Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 19 de Outubro de 2019

O Alto Taquari

Jornal da Semana
História Viva

RENATA BROD JANTSCH

, 4 de outubro de 2019 às 7h29

Recordar e celebrar é o lema da professora aposentada Renata Brod Jantsch, 78 anos, moradora da Barra do Forqueta, Arroio do Meio. Natural de Dona Rita, é a penúltima filha dentre 14, dos agricultores Felippe e Luiza Bersch Brod. De personalidade forte, superou tabus ao sair do convento e buscou autoafirmação na sala de aula, lecionando em diversos locais, desde escolas rurais a colégios de grandes centros. Ajudou seu marido Clélio José a empreender no segmento de sorveteria, e sempre incentivou seus filhos, tendo a música como motivação.

Relembra com muita nostalgia da infância e se considera privilegiada pelos pais e pela comunidade em que cresceu. Como a família era muito devota, metade de seus irmãos seguiram a vocação religiosa. Aos domingos, lembra que costumava ir à missa, no Centro. Enquanto a mãe ia a cavalo, com Rita, sua irmã mais nova, Renata ia a pé, acompanhando as duas.
Apesar de ser sobrinha dos professores José e Helma Brod Bersch, nunca teve tratamento diferenciado. Em sua avaliação, os dois se equilibravam. Ele era mais enérgico na didática e disciplina e ela coordenava a parte cultural de forma muito humanizada. Nas quintas-feiras, abordavam a bíblia, na sexta-feira, catecismo e, no sábado, os dois. Alguns ensinamentos e lições foram marcantes.
Depois de fazer os temas de casa e ajudar nas tarefas domésticas e da propriedade, as crianças eram autorizadas a brincar. “Éramos muito felizes. Não tenho traumas dessa época. Brincávamos de qualquer coisa: andar a cavalo, construir casinhas com bagaço de cana, ovo podre e boneca”, recorda.
Os pais produziam todos os alimentos que consumiam, as únicas compras eram os tecidos, para confecção de roupas, e erva-mate, pois o chimarrão era sagrado. A negociação geralmente ocorria por escambo.
Renata recorda do capricho que o pai tinha na propriedade, especialmente no cultivo de árvores frutíferas, que garantiam frutas frescas o ano inteiro. Como não havia energia elétrica, eram os lampiões que iluminavam. O banho era tomado de bacia ou no córrego que havia ao lado da propriedade, situado na divisa com as terras da família do falecido agricultor José Brod (que veio a comprar a área dos herdeiros de Felippe) e do empresário, Joner Kern.
Socialmente, os grandes acontecimentos da comunidade eram as primeiras celebrações dos padres recém ordenados. Além dos Brod, havia religiosos nas famílias Bersch, Hammes e Bruxel.
Renata recorda também do harmônio, adquirido do comerciante Reinoldo Linck por seu pai. O instrumento era considerado um privilégio cultural e de entretenimento para poucas famílias.
Os 13 irmãos: Cecília Catarina (enfermeira), Maria (enfermeira e irmã Franciscana), Julita Hendges (dona de casa), Marta (enfermeira e irmã Franciscana), José (falecido aos dois anos e seis meses de idade após uma infecção intestinal), Josélia (professora e irmã da Divina Providência), Terezinha (professora); Dionísia (professora e irmã da Divina Providência); Hugolino (frei franciscano que ficou 38 anos numa missão na Indonésia e hoje reside em Belo Horizonte/MG), Irene Dias (dona de casa, que morou em Jaguarão), Luciano (padre franciscano radicado em Belo Horizonte), Francisca (faleceu aos 11 meses devido a uma recaída de sarampo) e Rita (professora que atuou como diretora do Colégio São Miguel e atualmente reside em Campo Grande).
Como a maioria de seus irmãos, que acabaram sendo estimulados para seguir a vida religiosa, Renata foi interna, dos 12 aos 17 anos, no Juvenato Santo Antônio de Estrela e frequentou a preparação para o Magistério. Apenas retornava para casa nas férias, que eram de três semanas por ano. Entre as diversas tarefas como faxina, jardinagem, cozinha e obras, ela também era responsável pela limpeza da sala de música, o que a aproximava do piano, instrumento que aprendeu a tocar de forma autodidata. Renata nunca chegou a frequentar as aulas, porque eram muito caras e sua família não tinha condições. “Teve um ano que a coordenadora de música disse que me daria aulas de piano em retribuição à limpeza, mas ela acabou sendo transferida”, revela. Por este motivo, no futuro, incentivou que todos seus filhos aprendessem a tocar um instrumento.
Aos 17 anos formou-se no Magistério e assumiu uma turma de 2ª série com 42 alunos em Canoas. Naquela época, ela residia no Colégio Sagrada Família. Aos 18 ingressou na Congregação das Irmãs Carmelitas com intenção de tornar-se irmã, também sob forte influência da família. Lá permaneceu por 10 meses, tendo desistido após este período.
Foi um desafio muito grande encarar a vida fora do convento, mas considera que fez a escolha certa para si. Lembra que seu próprio pai, antes de morrer, aos 89 anos, fazia reflexões profundas sobre a rigidez religiosa e a conduta social das pessoas.
Como tinha diploma de Magistério e, o então governador, Leonel Brizolla, iniciava a construção de escolas rurais, foi efetivada em São Luiz, Capitão, que na época pertencia a Arroio do Meio, onde atuou por três anos. “Foi um momento de autoafirmação. A comunidade tinha um apreço muito grande pelo fato de eu falar alemão e saber me comunicar com as famílias. Era bastante respeitada e valorizada”, conta.
Naquele período Renata era pensionista na casa de João Aleixo Hammes, situada na divisa de São Luiz com Linha Cairu. Para lecionar, caminhava dois quilômetros, morro acima, todos os dias. Eventualmente, para frequentar reuniões em Estrela, também fazia o trajeto a pé até o Centro de Arroio do Meio, onde pegava o ônibus. As raras caronas eram com o caminhão do leiteiro Celeste Kunrath.
Na sequência, frequentou o Magistério Normal, no Colégio São Miguel. Enquanto isso, dava aulas na escola anexa do colégio, no bairro Navegantes.
Conheceu seu marido Clélio Jantsch num baile no Salão de Osvaldo Rockenbach. Clélio, na noite, estava prestando serviços de táxi para o ponto da Churrascaria Schneider, onde ele trabalhava. Na churrascaria também funcionava um dormitório para caminhoneiros. No local, hoje, funciona o Casarão.
Em 1966, ocorreu o pedido de casamento. Ela tinha 26 e ele 22 anos. Em relação à diferença de idade, Renata conta: “foi ele que insistiu, afirmando que não havia perguntado minha idade e sim se interessado por minha pessoa. Na época, os namoros eram levados muito a sério”, explica.
O casal mudou para o Vale dos Sinos. Clélio havia comprado um armazém e se encantou por sorveterias. Renata atuou como professora no bairro Feitoria Velha, em São Leopoldo, localidade onde foram acolhidos os primeiros imigrantes alemães daquela cidade. Na época, o casal teve as filhas Maria Luiza e Luciane.
O surgimento dos primeiros supermercados fez o armazém se tornar inviável e, com isso, a família voltou para o Vale do Taquari. Clélio abriu sua primeira sorveteria em Lajeado, a Milk Mone, que funcionou durante um verão. Nasceu então Josélia, terceira filha do casal. Neste período, Renata lecionou na escola Manuel Bandeira, em Lajeado. A escola foi atingida por um vendaval, motivo que fez com que Renata fosse cedida ao Colégio São Miguel. Por este período, cursou a Faculdade de Licenciatura Curta pela Universidade de Passo Fundo, em regime de férias.
Clélio foi contratado pela Cosuel para gerenciar o armazém da cooperativa na Barra do Forqueta, em substituição a Oscar Brentano, que se aposentara. O estabelecimento foi fechado três anos depois, quando iniciou a construção da ERS-130. Os agricultores que tiveram suas áreas atingidas pela rodovia venderam os lotes do lado direito, no sentido Arroio do Meio/Lajeado. Clélio conseguiu pagar as prestações da compra da área, onde a família acabou fixando residência, graças à locação dos fundos para a empresa que executou a obra. Esta tinha cerca de 100 funcionários. Assim surgiu o Bar Pinheirinho que, mais tarde se tornaria a sorveteria Sorvecrem/ArteCrem.
Nesta fase nasceram Gustavo e Leonardo. Por muito tempo Renata atuou como professora em três turnos e ainda precisava encontrar tempo e disposição para educar os cinco filhos. “Minha inspiração e modelo sempre foi a professora Helma, que conseguia dar conta das incumbências em um contexto muito mais desafiador”, comenta.
A Sorvecrem foi aberta nas vésperas da aposentadoria de Renata das salas de aula. A intenção inicial de Clélio era abrir um restaurante, mas a falta de mão de obra e a identificação com o sorvete foram o diferencial. A primeira sorveteira com panela de bronze foi comprada de uma sorveteria que existia na rodoviária. Renata produzia o sorvete e seu esposo fazia os picolés. Sempre contaram com o suporte da Selecta Sorvetes de Jaguará do Sul/SC. Logo depois, foram modernizando os equipamentos com máquinas automatizadas, pasteurizadores e freezers, que eram emprestados aos clientes. A empresa chegou a ter nove funcionários, além da ajuda dos filhos. Os clientes mais antigos são o União de Arroio Grande e o Camping do Irineu.
Clélio faleceu vítima de infarto em agosto de 2011. Ele tinha 66 anos. Cerca de um mês antes do ocorrido, os dois fizeram uma viagem de carro de sete mil quilômetros (ida e volta) até Salinas/MG, por ocasião do jubileu do Frei Hugolino.
A sorveteria foi assumida pelas filhas mais velhas que, como a mãe, também se aposentaram da carreira do magistério e inovaram com receitas de sorvetes naturais. Josélia, foi a única que seguiu a música profissionalmente. É professora e possui a Escola de Música Josélia Jantsch Ferla. Os dois filhos homens atuam em Porto Alegre. Gustavo é programador de sistemas e Leonardo contador em uma instituição financeira. Renata tem oito netos e um bisneto.
Para reunir forças, após a perda do marido, Renata faz questão de ser independente. Mora sozinha e, com muita disposição, sobe e desce as escadarias de sua residência pelo menos cinco vezes ao dia. Faz um curso de física quântica à distância, para compreender melhor a espiritualidade e, depois de muito tempo, renovou a CNH, para dirigir nos dias e momentos com menos movimento. “Eu faço tudo o que eu tenho vontade. Gosto de me entreter com artesanato e jardinagem. Para quem cresceu no interior, lidar com a terra é revigorante. Deus é meu mestre. Maria é minha mãe. São Miguel é meu anjo protetor. E São José é minha força masculina. É preciso recordar e celebrar”, conta. No dia de hoje 04 de outubro, Clélio estaria completando 75 anos.

Por daiane