Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 07 de Abril de 2020

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Jornal da Semana
Carta Branca

Roda-gigante

20 de março de 2020 às 10h19

Agora, (próxima de mais um aniversário) agora, quando penso na vida, no tempo que passa e que passou, a imagem que encontro para explicar a trajetória é a de uma roda-gigante em movimento.
Assim: no começo, vem a emoção de ganhar assento levado pela mão de alguém, de acomodar-se no banco que balança um pouco. Em seguida, lentamente, ir subindo, subindo, contemplar a paisagem de uma altura cada vez maior, num misto de agitação e apavoramento. Ficar um pouco lá no alto, gozar a vista incomparável. Depois, aos poucos, ir baixando, baixando, até chegar no chão. Por fim, desembarcar.

§§§

A imagem não me chega por acaso. Desde criança sou fascinada por roda-gigante.
Eu teria uns oito anos, quando vi uma roda-gigante pela primeira vez. Ela era uma das atrações do parque de diversões, coisa que eu também via pela primeira vez na vida. O parque se chamava Philadelphia, que eu li Piladelpía.
Não tinha como me preparar para o deslumbramento que viria ao dobrar a esquina e enxergar o parque. Era impossível comparar com qualquer coisa que eu conhecesse.
O primeiro impacto foram as luzes.
Para compreender a sensação, você precisa se transportar para uma cidadezinha antiga. A iluminação pública dependia de bicos de luz penduradas lá e cá. Um funcionário da prefeitura vinha acendê-los no fim da tarde. Ele parava de poste em poste e acionava alguma alavanca, para que houvesse luz. Ainda não se conheciam as lâmpadas fluorescentes, que fizeram uma revolução algum tempo depois.
O som alto foi outro impacto colossal. Não se conhecia nada que fizesse barulho no volume daqueles alto-falantes. Eles despejavam música como as lâmpadas despejavam luz. Coisa de ficar tonto!
A roda parecia monstruosamente enorme, para uma criança da minha altura. Quando me levaram a andar, quase não suportei a vertigem do céu aberto. Tive de fechar os olhos, esconder o rosto, talvez tenha chorado, não me lembro. Esperei desesperadamente pela hora de desembarcar. Mas, ao descer, ah, que vontade de andar de novo! Será que dava?
Dava. O pai foi capaz de compreender a hora – mesmo com o dinheiro curto.

§§§

Pois bem, se o girar da roda-gigante pode ser comparado com o andar da vida, encontro semelhança também na sensação da altura que diminui, à medida que o tempo passa. A gente vai baixando, vai baixando até chegar, por fim, no chão.
E quando a viagem finda, vem a mesma vontade de comprar mais um ingresso e embarcar de novo…
Só que desta vez não dá.

Por daiane