Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 27 de Fevereiro de 2020

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Jornal da Semana
Carta Branca

Os talentos

7 de fevereiro de 2020 às 13h59

É só dar uma banda no Facebook para notar que a distribuição dos talentos, das vantagens e das belezas não tem nada de uniforme. Parece que, para alguns, não falta nada.

Aliás, numa parábola bíblica, conta-se a história do grande senhor que, antes de viajar, confiou diferente quantidade de talentos para os seus servos. Para um, deixou cinco talentos; para outro, dois talentos e para o terceiro, deixou apenas um. E não há nem sinal de explicação para essa distribuição desigual.

Ao que tudo indica, pois, a sorte é cega.

Pesquisando o pensamento de povos da antiguidade, é possível confirmar a falta de justiça na cota das inquietações que cabem às pessoas. Na mitologia grega existe o deus Moros, dado como responsável pelo destino e a sorte. Veja só. Moros era representado na figura de um cego. Ele distribuía os dons entre os humanos sem ver onde caíam. Não se preocupava se estavam concentrados aqui ou ali.

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Olhar a felicidade dos outros no Facebook tem tudo para deixar chateados os espectadores. Pode vir uma sensação de incapacidade. Não se conhece jeito de reparar o descuido do deus da sorte. A pessoa pode se sentir injustiçada. Mas, e daí?

Vai reclamar para quem?

Acho que a parábola bíblica da qual falei acima dá uma boa pista nesta matéria da desigualdade. Na continuação da narrativa, a parábola mostra que o primeiro e o segundo servo duplicaram o número de talentos recebidos. O terceiro servo, por sua vez, cavou um buraco e enterrou o talento ali. Assim, quando teve de prestar contas ao grande senhor, verificou-se que não acrescentara nada aos dons originais e isto foi considerado um problema. O que tinha para mostrar era exatamente a mesma quantia que recebera. Como resultado, ganhou uma dura carraspana. E ainda mais, o senhor ordenou aos guardas que lançassem às trevas o servo inútil, lá onde haveria choro e ranger de dentes.

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Fico pensando que qualquer que seja a cota pessoal de bens, dons, talentos recebidos, é desejável que os seres humanos botem pra render. Ou seja, espera-se que consigam fazer a vida render. Não se trata de arranjar dinheiro e nem parece ser este o sentido da parábola, quando fala dos talentos. Nada que se possa comprar com dinheiro é mais valioso do que pessoas. A questão é concentrar-se nas ações que engrandecem pelo lado de dentro.

Coisa nada fácil de conseguir. O desafio mais complicado de todos nesta vida é exatamente este: aprender a ser mais e ser melhor. É ganhar pontos na escala que mede aquilo que não se enxerga a olho nu, porque fica escondido no interior de cada um.

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O poeta alemão Rainer Maria Rilke completa este pensamento. Ele diz que isso a que chamamos sorte sai de dentro dos homens em vez de vir de fora.

Para os romanos, a sorte era representada por uma figura feminina que portava uma concha de onde saíam frutos, animais, moedas. O interessante é que os frutos brotam de dentro, não vêm de fora.

Em vez de esconder e esconder-se, criar abundância. Esta, aliás, considero, a principal missão. Alargar a vida com a força do afeto, da alegria, da compaixão, da curiosidade para aprender. Tornar-se melhor. Aperfeiçoar-se.

Por Alan Dick