Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 09 de Dezembro de 2019

O Alto Taquari

Jornal da Semana
História Viva

Dilma e Manoel Alves Cardoso

, 22 de novembro de 2019 às 11h50

Foram os laços familiares que trouxeram, no ano de 1994, o simpático e apaixonado casal Dilma e Manoel Alexandre Alves Cardoso para morar em Arroio do Meio, cidade a qual definem como “um encanto”. Pais de Deise, José Antônio e Denise, avós de Eric e Thaísa, Laura e Alexandre, Danielli e Cauê, têm na família o estímulo para uma vida feliz, numa cidade interiorana, que o destino se encarregou de lhe apresentar.

Manoel Alexandre, 86 anos, é militar da reserva, nasceu em Encruzilhada do Sul e Dilma, 83, funcionária pública aposentada, nascida em Caçapava do Sul, cresceu em Cachoeira do Sul.

Dilma traz lembranças de uma infância maravilhosa. Criada no interior, andava a cavalo. Os pais Silvério e Anália criavam gado e eram proprietários de um armazém. Na pequena colônia, não havia escola e, assim, a irmã mais velha, Vilma, lhe ensinou a ler e a escrever. Tinha muita vontade de estudar e, aos 11 anos, partiu na carroceria de um caminhão com destino à Cachoeira do Sul, onde iria morar com uma tia e frequentar a escola. Na viagem de 80 km, toda a estrada era de chão batido. Mesmo assim seguia feliz na carroceria, sentada sobre os sacos de arroz, agarrada a uma vara para não cair.

Em Cachoeira do Sul, concluiu o primário e o ginásio na escola Normal João Neves da Fontoura. Excelente aluna, obtinha sempre as melhores notas e, em certa ocasião, recebeu como prêmio uma viagem ao Uruguai, oferecida pelo governo daquele país. Na escola, aprendeu inglês, francês e latim, adorava matemática e assim, formou-se Técnica Contabilista em 1958. O primeiro emprego foi num escritório contábil. Trabalhou por dois anos quando então foi convidada a trabalhar na secretaria da escola João Neves da Fontoura. Aceitou o novo desafio, amava tal escola e ficou ainda mais feliz após prestar concurso no estado e ser efetivada no cargo.

Muito apegada aos pais, Silvério e Anália e aos irmãos, visitava-os no período de férias, tempo curto para colocar em dia tantos assuntos, cavalgar, correr pela propriedade e matar a saudade da família.

Moça prendada, adorava bordar e costurar e foi justamente em função de um curso de bordado oferecido pelo Sesc, que conheceu aquele que viria a ser o grande amor da sua vida.

Pedro, irmão de Manoel, havia sido colega de aula de Dilma e insistiu para que o irmão fosse à formatura do curso de bordado, queria apresentá-los. Tinha certeza de que Dilma era a moça ideal para o irmão. Já havia, inclusive, feito duas tentativas de aproximá-los e sempre algo dava errado, mas desta vez puderam se conhecer.

Manoel era um jovem promissor, destacava-se no Exército e confessa que apaixonou-se por Dilma, assim que colocou os olhos nela. Antes disso, porém, costumava ir até o ponto de táxi que ficava na praça central de Cachoeira, defronte à casa dos tios dela. Pegava o táxi e dava umas voltas no quarteirão, só para vê-la debruçada sobre a janela da casa que ficava rente à calçada.

Na noite da formatura conversaram muito e, na semana seguinte, combinaram que ele iria visitá-la, na casa da tia.

Quis impressioná-la. Embora os pais morassem no interior de Cachoeira e ele servisse no quartel do Exército da cidade, na hora de despedir-se um táxi o aguardava defronte da casa da tia, dando a entender que voltaria para casa de táxi. Subiu no veículo e já no quarteirão seguinte desembarcou (já sabia o quanto custaria tal corrida) para então pegar o ônibus e, por azar, parou defronte a casa de uma prima de Dilma, que bem na hora abriu a janela da casa e o flagrou descendo do táxi. Por décadas ouviu piadas sobre tal fato e ele próprio acha engraçado: “mentira tem perna curta”.

Em outra ocasião, um amigo seu, piloto do Aero Clube de Cachoeira do Sul, foi seu cúmplice. Dilma passava férias na casa dos pais, no interior de Irapuazinho, e pediu a ele que fizesse um voo rasante sobre a casa dos pais dela. Manoel pagou o combustível para a viagem de 80 km e a bordo no teco-teco sobrevoou a casa da amada e fez ainda um agrado para o sogro que morava distante de tudo, onde mal chegavam as notícias. Separou um maço de jornais e entre eles colocou uma carta para a namorada. Próximo à casa, o piloto deu um rasante e Manoel arremessou o pacote. As crianças correram para pegá-lo e entregaram-no a ela. Todas já imaginavam que era Manoel, até porque nenhum teco-teco passava por ali.

Outra demonstração do jovem apaixonado foi ainda mais criativa. Dilma sentia muita saudade de casa, de ouvir o coaxar dos sapos na lagoa que ficava próxima da casa dos pais, adormecia assim. Morando na cidade, deitada na cama, nada de sapo ou lagoa, chorava de saudades da família e, principalmente, do canto dos sapos.

Compadecido com o sentimento dela, Manoel comprou um gravador, aqueles de carretel, e numa noite “de breu”, seguiu pela estrada Volta da Charqueada, onde não havia um morador sequer, e só os vagalumes iluminavam o caminho. Chegando à lagoa ,gravou o coaxar dos sapos. Quando a saudade apertava dentro do peito, Dilma pegava o gravador e ouvia os sapos, pensava nos pais, irmãos e no seu príncipe salvador, Manoel.

Os pais aprovaram o namoro com o rapaz, que era de origem distinta. Manoel tinha quatro irmãos. A família, antes de mudar para Cachoeira, possuía grande área de campo, criava gado, era dona de um forte comércio, que vendia desde gêneros alimentícios, tecidos e roupas feitas, à calçados, implementos agrícolas, carroças e cavalos. Tinha, inclusive, uma cancha de carreira, agregados e o mais importante: amava Dilma. Ao iniciar o namoro, os pais de Manoel, Leonina e Edmundo, já residiam noutra propriedade, em Cachoeira do Sul.

Ao contrário de Dilma, Manoel quando criança foi para a escola, que ficava distante 10 km da sua casa. Havia uma ponte no trajeto entre a casa e a escola e durante uma enchente, ela foi levada pelas águas. Por meses, Manoel e, os irmãos menores precisaram ficar em casa, o que fez com que o irmão mais velho, Paulo, que havia estudado em Santa Cruz do Sul, desse aula para ele e os menores. Comprava via correio o material para as aulas. Eram cursos que vinham de São Paulo, aplicava prova, fazia sabatina, ensinou-lhes inglês, francês, latim e outras matérias.

Em dado momento o pai decidiu vender a propriedade e foram morar na cidade onde entrou para o quartel.

Foram quase dois anos de namoro com Dilma. Casaram-se em 26 de dezembro de 1962 e foram morar em Cachoeira do Sul onde nasceram os filhos Deise, José Antônio e Denise. Dilma seguiu trabalhando na Escola João Neves Fontoura. Em dado momento, a 3ª Companhia de Comunicação do Exército foi transferida para Santa Maria. Dilma pediu transferência para o Instituto de Educação Olavo Bilac e as crianças iniciam os estudos no colégio Estadual Maria Rocha.

Ali, conforme Deise, filha mais velha, foram tempos mágicos. “A vida de quartel, é algo fantástico também para os filhos dos militares. A Vila Militar, as Colônias de férias no quartel, os almoços em datas especiais, principalmente no final de ano, só lembranças boas”. Conforme Deise, o pai sempre foi um homem de espírito humanitário e tinha a mão leve como uma pluma para aplicar injeções. Atendia crianças, vizinhos e amigos. Em dada circunstância, aplicou de forma ininterrupta, por 56 dias, injeções numa jovem acometida por tuberculose.

Os filhos cresceram num ambiente de muito amor, incentivados e abraçados a todo instante. Manoel sempre foi um homem extremamente romântico, que adora dar flores para a esposa, ou mesmo às filhas e netas quando estão de aniversário. Quanto à esposa, as rosas chegam também a cada aniversário de namoro ou casamento.

Deise iniciou a faculdade e casou-se no ano de 1987. Dois anos depois fixou residência em Arroio do Meio onde o marido, Gerick Fenalte, passou a atuar como médico pediatra.

Conforme Dilma, a família era muito unida. Toda vez que falava com a filha ao telefone, ambas choravam e era preciso ir ao orelhão para fazer a ligação. Quase ninguém tinha telefone fixo na época.

Nasceram os primeiros netos, Eric e Thaísa. Viagens longas, visitas e a cada despedida, mais saudade. Logo a outra filha do casal, Denise, iniciou namoro com um rapaz em Arroio do Meio, Carlos Schmidt.

Manoel e Dilma, já aposentados, tomarem uma decisão: mudar para Arroio do Meio, ou melhor, ir atrás das filhas, pois, em poucos meses de namoro, Carlos pediu Denise em casamento. José Antônio, outro filho do casal, residia em Caxias e, deste modo, estariam mais próximos dele também.

Fizeram a mudança e, desde o dia 31 de outubro de 1994, Manoel e Dilma moram em Arroio do Meio. “Embora pareça que faz pouco tempo, já se passaram 25 anos”, diz Dilma, muito emocionada ao relembrar toda esta trajetória. Admite que, no início, foi difícil habituar-se.

A maior dificuldade foi adaptar-se ao ritmo de vida da cidade de interior. Santa Maria já, na época, era um grande centro universitário e Dilma, que nunca havia parado de costurar e bordar, sentia dificuldades em encontrar materiais para seus trabalhos mais avançados. A saudade dos amigos e as diferenças, como os restaurantes e mercados que tinham horários pouco estendidos, pesavam. Dilma confessa que muitas vezes chorou, mas nunca se arrependeu da decisão tomada. Foi preciso saber administrar tudo isso, com paciência e sabedoria, e ambos conseguiram lidar com esta transição.

Estando perto das filhas puderam acompanhar o crescimento dos netos e, como avós extremamente presentes, ficavam com eles sempre que os pais tinham compromissos sociais ou mesmo de trabalho. Aos poucos, tornaram-se arroio-meenses de coração e amam morar nesta cidade.

Um hábito que Dilma mantém há 60 anos é o de fazer palavras cruzadas. Influenciou o marido que há décadas cultiva o mesmo hábito. Curiosamente, todos os dias, faça chuva ou faça sol, o casal vai dar uma volta em Lajeado. As vezes são dois passeios, um pela manhã e outro à tarde, sempre pela ponte de ferro. Dilma é apaixonada por rios e pela paisagem fantástica deste trecho.

Por Alan Dick