Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 22 de Novembro de 2019

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Agrovale

Ordenha robótica chega às propriedades familiares do Vale do Taquari

, 30 de agosto de 2019 às 14h05

Se o sucesso do uso da tecnologia nos condomínios associativos de bovinocultura leiteira é questionável, devido a uma série de variáveis, na agricultura familiar, ao que tudo indica, a ordenha robotizada veio para ficar. No Vale do Taquari já são duas propriedades familiares que contam com a robótica. Uma delas é a da família Brackmann, em Linha Clara, Teutônia, que já colhe os resultados do investimento de R$ 1,5 milhão, feito há cerca de três meses, com a aquisição de dois robôs, ampliações no freestall, melhorias na energia elétrica e no resfriamento do leite.
O casal, Moacir 44 anos e Deise, 30 anos, esteve disposto a abandonar a atividade. Chegaram ao limite da exaustão e estresse, sem tempo digno para acompanhar a rotina dos filhos Eduardo, 12, Taís, nove e Guilherme, cinco anos. O envolvimento com o trabalho durante 14 horas diárias era inevitável. Apenas a realização da ordenha das 135 vacas no sistema convencional, levava 3h30min em cada turno. “Não víamos mais o amanhecer e nem o anoitecer. Fator que também dificultava para contratar a ajuda de funcionários, pois a jornada não era muito diferente da indústria, até pior, ficando pouco atrativa. Os empregados desistiam logo depois de treinados e inseridos. Então restava ir em busca de novos interessados e fazer o serviço por conta”, revelam. Nos fins de semana e feriados, o máximo que podiam ficar em festas familiares e comunitárias era até as 15h30min. As raras férias eram de, no máximo, dois dias.
A venda do plantel para investir na avicultura de corte só não ocorreu em decorrência da resistência do pai de Moacir, Hélio Brackmann, 69 anos, que alegou que a experiência e os investimentos ao longo de quatro décadas da família na bovinocultura leiteira, mereciam uma sobrevida. A decisão pela ordenha robotizada foi rápida. “Já tínhamos um conhecimento prévio do assunto, calculamos as prestações e concluímos que era necessário investir em dois conjuntos de robôs”, revelam.

A família não esconde que os primeiros dias de adaptação do plantel à nova rotina do freestall foram desafiadores. “Imagina ter que introduzir em uma nova rotina, centenas de animais, de mais de 600 quilos, assustados com os ruídos e as formas diferentes de interação”, revelam.
Mas essa fase já foi superada. A inteligência artificial e as características operacionais do sistema robotizado surpreenderam e superaram todas as expectativas. Os animais ficaram mais dóceis, pois não convivem com o estresse da fila na ordenha e também mais sadios. A produtividade aumentou, em média, cinco litros por vaca e deve subir ainda mais quando a ampliação do freestall for concluída, pois 40 vacas ainda são ordenhadas no sistema convencional.

O envolvimento com a ordenha reduziu para uma hora por turno e ficou restrito à tomadas de decisões em cima de relatórios e análises individualizadas, e orientações em tempo real, com diagnósticos precisos da produtividade, sanidade, lactação e período reprodutivo. O software, por ser acessado por um computador ou pelo smartphone, caso a família esteja distante do estabelecimento, possibilita repassar informações para encarregados. Em ocorrências mais urgentes, faz ligações para os celulares e telefones fixos. O funcionamento conta ainda com o suporte técnico da representante da tecnologia, Lely Center Milkparts.

COMO FUNCIONA

Todas as vacas são cadastradas e monitoradas por chip. Circulam livremente pelo galpão e acessam a ordenha robotizada voluntariamente, à medida que sentem o úbere cheio ou têm fome, 24 horas por dia e sete dias por semana. Ao passar pelo robô, um sensor identifica se a vaca está apta para ser ordenhada – com limite mínimo a cada seis horas entre ordenhas – e libera o acesso.
Um equipamento de escovas rotativas, com movimentos precisos, higieniza e estimula as mamas. Em seguida, um braço robótico aproxima as teteiras, uma câmera 3D identifica o posicionamento e se adapta a cada teto de forma individualizada. Retira os primeiros jatos de leite (9ml por teto) e faz testes da qualidade do leite e sanidade, permitindo que doenças sejam diagnosticadas no início, isolando o leite inapropriado ou o colostro, para que não seja direcionado ao resfriador.
Na ordenha os quatro tetos são ordenhados com intensidades diferentes para não haver sobrecarga nas glândulas, evitando lesões que são o principal fator de mastites. Ao fim da ordenha, um spray é espalhado no úbere para evitar o contato com fungos, bactérias ou contrair doenças. E os equipamentos, incluindo as teteiras, recebem diferentes tipos de limpeza, inclusive vapores que eliminam 99,9% das bactérias. Durante a limpeza do resfriador, que é automatizada, o leite é direcionado para um buffer que armazena 500 litros de leite, o suficiente para paralisar o resfriamento por duas horas.

Segundo a família, apenas uma vaca de todo o plantel tinha tetos incompatíveis, isso que 40% do rebanho é mestiço com Jersey. “Na maioria das situações a acoplagem das teteiras nos úberes é instantânea, mas há casos que levam um pouco mais de dois minutos”, revelam.
A dieta personalizada prevê que 70% da ração seja fornecida durante a ordenha, liberando um quilo de ração para cada cinco litros de leite produzidos. O restante é tratado nas baias, com silagem, feno e outros alimentos.

NOVAS PERSPECTIVAS PARA SUCESSÃO FAMILIAR

Entre outras constatações perceberam que os casos de mastite reduziram drasticamente e houve melhora nos índices de qualidade de leite, além da valorização diferenciada. Em agosto, o custo efetivo total, envolvendo trato, insumos, acompanhamento veterinário, investimentos e depreciação, atingiu R$ 1,25 por litro. Em compensação, o preço recebido pelo litro deve chegar a R$ 1,77. “No sistema convencional seria impossível ter um controle tão preciso, mesmo com uma equipe. Agora sobra tempo para gestão, negociação de preços, aumentar a efetividade da reprodução e das gestações, cuidar da sanidade do rebanho e higienização das instalações, melhorar a produtividade e buscar a qualificação”, revelam.

O próximo passo é investir na climatização. Eles têm ciência de que, em breve, as instalações terão de ser cercadas com telas, como já ocorre na avicultura e na suinocultura. É preciso acompanhar a evolução sempre. “Sabemos que a tecnologia vai diminuir a gangorra na cotação do leite e que a rastreabilidade será uma tendência, para o segmento voltar a ter credibilidade. Infelizmente não haverá espaço para os que não se adequarem às instruções normativas. Por outro lado, muitas pessoas estão dizendo que estão voltando a beber leite”, contam.

A família é uma das cinco que integra a Linha Origem da Languiru. Produz 3,5 mil litros diários e possui também 15 vacas secas e 120 novilhas. São 27 hectares para a produção de silagem, feno e forragens. “Do jeito que nossa rotina estava, duvido que um de nossos filhos teria interesse na sucessão. Agora todos estão animados. O mais velho já planeja cursar medicina veterinária. Quem sabe, em breve, adquirimos um terceiro robô”, dimensionam.

TECNOLOGIA COMO DETERMINANTE

O diretor administrativo da Lely Center Milkparts, Valdair Kliks revela que, neste ano, já foram instalados 15 robôs na área de atuação da empresa, que atende a região alta do Vale do Taquari, Serra Gaúcha, Campos de Cima da Serra e Noroeste do RS, e há previsão para instalação de mais sete ainda em 2019.
Fundada em 1992, na Holanda, a Lely Center é referência mundial no segmento de ordenhadeiras robotizadas e está na 5ª geração da tecnologia, com fábricas na Holanda e EUA e vendas de 3,5 mil robôs por ano.
Segundo Kliks, na Europa, 90% da ordenha robotizada está presente em propriedades familiares. Um robô tem a capacidade de realizar 200 ordenhas diárias atendendo entre 60 e 70 vacas de leite. Pode ser instalado em freestals ou compost barns.

O investimento é de aproximadamente R$ 12 mil por vaca, sendo o retorno, estimado em seis anos. Pode ser financiado pelo Bndes, com juros de 7% ao ano e 10 anos para pagamento. Além disso, possui parceria com o banco DLL. O projeto de viabilidade pode ser feito na Emater/RS-Ascar.
Entre as vantagens estão a diminuição do consumo de ração em cerca de 20%. O aumento da produtividade de 10% a 20%, melhorando o padrão da qualidade do leite e a sanidade do rebanho. Menor tempo de ordenha, possibilidade uma gestão e acompanhamento qualificado. “A Lely está há mais de 27 anos no segmento de ordenhas robotizadas e mantém altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Já estão em fase final de testes, novos equipamentos que vão revolucionar o segmento leiteiro”, adianta.

A Lely Center Milkparts tem sede em Westfália e atua desde 2003 com linha completa para ordenha, equipamentos para conforto animal, assistência técnica, atendimento à revendas e agropecuárias. Mais informações podem ser obtidas pelos 51 3762 4609 ou 51 3762 4619. Entre 4 e 8 de setembro estará presente com estande na Estrela Multifeira.

Por daiane