Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 04 de Junho de 2020

O Alto Taquari

Jornal da Semana
Carta Branca

O tempo e o vírus

27 de março de 2020 às 11h12

Na minha infância, quando chegavam as férias, nós repetíamos um ritual muito esperado: tomávamos o ônibus em direção à casa dos avós. Passaríamos lá belas (e inesquecíveis) semanas. O único porém era a viagem.
Embora a distância fosse curta, consumia horas num tormento impossível de ser entendido hoje. As estradas eram esburacadas e poeirentas. Os ônibus, ambientes rústicos – digamos assim – iam sempre lotados e cheiravam forte a combustível. Os passageiros fumavam livremente, em geral, cigarros de fumo picado à mão e enrolados em palha de milho, os chamados palheiros. Comia-se à larga. A fumaça se misturava aos cheiros do farnel dos passageiros: frango na farofa, linguiça, banana, bolinho frito, rapadura…
Os solavancos da estrada, junto com os demais aromas, produziam um agravante: muita gente passava mal e vomitava pela janela – quando dava tempo de chegar até a janela. De modo que, ao penoso conjunto, se somava mais um odor inconfundível.
Agora você vai entender o meu pensamento aos sete anos de idade. Nunca esqueci daquela ideia, porque parecia absurdamente fantasiosa. Coisa de criança! Foi assim: ao passar por uma ponte de cimento, recém construída, eu pensei: ah! se a estrada inteira fosse ponte! (Nem sonhava que um dia haveria asfalto.)
Corta para os dias de hoje.

§§§

A ciranda em que a modernidade nos meteu criou um turbilhão de compromissos. Às horas de trabalho, pelo pão de cada dia, acrescentaram-se compras de itens necessários e de outros nem tanto assim; eventos a que se deve ir porque, afinal, vivemos de contatos; toda a sorte de reuniões, etc…
(Antes de prosseguir, permitam-me referir um comentário atribuído a Tancredo Neves: reunião é isso que se faz, depois de ter tomado as decisões.)
A correria nos tornou reféns e, por isso mesmo, ansiosos pelo espaço dos domingos. Só nos domingos, e olhe lá, se conhece a sensação de que o tempo nos pertence.
Corta.

§§§

Juntem-se agora os dois desejos: primeiro, o antigo, o de estender a ponte sobre toda a estrada; segundo, o de ter a calmaria dos domingos espalhada na semana inteira. Ambos os desejos, pareciam desatinos. No entanto, chegamos a este março de 2020: nada de reunião, nada de passeio, nada de evento. Ninguém mais saqueando o nosso tempo, à nossa revelia. Lá, fora, de outra parte, o asfalto, tornou-se corriqueiro.
O impossível derreteu.

§§§

Sim, estamos em casa, agora, acuados pelo vírus, mas com espaço para ouvir música, para olhar o sol, para pensar… Em casa, agora, nos perguntamos se poderemos continuar regendo o nosso tempo, para além deste período de exceção.
A exemplo da estrada lisa que se estendeu para muito além da ponte, será que o tempo vai continuar nos pertencendo, depois que passar a crise?

Por daiane