Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 09 de Dezembro de 2019

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Arroio do Meio

29 de novembro de 2019 às 12h29

Vim morar em Arroio do Meio em 1958. Na época, as ruas centrais eram revestidas de cascalho. Vê só, o cascalho era considerado um revestimento suficiente. Amenizava a poeira em tempo seco e diminuia o barro em dias chuvosos.

O mês da nossa chegada foi agosto, uma altura do ano em que se podem esperar chuvas, até enchentes. Mas não lembro de haver barro, quando o caminhão da mudança encostou na frente da nossa casa. Ainda bem, porque nessa altura caminhões com carroceria aberta eram contratados para fazer as mudanças. As pessoas se acomodavam entre os móveis transportados e lá se ia o carreto, sem outra preocupação que não fosse a chuva.

Nos primeiros tempos na cidade, recordo o movimento de carroças, de charretes e dos cavalos e seus cavaleiros pelas ruas. Não, não era o velho oeste, mas talvez fossem quase tão comuns os cavalos como os veículos automotores. Passaria por maluco quem previsse que em algumas décadas haveria milhares de automóveis registrados aqui.

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Em 1958, a maior parte da população de Arroio do Meio morava no interior. O interior incluía as vilas que se transformaram nos atuais municípios de Nova Bréscia, Pouso Novo, Travesseiro, Capitão e Coqueiro Baixo. Faltava muito para chegar ao ponto de agora, quando só um quarto do pessoal resiste na colônia, ainda assim, frequentemente, em propriedades adaptadas mais para o lazer do que para a subsistência da família.

Na época eram importantes os ônibus que faziam a ligação diária com Nova Bréscia e Pouso Novo. Veja só. Eles transportavam passageiros, encomendas e correspondência. Quanto tempo levava uma viagem dessas? Não é fácil responder. Tudo dependia do número de paradas, sempre imprevisível. Dependia também do tamanho dos arroios que tinham de ser atravessados e o tamanho desses, claro, dependia da chuva. Em todo o caso, não se tem notícia de gente passando fome no caminho. O costume era enfrentar as horas de viagem com o auxílio de um farnel: galinha na farofa, calça virada, doce de massa, rapadura, coisas assim. Preparar as provisões para a viagem e fazer a mala eram operações interconectadas – embora ninguém usasse esta palavra.

Em 1958 não tinha um único aparelho de TV em Arroio do Meio, pelo menos eu acho que não tinha. Mas na década de 60 eles começaram a chegar com muito estardalhaço. Mesmo que alguém quisesse fazer segredo de sua aquisição – fosse por discrição ou fosse para desencorajar os vizinhos que passariam a partilhar a sala do felizardo dono da TV – não tinha jeito. A monumental antena colocada no telhado imediatamente denunciava o comprador. Sobre computadores não havia notícia alguma. Ninguém nunca tinha ouvido falar em computador, muito menos eu que, agora mesmo, vou consultar o Google para ver se Arroio do Meio circula pelo mundo web.

Pois sim, e como! Só aqui há cinco milhões de referências. Vê se pode! E que belas fotos! Não preciso de mais nada para reconhecer esta “flor dentre as flores querida, terra moça formosa e gentil” – como proclama o tão inspirado hino do município.

Por Alan Dick