Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 09 de Dezembro de 2019

O Alto Taquari

Jornal da Semana
História Viva

Ethel Schneider

, 14 de novembro de 2019 às 17h50

Nascida em 29 de novembro de 1931, em Cruzeiro do Sul, Ethel Haenssgen reconhece que teve uma infância maravilhosa. O avô Germano Haenssgen fundou, em 1895, a Fábrica Natal, hoje Indústria Haenssgen. Em função de a família ser dona de uma fábrica de chocolates, o pai Carlos Walter e os tantos tios, trabalhavam na indústria enquanto ela, os irmãos e primos, circulavam livremente pela empresa e todos residiam no entorno dela. Podiam comer chocolates a todo instante, não eram impedidos de pegar.

A avó materna, Guilhermina, residia em Santa Cruz do Sul e assim, ainda criança iniciou o jardim de infância naquela cidade que já era próspera economicamente em função das grandes indústrias fumageiras.

Quanto à fábrica Natal, era uma das poucas no Estado na produção de chocolates e, em Porto Alegre, tinha um representante comercial, o alemão Hans Eggers. Sua relação com a família Haenssgen era muito próxima. Eram grandes amigos e Ethel ia para lá com frequência. Seguia com o vapor da empresa de navegação Arnt, localizada no rio Taquari. Na época tal companhia era responsável pela navegação neste trecho e este era, na época, o modo de transporte de pessoas e mercadorias, para o porto localizado na capital. No percurso o barco/vapor, fazia parada nos portos localizados neste trecho.

Nesta “metrópole” segundo ela, levava uma vida de princesa. Sempre na companhia de alguém da família Eggers, passeava e andava de bicicleta pelo Parque Farroupilha, andava de pedalinho na lagoa do parque, fazia piqueniques e tomava banhos no rio Guaíba. Tudo era possível.

Passava dias na casa da avó em Santa Cruz do Sul e lembra que nas poucas vezes que estava em Cruzeiro do Sul, com a família, o pai tomava conhecimento de algo que estaria acontecendo em Porto Alegre e seguiam com o vapor para a capital.

Perdeu a conta dos tantos filmes que assistiu no Cine Ipiranga e algo que lhe marcou, no ano de 1935, foi assistir ao espetáculo do circo alemão Sarrasani. Tinha então quatro anos e o circo era o mais famoso do mundo na época, e fez uma turnê pelo Brasil.

Também recorda das tardes de carnaval, onde adultos e crianças pulavam e era preciso usar um óculos escuro, grande, para proteger-se dos jatos de lança perfume, que eram jogados no público. Participava destes bailes e havia também o “carnaval no gelo”, pulava entre os carnavalescos embora fosse ainda uma criança de oito anos.

Depois do jardim da infância, deu prosseguimento a escola em Cruzeiro e recorda que nesta época o pai, Carlos Walter Haenssgen construiu uma grande casa, na verdade, uma mansão para a família. Carlos Walter, era uma pessoa maravilhosa e não media esforços para realizar os sonhos e desejos que ela tivesse. Recorda que uma vez, estando em Porto Alegre, ele a levou à fábrica Estrela para que escolhesse a boneca que o Papai Noel lhe traria no Natal. Feita a escolha saíram da fábrica e esperou a noite de Natal. A enchente de 1941 invadiu a fábrica e tal boneca foi levada pelas águas. Alguns dias depois retornaram à fábrica, para que escolhesse outra boneca. Encantou-se por uma boneca negra e fez a encomenda. Na noite de Natal recebeu a boneca e tinha verdadeira paixão por ela, eram inseparáveis.

A esta altura, a empresa familiar prosperava e as instalações iniciais, de madeira, haviam sido substituídas por uma moderna fábrica.

Ethel pouco ficava em Cruzeiro do Sul. Aos 11 anos de idade foi para São Leopoldo estudar na Escola Técnica de Comércio – ETC, onde formou-se Guarda Livros. Ali viveu um tempo mágico. O ETC era um colégio interno e recebia alunos de várias cidades. Numa ala ficava o pensionato das alunas e noutra, dos alunos. Grandes amizades foram construídas nesta época. Lembranças de um tempo bom, no qual, muitas vezes, fugia do colégio para ir ao cinema com colegas ou mesmo com um grande amigo que, por muitos anos, foi também seu namorado. Ao sair dali ele se tornou um artista plástico de renome internacional, segundo ela, com telas expostas e comercializadas em mais de 30 países. Após concluir a escola técnica de comércio Ethel seguiu para a Fundação Evangélica em Novo Hamburgo onde formou-se em Economia Doméstica.

Ir a bailes, dançar, era algo que amava. Cada baile era aproveitado ao máximo, sempre na companhia dos pais. Na época era comum as famílias irem aos bailes, tinham a sua mesa reservada. Gostava de usar vestidos lindos e admite que algo que favoreceu o início do namoro como esposo Danny Schneider, foi justamente a dança. “Tínhamos uma sintonia perfeita, nosso compasso era o mesmo, dançávamos a noite toda, era incrível”. Tanto ela quanto o esposo sempre gostaram de música e, na residência, quando não um disco de vinil, vitrola, rádio, sempre havia algo que sonorizasse o ambiente.

Na capital, Danny era gerente de uma loja de artigos importados, de luxo e, após o noivado, o pai insistiu para que trabalhasse na empresa da família, a Casa Schneider. O casamento aconteceu em 11 de maio de 1954 e desde então Ethel passou a residir em Arroio do Meio.

O princípio, segundo ela, foi um tanto difícil. Acostumada com o ritmo de “cidades grandes”, precisou se adaptar a outra realidade. Em Arroio do Meio, a cidade era pequena e não havia muito o que fazer.

Nasceram os filhos. Primeiro Cristina, depois Henry e por último Octávio. Ainda assim nos finais de semana gostava de visitar a família em Cruzeiro do Sul. O esposo a levava, mas dificilmente podia acompanhar a visita, pois era o responsável pela exibição dos filmes no Cine Teatro Real de Arroio do Meio. Os rolos/fitas vinham de Porto Alegre via ônibus (nesta época já havia uma linha de ônibus para a capital) e após exibir o filme no cinema, ele corria até a rodoviária e mandava o rolo de filme de volta. Era um compromisso com hora marcada e por muitos anos fez este serviço, de forma gratuita. Segundo ela, o marido foi um dos incentivadores da instalação do cinema na cidade, acostumado com este entretenimento cultural, queria que a população local tivesse a oportunidade de assistir.

Recorda ainda que, no final da década de 1970, uniu-se a um grupo que queria construir um clube social com piscina. Assim surgiu o Arroio do Meio Piscina Clube – AMPC. Para angariar recursos foram realizados muitos bingos em prol da construção da sede e era Danny quem “cantava os números” para o público, no Clube Esportivo Arroio do Meio.

Ethel sempre amou a arte. Ainda menina, sua mãe, Frida Sophia, bem como a avó Guilhermina, lhe ensinaram a bordar. Se durante a juventude perdeu a conta de tantas peças que bordou, retomou com entusiasmo tal passatempo e perfeccionista que era, cada toalha, cada pano ou roupa, virava uma obra de arte. Em sua casa, os tantos quadros que já bordou decoram os vários ambientes. Bordou inclusive o próprio enxoval, dezenas de peças, e, praticamente todas, estão em uso ainda hoje.

Apegada às origens, ama antiguidades e, assim, móveis e louças que pertenceram à família, adornam a casa e as fotos revelam momentos ímpares, que vão desde a sua infância, até o momento atual. As fotos dos três filhos, das netas Mariana e Isadora, Henrique e Júlia, ocupam um lugar de destaque sobre os móveis “meus netos são maravilhosos comigo, nos amamos muito”.

Segunda ela, a família toda é apaixonada por fotos. É quase um hobby. Todos momentos são eternizados em lindas fotos e caixas e álbuns ocupam mais que um móvel. Ethel viaja no tempo toda vez que as olha. Cartões de amigos, colegas, familiares, tudo é guardado com carinho e frequentemente apreciado.

Relembrando a vida conjugal, participaram do Lions Clube de Arroio do Meio por décadas. Danny integrava também a diretoria da Câmara dos Dirigentes Lojistas – CDL local, e frequentemente, com companheiros de Lajeado, participavam de convenções nacionais visitando diferentes capitais onde sempre havia uma programação especial para as esposas.

Em época de férias escolares, o destino da família era o litoral, Tramandaí ou Capão da Canoa. Adora o clima do litoral e passa longos períodos lá.

Após o falecimento do esposo, Ethel manteve muitos hábitos e se antes apreciava as tantas viagens que fez ao lado dele, principalmente depois que os filhos cresceram e se tornaram independentes, agora era preciso viajar sozinha. Formou um círculo de novas amizades nas tantas viagens que tem feito com a agência de turismo local (Schöntur), perdeu a conta dos lugares que já visitou. No período do internato, aprendeu inglês e francês, e em casa era falado o alemão e o português e não encontra dificuldades em se comunicar à qualquer parte do mundo que vá.

Serena, andando quase despercebida pelas ruas, embora aprecie demais conversar com os conhecidos que encontra, ela segue a vida, relembrando as coisas boas que aconteceram, sem deixar que as passagens menos felizes a entristeçam. Visita com frequência os filhos, os amigos da época de escola e fundação e segue viajando muito e fotografando bastante.

Por Alan Dick

Ethel gosta de viajar, estar com os filhos e netos ou ficar no apartamento em Capão da Canoa, sua segunda casa