Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 21 de Fevereiro de 2020

O Alto Taquari

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Economia

Calor e baixo volume de chuvas afetam agricultura e preocupam autoridades

, 10 de janeiro de 2020 às 9h30

Se em outubro e novembro as precipitações pluviométricas atingiram quase 600 milímetros no Vale do Taquari, totalizando mais de 35 dias com chuva, e as temperaturas médias ficaram em 21 e 23 graus, respectivamente, em dezembro e início de janeiro, o excesso de sol, calor e o ensaio de uma estiagem estão preocupando até os mais otimistas. Isso porque, até o fim de fevereiro, as chuvas devem ser escassas de acordo previsões dos principais institutos meteorológicos. Os órgãos governamentais estaduais e municipais pedem cautela no uso dos recursos hídricos.

Em dezembro a precipitação total foi de 49.8 mm, a temperatura média foi 26 graus e a máxima ultrapassou os 40,6 graus. A precipitação parcial em janeiro, até o fechamento desta edição, foi de 15,6 mm.

Apesar dos prejuízos na agricultura, até o momento, Arroio do Meio, Capitão, Marques de Souza, Pouso Novo e Travesseiro, vão aguardar confirmação das chuvas previstas para próxima semana, antes de decretar situação de emergência. Pancadas esparsas nos últimos dias ajudaram a amenizar o quadro. A esperança é reverter a situação, mesmo que com pouca chuva. O abastecimento de água potável para consumo humano está sob controle.

Devido ao bom volume de chuva na Serra Gaúcha, o rio Taquari, por enquanto, está num nível considerado seguro. Já no arroio Forqueta, o volume do leito caiu expressivamente. É possível passar a pé em alguns trechos. Alguns córregos e o arroio do Meio, em alguns pontos, pararam de correr. Entretanto, a situação ainda não é vista como crítica, bem longe das estiagens de maio de 2012 e de janeiro de 1945, considera as mais severas já registradas na história.

O gerente da unidade da Companhia Rio-Grandense de Abastecimento (Corsan) de Arroio do Meio, Jaime Luiz Bersch revela que o consumo aumentou nas semanas dos feriados de Natal e Ano-novo, de 2.990 metros cúbicos por dia para 4.221, registrados no dia 27. O consumo atípico é visto com normalidade, devido ao fato de a população estar mais em casa e realizar atividades de verão.

No período do fim de ano, o aumento de consumo provocou a falta de vasão na parte alta da Barra do Forqueta, o calor causou o superaquecimento no quadro de comando de um dos poços que abastece moradias no bairro Novo Horizonte e a falta de luz atingiu a Estação de Tratamento de Afluentes (ETA). As situações foram resolvidas em algumas horas. “Em nenhum momento os nossos cinco poços estavam no limite. Sempre trabalhamos com folga. Na noite desta segunda-feira, para terça-feira, o Taquari ganhou 30 cm de água. Em 2012, quando o rio estava bem abaixo, o ponto de captação ainda estava submerso. Em casos mais extremos ainda será possível bombear água para câmara de captação de locais mais longínquos”, observa.

No interior de Arroio do Meio, de acordo com o Coordenador da Defesa Civil, Paulo Roberto Heck, apenas um poço artesiano, de uma propriedade particular no Morro Três Pinheiros, secou. Nas demais localidades o abastecimento de água está normal.

Prejuízo nas lavouras

Na agricultura, o milho foi a principal cultura afetada, com perdas de 30 a 50%. Também foram registrados prejuízos na horticultura, principalmente em estufas. O técnico em agronomia da Emater/RS-Ascar, Elias de Marco, já havia previsto os riscos no início de novembro, quando relatou que o excesso de chuva e temperaturas amenas poderiam deixar as plantas “mal-acostumadas”. Ele aponta que o calor superior aos 34 graus durante seis dias seguidos e as temperaturas mínimas elevadas, que diminuiu a ocorrência de orvalho, potencializaram os efeitos do estresse hídrico sofrido pelas plantas. “Não se trata exatamente de uma seca, pois algumas lavouras plantadas no fim da primavera não sofreram tantos impactos. Além disso, a chuva não tem sido igual em todos os pontos”, dimensiona.

Conforme Elias, o milho seco acabou sendo colhido e transformado em silagem, que terá qualidade inferior à da safra de 2018/2019, que ainda está sendo tratada aos animais, motivo que não traz impactos imediatos na economia. O gado leiteiro holandês, por sua vez, sofre em decorrência do calor e diminuiu a produção. Já a soja plantada deve se recuperar com a volta das chuvas, mas haverá perdas que ainda não podem ser dimensionadas no desenvolvimento das plantas e doenças provocadas pela estiagem.

Na horticultura, em algumas situações, as perdas são irreversíveis, mesmo dobrando a irrigação, chegando até quatro vezes ao dia em algumas propriedades. Em boa parte das estufas não houve condições de manter o microclima necessário para a produção de alimentos. Segundo o produtor de moranguinhos e hortaliças, Delmar Kappler, 58 anos, de Picada Arroio do Meio, o calor na semana antes e depois do Natal, fez a água evaporar. “Não faltou irrigação. Temos reservatório e fonte natural, mas nada substitui a chuva. A terra em volta das plantas sempre ficou úmida, mas em torno de 25% das mudas de moranguinhos amarelaram e 5% acabou morrendo. A produção de moranguinhos caiu quase pela metade e o tamanho dos frutos chegou a diminuir dois terços, além dos que murcharam. Estamos priorizando o estoque para fornecer a merenda escolar em 2020”, revela.

Sua esposa Lori, 55 anos, complementa que algumas mudas de cenoura e rúcula germinadas de sementes foram transformadas em palha pelo calor. Além da queima em tomates, que inviabiliza a comercialização. A família Kappler terá que replantar cerca de 500 mudas de moranguinhos, que precisam de até 70 dias para começar a produzir, além de realizar podas em diversas plantas com princípio de ressecamento e substituir lonas nas estufas atingidas por vendavais. “Se considerarmos todo o manejo e investimentos para alcançar a produtividade, quase dá para dizer que trabalhamos em vão”, revela.

Em Travesseiro, de acordo com o coordenador de Defesa Civil, Lasiê Amauri Delazeri, a comunidade e produtores adotaram medidas de prevenção para não sofrer com a falta de água. A silagem de pior qualidade não foi considerada motivo para decreto de emergência. “Aos poucos vai normalizar. Não será imediatamente”, observa.

Em Pouso Novo, segundo a secretária de Agricultura Verônica Brock Possebom, além das perdas no milho e silagem, a estiagem afetou a qualidade das pastagens e forragens, que diminuíram seu volume em 30%. Propriedades da Picada Castro, Linha Medorema e Canhada Funda, precisaram ser abastecidas com água por meio de tanques agrícolas para suprir a necessidades de granjas e bovinos. “A cada dia a situação piora. Sem chuva a situação da água não se resolverá”.

Em Marques de Souza, de acordo com o coordenador de Defesa Civil, Roberto Kramer, houve problemas de abastecimento em Alto Tigrinho, devido aos danos na rede de água, que já foram solucionados. Não há abundância de água para os animais. Para Kramer, a estiagem é um aviso para as pessoas voltarem a preservar suas fontes naturais de água e cuidarem mais do meio ambiente. O milho plantado no fim do inverno foi considerado de boa qualidade, já o plantado no meio da primavera teve perdas de até 40%.

Em Capitão, conforme a coordenadora de Defesa Civil, Rejane de Siqueira, a prefeitura prestou o serviço de abertura e limpeza de fontes para ajudar a contornar situações mais extremas. Diversas propriedades estão sofrendo com a escassez de água e foram atendidas com tanques agrícolas, que puxaram água de açudes e outros recursos hídricos. Em muitos casos o milho da silagem não desenvolveu grãos.


Produção de estufas ficou bastante debilitada, apesar da irrigação, Delmar Kappler de Picada Arroio do Meio, acumulou prejuízos

Paisagens verdes ficaram amareladas com milharais e gramados secos devido ao estresse hídrico

Gerente Jaime Luís Bersch destaca qualidade da capacidade estrutural da Corsan

Por Alan Dick