Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 19 de Outubro de 2019

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Seno Bücker

, 13 de setembro de 2019 às 8h24

O Recanto do Buenas é um lugar peculiar em Arroio do Meio. É nele que quase semanalmente são realizados jantares, preparados pelo proprietário, Seno Bücker, o popular Buenas. O apelido remete à um tempo bom, vivido por Seno, na patronagem do CTG Querência do Arroio do Meio, do qual foi um dos fundadores. Costumava iniciar as falas no CTG dizendo: “buenas gaúchos e gaúchas de todas as querências”. Não foi preciso muito tempo para que Buenas se tornasse um sinônimo do seu nome.

Bücker nasceu em Encantado em 15 de dezembro de 1940. Aos 78 anos relembra com emoção muitas passagens da sua vida. É o mais novo de uma família de cinco irmãos. Aprendeu os afazeres domésticos ainda muito jovem, pois sua mãe ficou internada numa clínica psiquiátrica, em Porto Alegre, por muitos anos. Hoje cozinhar e dirigir são seus maiores prazeres. Por isso, gosta de preparar jantares para os amigos que frequentam seu espaço. O cardápio é sempre diferente e inclui churrasco de ovelha, costelão, galinhada, bife e batata frita, entre outros pratos.
Aposentado, conta que sempre trabalhou muito. Na juventude era sócio num salão, em Palmas, Encantado. Desfeita a sociedade, mudou-se para Arroio do Meio onde iniciou no ramo de entrega de encomendas e de remédios. Ia a Porto Alegre buscar mercadorias para vários empresários de Arroio do Meio e lembra que tinha a confiança de muitos, que lhe davam um cheque assinado em branco para pagar as compras. Foi uma época de muito trabalho e pouco descanso. Nos domingos era comum ir até Cruz Alta ou Erechim para entregar remédios.

Quando mudou-se para Arroio do Meio já tinha gosto pela tradição gaúcha. Gostava de usar bombacha e almejava um Centro de Tradições Gaúchas (CTG) no município. Volta e meia comentava com amigos, que o desestimulavam, dizendo que Arroio do Meio não comportava um CTG. Aos poucos fez amizade com Jari Pereira Fluck, que também era amante da tradição gaúcha. Com a ânsia de estar com quem compartilhava os mesmos gostos, os dois ajudaram a fundar o CTG Tropilha da Serra, no então distrito de Pouso Novo.
Arroio do Meio tinha, enfim, um CTG. Mas não era bem o que Seno desejava. Queria que o Centro fosse na sede, pois o deslocamento até Pouso Novo limitava a participação. Um belo dia, juntou um grupo de cinco ou seis pessoas e explanou sobre a fundação de um CTG. Todos entraram de acordo e acharam a ideia importante. “Quando acabou a reunião eu disse que o CTG era uma sociedade diferenciada. Que exigia muito trabalho e dedicação”, conta. Na segunda reunião compareceu apenas um amigo, Irno Kuhn.

Numa nova tentativa, em encontro realizado em 6 de dezembro de 1984 na Taba Índia, foi registrada a primeira ata do CTG Querência do Arroio do Meio. Na noite histórica, o CTG foi fundado, ganhou um nome e um patrão indicado: Luis Pavi. “O Jari era secretário da 24ª Região Tradicionalista e trouxe o coordenador Rogério Henz que sugeriu o nome Querência do Arroio do Meio. Por unanimidade foi aceito”, lembra.
O primeiro baile foi realizado no salão de São Caetano, a rigor. Foi um sucesso e contou com a participação de outros CTGs da região. Às vésperas da Semana Farroupilha de 1985, Seno, Rui Huyer e Jari entenderam que era necessário fazer algo para marcar a data máxima da cultura gaúcha. Organizaram um galpão improvisado na praça, com programação cultural e gastronômica. Para surpresa de toda a patronagem, foi um sucesso de público em todos os dias. A parte triste foi a morte do sócio-fundador Jari, logo após o apagar da chama crioula. “Foi uma grande perda”.

Já no segundo ano, a programação da Semana Farroupilha foi estendida, com atividades em dois fins de semana. Tudo ocorria na quadra esportiva, onde eram colocadas mesas e cadeiras para acomodar o público. No terceiro ano, Bücker assumiu a patronagem, ficando no cargo por três anos consecutivos. Em uma de suas ações, foi junto com a filha Regina, em busca de sócios. “Em dois meses dobramos o quadro social. Senti que tinha espaço para o Movimento Tradicionalista em Arroio do Meio e fui até o prefeito Arnesto Dalpian pedir uma área de terras para construir nosso galpão. Pedi um canto numa área pública, perto do Polivalente”. Depois da aprovação da doação da área ter sido adiada duas vezes por pedidos de vistas dos vereadores situacionistas, finalmente o CTG Querência do Arroio do Meio teria sua sede.

A madeira para a construção foi praticamente toda doada pelo então sogro de Bücker, Osvino Wenecker. A obra também contou com o apoio da madeireira de Irno Kuhn e o CTG pagou a mão de obra e outras despesas menores. Para angariar fundos foram vendidos títulos patrimoniais. A inauguração foi realizada em 1989.
Do tempo em que esteve muito envolvido com o CTG, Buenas guarda boas lembranças e alguns desapontamentos. Recorda da Expofeira e do primeiro Rodeio Crioulo, que lhe deram muita dor de cabeça, e a decepção com uma gravação do programa Galpão Crioulo, no qual o trabalho do CTG teve menos destaque do que o grupo de danças alemãs. Também entra para a conta dos desgostos, a forma como foi tomada a decisão de transferir o CTG da área que hoje pertence à Neugebauer para o atual endereço. Explica que estava no Paraná, pois um dos seus irmãos havia falecido e não pôde acompanhar as negociações. “Tenho uma revolta muito grande no meu coração. Eu não seria contra. O CTG ficou bem, até melhor localizado. Mas os procedimentos podiam ter sido diferentes. Apagou a chama. Aquele canto está livre até hoje, podia ter sido usado até que a sede nova ficasse pronta. Foi dolorido o desprezo pelo desmanche do galpão”.

Não esconde a mágoa por todo seu trabalho junto ao CTG estar quase no esquecimento. Se emociona quando lembra que a placa de inauguração, que estava em frente ao galpão antigo, na qual constava seu nome e a do prefeito Dalpian, não foi recolocada no novo galpão. “Era uma transferência, podiam ter colocado”. Em meio a lágrimas, diz que mesmo não sendo considerado, seu nome e seus feitos ninguém poderá apagar da história do CTG Querência do Arroio do Meio. “Se eu, dentro do Movimento Tradicionalista Gaúcho não sou uma referência, então não existe quem seja”.

Apesar dos momentos difíceis, Seno não se arrepende de nada do que fez. “Tenho orgulho do que deu certo”. Nas paredes do Recanto do Buenas, em meio a objetos que lembram a cultura gaúcha, duas fotografias têm lugar de destaque: uma que registra a assinatura do contrato de doação da área de terras para a construção do CTG e a outra, o desenho do galpão. O tradicionalista se emociona ao reviver esses momentos que foram tão especiais e deixaram sua marca na história de Arroio do Meio.
Hoje, Bücker dedica seus dias a outras frentes, mas mantém o amor e o respeito pela cultura gaúcha. Gosta de brincar com o neto Augusto e, sempre que pode, auxilia as filhas Regina e Tainá e mãe delas, Ruth, bem como a neta Luiza.

Por daiane

Seno Bücker guarda com carinho duas fotografias que registram momentos marcantes em sua vida