Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 04 de Junho de 2020

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Reflexões de um recluso

27 de março de 2020 às 11h11

“O pessimista é um otimista bem informado”.
Tenho lutado todos os dias contra este adágio e a minha tendência em ser cético. Mas dizem que isso é normal. Afinal, faço 60 anos em junho e os velhos – jovens há mais tempo – já viveram o bastante para saber o que vai (ou não) dar certo.
Faço este preâmbulo para manifestar minha alegria com o esforço de tantas pessoas solidárias. Muitas empresas esqueceram um pouco do lucro, autoridades foram impregnadas pelo espírito público e gente simples está ajudando gente simples. Apesar destas mudanças, não creio que esse espírito se mantenha depois que a pandemia passar.
Estou há uma semana “de molho”. O momento mais esperado do dia é quando nosso cusco, o maltês Fiuk, acorda junto com minha mulher e filha. Aí, troco as Havaianas e saio com o pulguento para um passeio de 15 minutos. A “fuga” se repete às 17h e às 23h, antes do expediente ser encerrado aqui em casa.

A tecnologia que nos mantém conectados
de nada serve sem contato e calor humano

Calculo que já engordei cinco quilos nesta primeira semana. Como diz um “meme” que recebi pelo whats: “Lá em casa parece uma granja: enquanto tem luz acesa estamos comendo”. Neste período descobri as músicas preferidas das gêmeas filhas do vizinho do andar de baixo. Decorei o horário dos ônibus e da lotação que passam na frente de casa.
Recebo uma média de 120 Whats por dia e, em vez de acordar às 5h, fico por mais duas horas no berço. Invento tarefas, até porque meu chefe é tão inquieto quanto eu, mantendo o ritmo apesar do home office, vulgo “trabalho em casa”. Tomara que depois da tempestade tenhamos um olhar mais humano para os idosos abandonados em asilos e casas geriátricas, muitas vezes em situação deplorável.
E que tenhamos mais cuidado com a saúde, maior zelo na hora de votar, carinho com quem precisa e um olhar mais humano com os desvalidos. Como disse no início, não creio num mundo melhor, mas se ficar “menos ruim” será um avanço. A tecnologia que nos mantém conectados de nada serve sem contato humano e um motivo de carne e osso para acordar, trabalhar, viver, festejar, chorar e fazer a vida valer a pena.
O tempo é de perplexidade e depressão. Muitos cultivarão novos hábitos. Outros darão novos valores às coisas banais. A rotina será valorizada, mudanças surgirão. Ao invés de uma doce fruta para degustar com prazer, neste início de outono fomos presenteados com um punhado de limões. Façamos a gostosa limonada para justificar nossa presença neste mundão!

Por daiane