Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 22 de Novembro de 2019

O Alto Taquari

Jornal da Semana
História Viva

Maria Suely Pochmann

, 1 de novembro de 2019 às 11h10

Maria Suely Pochmann, a Suíca, como também é conhecida na comunidade, carrega consigo um carisma e uma alegria que contagiam a todos que a conhecem. Imensamente grata por ter nascido em Arroio do Meio, ela declara seu amor incondicional à cidade, tão presente em suas histórias, desde a infância. Mãe de quatro filhos, tem quatro netos e três bisnetos. Foi por meio do neto Cristian, hoje com 35 anos, que originou-se o seu apelido. Numa singela brincadeira de criança, fazendo rimas com palavras.

Nascida em 17 de janeiro de 1938, filha de Erna e Raimundo Pochmann, também naturais de Arroio do Meio, orgulha-se por seus pais terem sido pessoas muito estimadas na comunidade e considera que sua infância foi um privilégio. “Nasci em uma família onde duas pessoas casaram-se e viveram juntas por 53 anos. Tinham o coração cheio de amor. Fui criada e educada com muito amor”, comenta. Antes de Suíca completar dois anos de idade, nasceu sua irmã Rita Helena, com quem cresceu e dividiu fases importantes da infância e da juventude. “Rita também foi um presente para mim, pois fomos companheiras desde sempre. Onde uma estava, estava a outra”, acrescenta.

A infância foi no distrito de Palmas, de onde traz lembranças felizes de brincadeiras em um grande quintal. Os pais de Suíca eram proprietários de um armazém de secos e molhados, o que os deixava muito ocupados. Como na época não havia hotel, a mãe Erna também fazia comida paras os viajantes, que muitas vezes pernoitavam. As irmãs cresceram livres divertindo-se em um balanço montado em um cinamomo e em um riacho, que passava nos fundos da propriedade. Foi lá que aprenderem a nadar e reuniam crianças de toda a vizinhança. “Essa minha lembrança afetiva é tão rica, que fecho os olhos e consigo nos enxergar descendo até o riacho, tomando banho”.

Com três anos de idade o pai a colocava no ônibus para a cidade, para visitar os avós, no Centro de Arroio do Meio, e a madrinha, que a recebia no ponto de ônibus. “O motorista, que era amigo da família, contava que às vezes passava um pouco a parada só para que eu gritasse: pare o ônibus! Eu passava dias e dias na casa de minha vó”.

Quando chegou o momento de frequentar a escola, seu pai a matriculou na evangélica de Palmas, próxima de casa. “Quando o padre de Arroio do Meio (Monsenhor Seger), soube disso foi, a cavalo, até Palmas para falar com meu pai”. Suíca foi, então, levada para a casa da avó, na cidade, para poder estudar. Foi matriculada no Colégio São Miguel. Como tinha duas tias cujas idades eram próximas da sua, novamente teve parceria para as brincadeiras e vivências típicas da infância.

Com a venda do armazém de secos, a família mudou-se para Encantado, onde o pai Raimundo foi trabalhar em um banco. As filhas estudaram juntas na mesma escola, de uma congregação de irmãs do Sagrado Coração de Maria. Depois, uma nova mudança, desta vez para Soledade, onde Raimundo foi chamado para gerenciar um frigorífico. Foi lá que Suíca passou a juventude, cursou o ginásio e entrou para a escola normal regional, de onde saiu já com nomeação pelo Estado, para atuar na Educação. Foi em Soledade que começou a namorar João Vilmar Borges de Quevedo (in memoriam). “No dia da minha formatura, me casei. Foi uma festa linda e todos os parentes foram para Soledade”, diz, recordando que na época as rotas e as estradas eram muito diferentes, tornando as viagens extensas.

Casada, retornou para o Vale do Taquari, desta vez para Estrela. Suica teve quatro filhos: Paulo Roberto, Rejane Maria, Silvia Regina e Sandra Beatriz. “Em todos os anos ímpares da minha vida de casada, até nascer a mais nova, eu tive um filho. Nenhum tem dois anos de diferença”, explica, completando que seus filhos são, para ela, como a luz radiante, que ilumina seus dias.

Lecionou por pouco tempo. Iniciou em uma escola no bairro Moinhos, próxima ao rio. “Como não tinha condução direta, eu pegava um ônibus na rodoviária, passava a barca e, em um ponto em frente à escola, um aluno me atravessava pelo rio, de caíque”, relata Suíca, frisando que sempre foi uma mulher de muita coragem. Prova disso foi a travessia que fez, a nado, pelo Rio Taquari, aos 48 anos, realizando um antigo sonho. “Foi uma aventura. Me senti a Mulher Maravilha, sem dúvida. Naquela época o rio era muito diferente. Isso foi muito antes de existir a barragem em Bom Retiro do Sul que elevou o nível da água”.

Com a cultura no coração

Como os filhos saíram de casa para estudar praticamente na mesma época, Suíca sentiu que era o momento de dedicar-se mais à vida profissional. Chamada para trabalhar na Delegacia de Educação de Estrela – hoje Coordenadoria Regional, atuou por 20 anos, no setor de Cultura. Coordenou e organizou espetáculos que vinham para a região e, por meio deste trabalho, conheceu grandes personalidades como, Cecília Meireles, Rudi Meireles, o grupo Os Serranos e o ator Paulo Autran, com quem construiu uma grande amizade, correspondendo-se por muito tempo.

Sente-se orgulhosa por ter trabalhado ao lado de mulheres cujos nomes são conhecidos na região até hoje, como Maria Moesch, Cloé Azambuja, Ledi Schneider e Ruth Markus Huber. “Mulheres de fibra, inovadoras, com quem aprendi muito na minha vida. A cultura às vezes exigia trabalho nos três turnos, mas não via nem o tempo passar”, detalha.

Aposentou-se em 1981, ano em que criou, juntamente com a grande amiga, Maria Elena de Molinari, a empresa de arte chamada Sumarte. Promoveram várias exposições por todo o Brasil, inclusive no Salão Negro do Congresso Nacional. Com a saúde do pai fragilizada, precisou se retirar da empresa e foi nessa época que voltou para Arroio do Meio.

No início da década de 90, foi chamada para ser diretora da Casa de Cultura em Lajeado. “Leopoldo Feldens, depois de 20 anos de a Arena estar no Poder, ganhou as eleições e fui convidada para trabalhar na área da Cultura, juntamente com outras pessoas. A esposa dele, Dinorá Feldens, foi a secretária da pasta. Até hoje as pessoas elogiam os anos em que estivemos à frente da Cultura”, conta, ressaltando que a secretaria municipal foi criada naquela legislatura. Sua paixão pela área cultural é tamanha, que Suíca integra um grupo de amigos que se reúne mensalmente para falar sobre o tema e confraternizar.

Agente de mudança Social

Suíca mora na casa que era de seus pais e expressa como sente-se bem vivendo em Arroio do Meio. “Aqui a administração é cuidadosa com os idosos, meu médico, Ricardo Schmidt, é uma pessoa extremamente profissional, amigo de seus pacientes e sou imensamente grata a ele por esse cuidado. Tudo o que eu preciso, eu tenho aqui na minha cidade. Não há razão para sair daqui”. Considera as pessoas muito amigas e solidárias e a administração atenta às necessidades da comunidade.

Neste momento, dedica-se à saúde, mas logo deve retomar sua atuação em segmentos importantes do município como o Núcleo de Cultura, o Conselho Prisional, a Amam e a Amai. Graduada em Artes, com pós em Métodos e Técnicas de Educação, recorda que, ao formar-se, sua professora escreveu, em seu trabalho de conclusão, que seria uma agente de mudança social, o que se concretizou aqui no município.

Suíca visita os filhos sempre que pode, assim como a irmã, Rita, que mora em Brasília há quase 50 anos. Conversam praticamente todo os dias por telefone, para amenizar a saudade que aperta. “Fomos sempre muito unidas, desde pequenas. Nossa ligação é muito forte”.

Cheia de esperança e de empatia, acredita no ser humano e se tivesse que recomeçar a vida, faria tudo da mesma forma. Apaixonada pelas plantas e pela natureza, declara que este momento é o de plantar flores.

Por Alan Dick

Maria Suely Pochmann, a Suíca, destaca-se por sua dedicação e amor à cultura e integra importantes segmentos do município, como o Núcleo de Cultura, o Conselho Prisional, a Amam e a Amai