Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 04 de Junho de 2020

O Alto Taquari

Jornal da Semana
Carta Branca

Combinar com os russos

3 de abril de 2020 às 10h32

Conta a lenda (vale a pena repetir) que, na Copa do Mundo
de 1958, o técnico Feola reuniu os jogadores antes da partida
contra a União Soviética. No meio do campo – instruiu Feola – os jogadores deveriam trocar passes curtos para atrair a
atenção dos russos… Em seguida, Vavá puxaria a marcação
da defesa deles, caindo para o lado esquerdo, e lançaria a bola
nas costas do marcador de Garrincha. Garrincha venceria seu
marcador e iria até a área do adversário, sempre pela direita.
Na sequência, cruzaria a bola na direção da marca de pênalti.
Mazzola, então, viria de frente e… faria o gol.
Garrincha ouvia sem muito interesse a preleção. Com sua
natural simplicidade perguntou ao treinador:
– “Tá legal, seu Feola… mas o senhor já combinou tudo
isso com os russos?”
§§§
O coronavírus talvez traga certos resultados, para além
dos prejuízos que já são brutais. Talvez ajude a refletir sobre
a medida do que é possível “combinar com os russos”, ou
seja, sobre quanto mesmo é que nós mandamos nos acontecimentos.
As crianças acham que mandam muito e até mandam
bastante. Elas gritam e conseguem apressar a mamadeira.
Elas ligam a luz e o monstro some de imediato. As crianças
são como o galo da fábula antiga, o galo, cujo có-ri-có-có
fazia nascer o sol. Ao menos, é assim que ele pensava.
§§§
As pessoas crescem e cresce o risco de continuar acreditando que mandam quanto querem. Aliás, os poderosos
deste mundo têm certeza disso – em geral os puxa-sacos
ao redor cooperam muito para botar lenha na fogueira da
vaidade.
Nós, os mortais comuns, temos mais chance de ir descobrindo que fazer planos pode ser decepcionante. Muitos
fatos não correspondem aos desejos. Nosso poder é mais
raquítico que gostamos de admitir. Mandamos na periferia
muito mais que no miolo das questões. Nossas determinações antes distraem do que resolvem, enquanto que o principal atravessa na frente do nariz, sem se abalar. Quer ver?
Mandamos na educação dos filhos, mas não mandamos nos
resultados que virão. Mandamos no nosso estilo de vida, mas
não eliminamos as doenças, não eliminamos a velhice, não
podemos iludir a morte.
§§§
O desembarque da Covid-19 e o tempo que agora temos
disponível convidam a pensar sobre os limites do nosso real
poder. Para mim, uma coisa ficou bem clara até aqui: as decisões compartilhadas e que, além disso, são capazes de misturar inteligência e solidariedade têm mais chance de vencer
o jogo.
Por outro lado, usar o muque ou a trapaça não rende pontos neste campeonato. Mais ainda, o vírus não faz arreglo,
o vírus não responde a carteiraço, o vírus não se coça com
discurso. Muito menos, aceita combinar qualquer coisa com
os russos…

Por daiane