ou Regis Ritt.

Não sei quando isso vai acontecer, mas será uma data especial porque a pandemia ficou para trás. Neste dia vou celebrar a importância da vida, da rotina, dos afetos e das coisas simples da rotina.

Por Alan Dick