Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 02 de Junho de 2020

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Jornal da Semana
Coronavírus

Médica ressalta que momento exige seriedade e cuidados, mas vai passar

, 3 de abril de 2020 às 9h44

               As últimas semanas têm sido totalmente atípicas no Brasil e no mundo. A pandemia provocada pela Covid-19 tem se alastrado rapidamente, causando milhares de mortes e prejuízos financeiros. O isolamento social tem sido motivo de muitas discussões. Há quem o defenda na sua totalidade, outros de forma vertical, temendo principalmente as consequências econômicas. As principais autoridades em saúde, defendem que o isolamento ainda é a melhor forma de conter a propagação do vírus.

                A médica de família, Daniela Todeschini, que atua na ESF Navegantes, em Arroio do Meio, acredita que ainda há uma parcela da população que não está consciente da gravidade da situação. Como o município não tem casos confirmados – não tinha até a sexta-feira, data da entrevista –, o coronavírus parece uma realidade ainda distante. “As pessoas sabem que tem um vírus que pode provocar uma ‘gripe’, e que, na verdade, não é uma gripe, ele provoca uma pneumonia, e que ele pode matar. Mas que isso é uma realidade muito distante, uma coisa que não está perto de nós. Então as pessoas acham que há exageros, que isso não é possível, que é propaganda política, que a imprensa que está fazendo drama e que isso não é real”, dimensiona.

                Ela ressalta que o coronavírus é um vírus extremamente contaminador porque o sistema imunológico nunca teve contato com ele, diferente do Influenza H1N1, pois as pessoas já haviam tido contaminações por outros influenzas. “Já tínhamos uma certa imunidade em relação ao H1N1 quando teve aquele surto lá em 2009. Não se propagou da forma como o coronavírus está se propagando porque nosso sistema imunológico é totalmente virgem em relação ao coronavírus”.

                Outro ponto destacado é que não há como precisar quem vai desenvolver os sintomas e, mesmo assintomáticas, as pessoas transmitem o vírus. “Li uma frase maravilhosa que é o seguinte a respeito do coronavírus: nós estamos construindo o barco e navegando nele ao mesmo tempo. Porque a gente está aprendendo sobre ele enquanto ele está adoecendo. Então cada dia é um dia. A cada dia tem uma informação nova. Cada dia tem uma notícia nova. A cada dia tem um artigo novo que surge. Então temos muita informação e precisamos filtrar muito disso porque tudo é novo”.

                Apesar do grande volume de informações, há de certo que o coronavírus é altamente contagioso. Se torna letal pela rapidez nos contágios. “Não podemos desconsiderar como uma coisa absurda mais de 40 mil mortes em cinco meses por causa do vírus. É muita gente. E vai continuar morrendo, não parou”, aponta.

                Há pouco mais de um mês, o Brasil notificou o primeiro caso, e a tendência é que, a partir de agora, a curva comece a crescer. Dra. Daniela ressalta que é importante manter os cuidados. “A gente tem essa falsa ilusão de que se está protegido em Arroio do Meio porque estamos mais afastados. Tem gente circulando entre Arroio do Meio e Lajeado, que é um lugar que tem muitos casos”.

                Ela também alerta que o coronavírus, em alguns casos, numa pequena porcentagem, tem sua manifestação digestiva. Dor de estômago, náusea, perda de apetite e diarreia, sem sintoma respiratório nenhum. “Na verdade, por ele ser novo, com manifestações diversas, fazer um diagnóstico desse vírus é bem complicado”.

                Para evitar a disseminação em larga escala, o distanciamento social é considerado uma medida fundamental. Aos grupos de risco – idosos, hipertensos, diabéticos, pessoas usando imunossupressores, em tratamento para câncer, imunodeprimidos, transplantados e com fatores que provocam a queda da imunidade – é muito importante o isolamento social. “Não é que essas pessoas (grupo de risco) têm mais facilidade para pegar a doença. Nisto todo mundo está no mesmo nível. Todos podemos pegar o vírus da mesma forma. O que muda é a gravidade da doença depois que a gente adquire o vírus”, observa a médica.

                No Brasil já há dados apontando que a faixa etária mais afetada é dos 30 aos 39 anos, enquanto na Europa os mais idosos são os que adoecem com mais gravidade. “Aqui a manifestação está sendo diferente. Talvez pelo isolamento social dos idosos, que já está sendo feito há algum tempo, ou talvez porque aqui ele vai se manifestar dessa forma. Temos dados que os pacientes em tratamento por agravamento dos sintomas respiratórios do coronavírus são pessoas na faixa dos 30 aos 39 anos. Então não dá para a gente considerar que só o idoso é fator de risco. Porque tem o jovem adoecendo”, explica, salientado que no Brasil, a faixa etária mais gravemente atingida é dos 30 aos 59 anos.

Cuidados e prevenção

                A melhor forma de prevenção é ficar em casa. Mas, como não é possível para todos, a recomendação para quem sai à rua é o distanciamento social e uma série de cuidados. O distanciamento social compreende manter distância de um metro e meio, não abraçar, não apertar a mão, não beijar e lavar as mãos sempre que tocar em alguma superfície. Ao entrar em casa ou no ambiente de trabalho é recomendado lavar as mãos. As superfícies de trabalho, teclados, celulares e maçanetas devem ser higienizadas várias vezes ao dia com álcool gel. “Se eu não tenho água e sabão disponíveis para lavar minhas mãos eu passo álcool gel. O ideal é água e sabão por 20 segundos. É o tempo de cantar dois parabéns para você, no ritmo normal”, afirma, salientando que na rua jamais deve-se colocar a mão nos olhos, nariz e boca.

                Daniela ressalta que o distanciamento social é fundamental, especialmente para quem atua nos setores essenciais e que não podem parar, como saúde e alimentação. Lembra do prefeito de Milão, na Itália, que chegou a fazer campanha para não parar a cidade e depois se arrependeu, pelo grande número de mortos. “Tenho muito medo que isso se repita aqui. Por essa premência econômica que a gente tem, de continuar produzindo, que a gente tem que continuar trabalhando, que a gente tem que continuar gerando a máquina da economia. Em função disso vamos acabar comprometendo a saúde e a vida de muita gente”.

Saúde pública

                Um dos pontos que as autoridades em saúde vêm batendo desde o início da pandemia é a sobrecarga do sistema de saúde. Por isso se fala tanto em achatar a curva, diluir os doentes ao longo do tempo, o que faria com que hospitais tenham condições de atender a todos. “Temos de entender que a situação da nossa saúde pública não é a ideal para atendimento de pessoas com doenças graves. Não tem leitos disponíveis, não tem profissionais disponíveis, não tem EPI nem o preparo disponível”, contextualiza a profissional, apontando que para manipular a via área de uma pessoa com coronavírus o profissional deve estar totalmente paramentado, com EPI especial. “Será que são todos os locais que têm esse preparo?”, questiona, lembrando que a realidade da saúde pública no Brasil é precária. “A gente não pode achar que a saúde pública no Brasil é como aqui, porque não é. Aqui temos uma situação de funcionamento de SUS quase o ideal. Mas Arroio do Meio é uma ilha, o resto do Brasil não é assim. Imagina quando isso atinge as favelas de São Paulo e do Rio de Janeiro o que é que vai acontecer. Não vai ter como tratar, as pessoas vão morrer sem tratamento. Porque a realidade do SUS é muito cruel fora daqui. Temos de começar a pensar fora da nossa caixa, da nossa realidade. A gente não pode pensar no nosso umbigo, porque tudo isso vai nos atingir direta ou indiretamente”.

                Mesmo que a região tenha uma estrutura boa, se houver muitos casos, não haverá leitos suficientes, nem UTI, nem respiradores. “A realidade é essa. Então a gente tem de evitar ficar doente porque vai sobrecarregar um sistema que é precário. A realidade é essa e as pessoas não estão sendo conscientes, não estão pensando nisso”.

                Nos casos em que o trabalho precisa ser presencial, diz que é preciso diminuir o contingente de pessoas, reduzindo o contato social. “Digamos que tem um foco num posto de saúde. Um profissional adoece lá dentro, ficou com suspeita com sintoma de corona. Todo mundo vai entrar em quarentena e aquele sistema fecha. Bem ou mal, se começar a ter muitas contaminações, vai parar tudo, por mal. Então acho melhor que se pare por bem, antes da situação se tornar o que se tornou na Itália, nos Estados Unidos, na China”.

                A médica defende a suspensão das aulas por um período maior, e o retorno com bastante cuidado, porque o número de casos pode subir quando volta a ter aglomeração social. “Tudo é muito delicado, a gente está pisando num terreno de areia movediça”.

Redes sociais e atividades físicas para driblar o isolamento

                Se por um lado o isolamento social é extremamente benéfico, por outro pode fazer as pessoas se sentirem sozinhas e afetar o aspecto emocional. Especialmente os idosos que moram sozinhos e vão sentir falta do convívio com a família, filhos, netos e amigos. Uma das sugestões da Dra. Daniela é o uso das redes sociais para driblar a falta de contato físico. “Acho que temos de tentar capacitar os nossos idosos para que possam usar as redes sociais para se manterem ativos socialmente e estimulá-los a fazer atividades físicas dentro de casa. Nós que moramos aqui temos uma vantagem, as pessoas moram afastadas, principalmente umas das outras, e podem desfrutar dos pátios de suas casas para fazer caminhadas ou então trabalhar na horta, no jardim. Aqui no interior tem isso. Mas quem mora em cidade grande e quem mora em grandes aglomerados é usar a rede social e fazer atividade física em casa”.

                Outra recomendação é para os familiares ligarem muitas vezes ao dia, para conversar e tranquilizar os idosos, mas estimular o isolamento. “Tem que ficar isolado até que o surto atinja o pico máximo e comece a cair. Aí é quando um grande número de pessoas já foi contaminado, já desenvolveu anticorpos e o vírus começa a enfraquecer também. Aí a gente vai começando a ficar um pouco mais tranquila”, observando que o coronavírus não vai desaparecer, mas as pessoas vão adquirir imunidade e tudo vai ficar mais calmo.

                Diz que o isolamento social é uma coisa a se pensar quando começarem a surgir situações de dificuldades, de desânimo e tristeza e que é preciso trabalhar da forma que cada um consegue para as famílias ficarem mais próximas. Independente da forma encontrada por cada família, o ideal é sempre deixar muito claro que isso é uma medida de proteção, de cuidado e uma medida amorosa. No sentido de que esses idosos não adoeçam e venham a morrer.

Momento pede o exercício da generosidade

                Para a profissional, se houver continuidade no comportamento inadequado, com pessoas minimizando os riscos, haverá um momento em que as pessoas vão chegar, bater na porta do hospital não vai ter leito, independente da idade do paciente. “Pode não ter leito para todo mundo e pode não ter leito para o meu irmão, para meu pai, para a minha mãe e para o meu marido ou meu filho”, dizendo que não dá para se iludir achando que não vai chegar no seu município, pois pode já ter chegado. “A gente tem que abrir o olho, praticar isolamento social, praticar distanciamento social”, afirma, destacando que também é uma forma de responsabilidade e generosidade. “É preciso entender que quando eu me isolo o faço para proteger uma sociedade. Eu não me isolo para me proteger por egoísmo, por egocentrismo. Eu me isolo por generosidade e por amor ao próximo. Esse é o momento de a gente praticar o amor ao próximo”. Ela ressalta que nunca se viu, desde a II Guerra Mundial, um número de mortes tão grande num período tão curto. E provocadas por um vírus.

O enfrentamento e os profissionais

                Daniela relata que os profissionais de saúde que estão na linha de frente estão tentando ajudar da melhor forma que podem, com os recursos disponíveis. Pede que as pessoas levem a sério e abram os olhos. “Vai ser sério, está sendo sério. A gente tem que ser realista e botar o pé no chão. Não é para entrar em pânico, mas é preciso ser realista. Tenho que abrir o olho e enxergar o que está acontecendo de verdade, separar o joio do trigo”, conclui, dizendo que não há fórmula mágica para combater o vírus, seja com vitaminas ou alimentos, e que o caminho passa obrigatoriamente pelo isolamento. “Ficando em casa tu previne a doença. É a única forma de prevenir o adoecimento”.

                Quem sai à rua, quando chega em casa, deve tirar o calçado do lado de fora. Não encostar em superfícies, tomar banho e lavar o cabelo sempre. Deve-se ter cuidado ao manipular a roupa usada e esta deve ser lavada todos os dias. Pode-se adicionar vinagre na máquina de lavar.

                Os profissionais de saúde precisam redobrar os cuidados para não se infectarem. Ao mesmo tempo, precisam conscientizar as pessoas. “A gente está tentando fazer com que as pessoas tenham lucidez suficiente para entender que é grave, que é necessário isolamento social e que não vai ser para sempre. Isso é uma coisa que as pessoas têm de botar na cabeça delas: não vai ser para sempre. É um período da nossa vida e isso vai acabar. Por exemplo, se a gente começar a pensar, hoje é um dia a menos da pandemia. Amanhã vai ser um dia a menos. Não vai ser eterno. Vai ser um período que nós vamos ter que nos cuidar. Depois vai passar. Eu, como profissional, tento fazer com que as pessoas entendam isso”.

                A médica diz que os profissionais estão com medo e explica que pode haver mudanças. Não descarta a necessidade de ter de fazer plantão no futuro, tendo em vista a falta de profissionais, devido ao adoecimento. “Acredito que os profissionais de saúde lúcidos, que saibam e reconheçam o que é a saúde pública no Brasil, estão preocupados”.

Coronavírus x H1N1

                Ao falar sobre a pandemia de gripe causada pelo H1N1, em 2009, a médica aponta que a principal diferença para o momento atual é o causador. O H1N1 pertence ao grupo influenza, existente há muito tempo e, para o qual, a humanidade já tem uma certa defesa. O contágio dele é mais difícil e a manifestação e a pneumonia que o H1N1 causa não é tão agressiva quanto a pneumonia do coronavírus. “A forma de apresentação da pneumonia do corona é muito agressiva. O H1N1, por exemplo, se pega no início dos sintomas e usa Tamiflu, consegue resolver. O corona não tem um medicamento específico como o H1N1, que se pegar no início dos sintomas consegue eliminar o vírus usando uma medicação. Em termos de contaminação e resolução da infecção, o H1N1 é mais fácil de resolver e ele não tende a se espalhar tão rápido quanto o corona”.

Por daiane