Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 21 de Novembro de 2019

O Alto Taquari

Jornal da Semana
História Viva

Alceni Reckziegel

, 8 de novembro de 2019 às 10h15

A menina sonhadora e cheia de energia, dona de um coração capaz de carregar o mundo, cresceu. Hoje, aos 84 anos, olha com orgulho a história que construiu e a família que formou. Boa parte desta trajetória é contada no livro que ela própria escreveu em 2010, intitulado: “A história da minha vida”.

Alceni nasceu em 6 de abril de 1935 em Picada Café/São Luís. Os pais Osvaldo e Paulina Dressler tiveram sete filhos, todos criados num ambiente onde nunca faltou amor e obediência.

Embora fossem muito pobres, jamais faltou comida. Ao recordar da época, Alceni chega a sentir o gosto da sopa de leite feita com açúcar e canela e lembra das balas e bolachas “atiradas pelo Papai Noel”, que, acreditava ela, voavam sobre o telhado.

Passou a frequentar a escola quando a família se mudou para Arroio Grande. Segundo ela, o professor era um carrasco, “socava com o punho fechado os alunos e pisava neles”. E assim, com tanto medo, terminou o primeiro ano sem nem conseguir juntar duas letrinhas, certamente muitos alunos também. No ano seguinte a escola recebeu uma nova professora. Esta era amável e brincava com as crianças. Mesmo assim, Alceni sentia dificuldades na aprendizagem, talvez fruto do trauma que teve com o mestre anterior. No terceiro e no quarto ano, houve progresso. Ensaiava também canto e integrava o coral que cantava nas missas de domingo. A 1ª Comunhão Solene era o marco divisor, a partir dali, ao menos para os pais e tios, tornava-se grande e assim com 11 anos teve de parar de estudar para então assumir seu primeiro emprego.

Uma tia havia tido um filho e passou a morar na casa desta, auxiliando nos cuidados com o bebê, casa, comida e também na roça. Recorda que, à noite, exausta, ia para a janela e enquanto ouvia os sapos cantando na lagoa, chorava de saudades da família.

Nesta casa, por ser sincera demais, levou um xingão e, sentimental que era, não conseguia parar de chorar. Jogou-se na cama e ali permaneceu por três dias sem se alimentar. Diante deste quadro, o tio decidiu levá-la para casa. Recorda que percorreu o trajeto de Capitão a Picada Café, correndo feliz na frente do cavalo no qual o tio estava sentado, acompanhando-a.

Pouco tempo depois foi fazer igual serviço na casa de outro parente, no Morro Leão. Ali, o entardecer era a pior hora, a saudade batia forte e chorava muito. Lembra que no dia 1º de abril, o primo pediu que fosse ao galinheiro recolher os ovos. Embora tivesse realizado tal tarefa, o primo insistiu para que fosse, e por ser obediente, foi. Ao chegar à porta do galinheiro, ele gritou: 1º de abril! Segundo ela, isso bastou. Novamente jogou-se na cama, seguiu chorando sem alimentar-se. Foi preciso levá-la para casa e a história se repetiu: enquanto corria à frente do cavalo, estava feliz, sabia que a estrada de Morro Leão à Picada Café a conduziria para junto da família. Por algum tempo ficou em casa, logo foi chamada para outros trabalhos em casas de recém-nascidos e a história se repetia: chorava e não comia e corria novamente a pé para casa. Chegando ali, estava feliz.

Após um período na casa paterna, sem ser mandada a lugar algum, ouviu no rádio que seria inaugurado o Hospital São José, em Arroio do Meio. Na companhia da irmã Nilda foi à inauguração e ambas se inscreveram para trabalhar na casa de saúde. A irmã foi chamada no dia seguinte e Alceni, por ter apenas 13 anos, foi contratada assim que completou 14.

Afirma que era o máximo trabalhar no local, sendo um período maravilhoso. Morava no hospital e, pela primeira vez até então, receberia pagamento pelo seu trabalho, embora no final do mês fosse o pai quem passava para retirar o salário. Iniciou levando comida aos doentes e, em seguida, trabalhou na lavanderia, ao lado da irmã. Além do trabalho no hospital, prestava serviços na casa Canônica, ajudava a arrumar o altar da igreja, enfim, mesmo franzina era ágil e prestativa. Não demorou a ser convidada para trabalhar na enfermaria do hospital. Aprendeu tudo com muita facilidade. Lavava os doentes, até então tal serviço não era feito, auxiliava na sala de curativos, nas cirurgias, nos partos a fórceps, enfim, onde fosse necessário. Com muito orgulho, e com apenas 15 anos, havia se tornado uma enfermeira completa, a ponto do médico Hardi Grunewaldt requisitá-la para auxiliá-lo, e pagava-lhe uma mesada extra.

Alceni era impulsiva, sonhadora e, em dado momento, decidiu que queria seguir a vida religiosa. Parou de trabalhar no hospital e foi ser juvenista no Colégio São Miguel. Lembra que, já no primeiro dia, não gostou do ambiente. Foi colocada na sala de costura, tarefa da qual não entendia nada. E, para piorar, a comida era pouca. Chorou muito, a ponto de as irmãs irem à capela que ficava dentro do colégio, rezar para que “viesse a vocação nela”. Alceni rezava junto, mas para achar um jeito de sair dali. A própria mãe era contra a ideia da filha ser freira.

Mas, “a vocação não vinha” e as freiras, temendo perdê-la, trataram de reconduzi-la ao hospital.

Nesta época havia sido implantado o plantão noturno e passou a trabalhar dia e noite. Não tinha tempo para visitar a família, sair ou ir a bailes. A mãe e as irmãs passaram a implicar que desse jeito não conseguiria arranjar namorado.

Continuou trabalhando no hospital no período da noite, porém durante o dia, para ganhar um dinheiro extra, passou a trabalhar na Aliança Católica, que era uma espécie de hotel. Ali, fazia comida e cuidava dos filhos de Adelina Backes, que era professora e só vinha nos finais de semana para casa.

Trabalhando lá, iniciou um namoro que durou alguns anos. Novos donos assumiram o estabelecimento então decidiu parar de trabalhar e, em paralelo, encerrou também o ciclo junto ao Hospital São José, após 10 anos de serviço. Passou a atuar em casas de família de onde até hoje guarda as melhores lembranças, pois estas, de certa forma, passaram a ser a sua família. Construiu grandes amizades que cultiva até hoje. Belas recordações das rodas de chimarrão em pleno horário de trabalho e da amizade com Mirta Rheinheimer, as irmãs Carmenzita e Marinita Friedrich, mana Gerta Dressler, Susi Essig e Liselote Grunewaldt (estas duas, já falecidas).

A esta altura as irmãs e amigas já estavam todas casadas e, de certa forma, empenhadas em lhe arrumar um partido para casar. Alceni, já estando um pouco decepcionada com a idade, até aceitou sugestões. Os pais aprovaram o pretendente, mas logo ela decidiu voltar atrás e deixar tudo acontecer naturalmente, o que era para ser seu, seria.

Assim, os anos foram passando e, se da infância ficaram marcas tristes por ter de ficar longe da família, já mais adulta as tantas experiências de trabalho a tornaram forte, embora algumas a tenham deixado frustrada. Ainda assim, não se lamentava, estava sempre muito feliz.

Em determinado período decidiu que não queria mais ser empregada doméstica. Conseguiu trabalho na fábrica de balas e chocolates Wallerius. Era hora de morar sozinha, buscar novas amizades. Na fábrica, era avaliada pelas pilhas de chocolate que enrolava, confessa que não foi fácil pegar jeito mas, à medida que as pilhas iam aumentando, se entusiasmava. O ambiente era de muita alegria e amizade e a bondade de seu Amos, dono da empresa, era muito grande.

Segundo conta, havia rumores que tinha um viúvo interessado nela, e o mesmo era de Rui Barbosa. Mesmo envaidecida com tal situação, seguiu sua rotina normal e, num sábado, ao sair da missa na Matriz, e enquanto conversava com uma amiga na calçada, Nestor, o pretendente, se aproximou e puxou conversa. Foram poucas palavras e tudo muito rápido e intenso. Alceni morava de pensão num anexo da residência de Lorena e Edgar Spohr, que foram seus patrões por mais de 10 anos. Subiu a longa escadaria saltitando de felicidade. Nem ela acreditava, até então, em amor à primeira vista. Mas no mesmo instante soube que sua vida nunca mais seria a mesma.

Na semana seguinte, entre amigos, reuniram-se para um jogo de carta em Rui Barbosa, para o qual Nestor foi convidado. Ali iniciou o namoro e, no sábado seguinte, novo encontro na casa da irmã Gerta. Combinaram que ele levaria as crianças para conhecê-la. A ansiedade era maior que o sono e, segundo Alceni, “na manhã seguinte vieram os três amores com um sorriso largo no rosto, de alegria”. No domingo seguinte, foi visitá-los. Milton, o mais velho, tinha 10 anos, Mirta, nove, e Glaci, oito. Parecia tudo mágico. Confessa que assim que os viu, sentiu um amor incondicional e os três não conseguiam disfarçar a felicidade que sentiam.

No dia 7 de agosto de 1971, após três meses de namoro, aconteceu o casamento. Ao entrar na igreja, a emoção tomou conta de todos ao verem as crianças serem pajens da noiva. Muitas mudanças estavam por vir.

Alceni saiu da cidade onde tinha um trabalho formal, morava numa casa com chuveiro, lavanderia e foi morar numa casa bonita, recém-construída, mas que ainda não tinha água encanada, o sanitário ficava distante da casa, a louça era lavada numa bacia, a roupa suja no arroio e os sogros residiam com a família. Nada disso foi empecilho para sua felicidade ser plena. As crianças sempre tão obedientes e carinhosas enchiam os dias de Alceni de vida e luz. Dividiam com ela suas alegrias, novidades e aprendizados da escola. Eram tão suas que não conseguia mais imaginar sua vida longe delas.

Sua inserção na localidade de Rui Barbosa significou um progresso, para todos. Percebendo que faltavam opções e entretenimento, incentivou a criação de um clube de mães, do qual foi fundadora. Logo surge o Apostolado da Oração. Foi zeladora da capelinha e se dirigiu à sede da paróquia insistindo para que fossem celebradas missas na localidade. Foi essencial na instalação da comunidade católica e na construção da igreja da qual, por mais de 20 anos se encarregou de ornamentar o altar. Encenações, presépios, teatros, grupos de família, terços, piqueniques enfim, sua criatividade é admirável e os netos, melhor do que ninguém, sabem disso.

Nunca teve dúvidas de que a união e o amor entre pais e filhos é o melhor presente que se pode ter e todos os dias agradece por ter a família que tem.

E assim a vida segue e ao lado do esposo Nestor Reckziegel, 85 anos, seu parceiro também das tardes de canastra, com quem gosta de tomar um bom chimarrão apreciando a paisagem através da grande janela. Juntos, cuidam um do outro, também da casa e do pátio, enquanto aguardam ansiosos a chegada da primeira bisneta, que está a caminho.

Por Alan Dick

Alceni nasceu no interior de Arroio do Meio e hoje vive com o marido Nestor, em Rui Barbosa