Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 24 de Fevereiro de 2020

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Carta Branca

Olhar como o mundo é

11 de outubro de 2019 às 8h55

Estive uns breves dias nos Estados Unidos. Objetivo principal: olhar uma das faces que o mundo tem. O mesmo objetivo, aliás, está presente, quando vou a Pouso Novo, a Porto Alegre, a qualquer lugar.
O mundo tem tantas faces que esse “trabalho” de olhar como ele é não acaba nunca. Ou melhor, só acaba, quando termina (como falava mestre Chacrinha).

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Uma das constatações da recente viagem é que o Brasil anda bem “famoso” – digamos assim. Quem me via com o passaporte na mão ou me identificava como brasileira ia logo perguntando sobre o fogo que, ao que eles sabem, está deixando um amontoado de cinzas no lugar onde uma vez havia florestas…
O que responder?

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Entre os americanos, há uma divisão colossal: o apoio e a aversão ao atual Presidente. Observando a cena como estrangeira, a primeira sensação é que aí está uma boa maneira de os meios de comunicação se abastecerem de notícias – já que não falam de outra coisa. Quem acredita em um lado, acredita; quem acredita no outro lado, acredita com igual convicção. Se tu ligas um canal de TV, é uma coisa; se tu passas para outro, o assunto pode ser o mesmo, mas a abordagem é totalmente diferente. Nem parece que estão tratando do mesmo tema.
Fico com uma pergunta martelando na cabeça: não seria melhor dedicar tanto esforço e tanto tempo a atividades mais construtivas?

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Como se sabe, os Estados Unidos são um país de imigrantes. E imigrantes continuam a chegar. O fluxo é contínuo, bem diferente do Brasil, que tem períodos de forte imigração se alternando com outros de poucas entradas.
Como se sentem os imigrantes lá?
Eu estava em uma sorveteria e observava uma mãe com seus quatro filhinhos. O maior com uns sete anos; o menor, com menos de um ano. Puxei conversa e fiquei sabendo que ela e o marido vieram do Sudão. Nos Estados Unidos tiveram os seus quatro filhos. Perguntei como estavam se saindo na nova pátria. Ela disse que tudo ia bem, que as crianças tinham uma boa escola gratuita e que eles viviam como ricos, em comparação com a vida que levariam no país natal. Perguntei se tinha saudades do Sudão. Os olhos dela se encheram de água. Tinha muita, muita saudade. Não fosse pelo futuro das crianças, voltaria correndo para casa. Nada como o país da gente – ela disse.

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E eu fiquei pensando nas dificuldades da primeira geração de imigrantes. Eles se sentem exilados. Não pertencem bem ao novo país. Tampouco pertencem ao pais onde nasceram, depois de se afastarem e de conhecerem tanta coisa diferente.
Vivem com um pé em cada lugar; não estão inteiros em lugar algum.

Por daiane