Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 15 de Setembro de 2019

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Nédio Lorenzini

, 30 de agosto de 2019 às 11h13

Nédio Lorenzini nasceu em 14 de agosto de 1939, na localidade de Linha Cruzeiro, hoje município de Relvado. Saiu de casa cedo. Aos 12 anos foi para o Seminário Seráfico São Francisco, em Taquari. Lá cursou o equivalente ao Ensino Fundamental e Ensino Médio. Chegou a ir para o Seminário de Daltro Filho, onde cursou um ano de Filosofia e Sociologia. Percebeu que a vocação, tão necessária para seguir na vida religiosa, não despertara e resolveu voltar para a casa dos pais. Era 1963. Em julho começou a trabalhar como balconista na Cooperativa Flor da Serra, em Coqueiro Baixo, gerenciada por Arnesto Dalpian.

Três anos depois, foi transferido para o posto da Cooperativa em Arroio Grande, Arroio do Meio. No fim de 1968, a Cooperativa Flor da Serra passava por dificuldades e foi assumida pela Cosuel. Continuou no cargo de gerente do posto de Arroio Grande até o fim de janeiro de 1972. Saiu porque foi convidado a ser representante/vendedor pracista da Fábrica de Balas Wallerius e dos Mandolates Helda, no Paraná. Ficava fora de casa, às vezes, por quase um mês. Tinha um filho pequeno e o longo período longe de casa não era agradável. Por isso, logo voltou a trabalhar para a Cosuel, desta vez no posto da cooperativa, em Forqueta.

No início de 1973 foi surpreendido pelo convite, do então prefeito Arnesto Dalpian, para gerenciar sua fábrica, a Mandolates Helda. “Para mim foi algo muito importante. Uma grande confiança que o Dalpian depositou em mim. E acho que fiz um bom trabalho, a empresa cresceu bastante neste período”, conta.
Entre 1977 e 1988 a vida profissional de Nédio concentrou-se em Encantado, onde foi gerente e sócio de uma loja de materiais de construção. Nas eleições de 1988 foi candidato a vereador. Não logrou êxito, mas foi chamado pelo prefeito eleito, Paulo Steiner, para assumir a secretaria de Fazenda. Já era graduado em Economia e resolveu aceitar o desafio. Na administração do dinheiro público adotou como premissa básica a máxima de ‘não se gasta mais do que se arrecada’. “Eu disse para o Steiner que o meu sistema de trabalho tinha esse critério e ele aceitou. Acho que fizemos um bom trabalho”, avalia.

O trabalho realizado em Arroio do Meio fez com que Lorenzini fosse chamado pelo prefeito de Santa Clara do Sul, Paulo Renato Schabbach, para assumir a pasta da Fazenda na primeira gestão do município. “Ajudei a estruturar a prefeitura de Santa Clara do Sul. Sempre defendi que, na prefeitura, não se deve ter caixa para recebimento de dinheiro, que todos os pagamentos sejam feitos via banco. Em Santa Clara implantamos este modelo. Deu certo e ainda é seguido”.
Dos seis anos que atuou em Santa Clara do Sul guarda boas lembranças. Gostava de trabalhar no município recém-criado. Só saiu porque recebeu, em meados de 1998, uma proposta do então prefeito de Fontoura Xavier, Odolir Malacarne. O município passava por sérias dificuldades financeiras. “Foi o maior desafio da minha vida profissional”, conta, salientando que Fontoura Xavier tinha uma realidade difícil: um território de 583,47 km² – o que equivale a Arroio do Meio, Lajeado, Estrela e Cruzeiro do Sul juntos – e uma parcela da população muito pobre.

Tendo em vista este cenário, percebeu que era preciso fazer adequações na estrutura do município, tanto em termos de finanças, como de programas assistenciais desenvolvidos. Em alguns meses, os resultados apareceram e foi possível reduzir o número de cestas básicas distribuídas, pois a maioria das famílias estava produzindo alimentos para subsistência.
A certeza de que fez um bom trabalho em Fontoura Xavier veio por meio da Câmara de Vereadores, em 1999, e está carinhosamente guardada entre seus documentos. O vereador Flávio Taffarel enviou uma moção elogiando o prefeito e o secretário Nédio pois, pela primeira vez, desde a promulgação da Lei Orgânica do Município em 1990, os balancetes mensais para apreciação dos vereadores estavam sendo encaminhados.

No início de 2001, Nédio encarou um novo desafio. Desta vez foi convidado por Veríssimo Caumo, prefeito de Coqueiro Baixo, para liderar a pasta da Fazenda. Assim como foi em Santa Clara do Sul, era a primeira gestão municipal e Lorenzini colocou sua experiência a serviço do município.
Depois de mais de uma década atuando em outros municípios, era a hora de voltar a atuar em Arroio do Meio, onde sempre residiu. Na segunda gestão de Danilo Bruxel, em 2005, foi convidado para assumir a secretaria de Fazenda. Seguiu no cargo nos dois mandatos de Sidnei Eckert, completando 28 anos de atuação como secretário de Fazenda.

Nestes quase 30 anos, diz que o controle das finanças, o planejamento e a transparência nortearam seu trabalho. “O controle dos recursos sempre era a minha maior preocupação. Sempre fiz balancetes mensais e anuais, análises de como estava a economia do município. A secretaria de Fazenda é o coração de uma prefeitura. Não adianta ter secretaria de Saúde, Educação, Obras, Agricultura e Planejamento, se não tiver recursos. Por isto o controle e o planejamento são fundamentais. O gestor precisa saber como e quanto está entrando nos cofres da prefeitura para, só assim, poder gastar”, defende.

Aposentado, continua apaixonado pelos números. A experiência na prática, aliada à graduação e aos inúmeros cursos feitos no decorrer da vida profissional, lhe dão tranquilidade para fazer análises e interpretar números da economia. Acredita que na sua trajetória profissional teve mais acertos do que erros e se diz feliz e satisfeito com o resultado dos 28 anos dedicados aos quatro municípios. “Cumpri meu dever”.

Família e comunidade

Nédio é o primogênito dos nove irmãos. Duas irmãs seguiram a vida religiosa. A família se dedicava à agricultura. Depois que saiu do seminário, se integrou à comunidade e aos jovens. Lembra de um episódio que marcou sua juventude. A final do campeonato municipal de futebol amador de Arroio do Meio, ocorrida em 3 de maio de 1965. Centroavante, jogava pelo Esporte Clube São José, de Coqueiro Baixo e marcou o gol da vitória por 1×0 sobre o Sete de São Caetano, que havia comprado o mando de campo para disputar a final em casa. O valor, 50 milhões de cruzeiros, foi utilizado para pagar o treinador e instalar um sistema de iluminação no campo. “Era algo totalmente inovador para a época. Nem o Lajeadense tinha iluminação”.

Nédio é casado com Alice e os dois tiveram três filhos: Álvaro Antônio, Mari Bell e Milena. O casal se conheceu num baile, depois que ele deixou o seminário. Alice também era natural de uma localidade que hoje pertence a Relvado. O casamento foi realizado em Arvorezinha, onde a noiva residia, em 27 de janeiro de 1968. Na época, Nédio já morava em Arroio Grande, onde do casal se estabeleceu. Com o passar dos anos, residiram em outros pontos de Arroio do Meio, mas nunca deixaram o município. Quando ainda moravam em Forqueta, Nédio e Alice passaram por um momento muito difícil: a perda do primogênito Álvaro, aos três anos, em decorrência da meningite. “Foi um grande baque, com certeza o maior desafio da minha vida”, revela.

Hoje Nédio e Alice, ambos com 80 anos, residem no Centro de Arroio do Meio. Depois que deixou a prefeitura, Nédio passa o tempo jogando xadrez, lendo, fazendo cálculos e com os netos Gustavo e Pedro Henrique. Lembra com carinho do envolvimento comunitário que teve quando mais jovem, seja nos grupos 4S, na comunidade católica, no colégio CNEC, no futebol. No escritório guarda pastas com documentos, fotografias, recortes de jornais, fitas K-7, CDs e DVDs que registram parte do seu trabalho. Sente orgulho da função que exerceu junto aos municípios e garante que todo esforço e superação de desafios valeu a pena. Se considera um homem realizado.

Por daiane

Aos 80 anos, Nédio sente orgulho da função que exerceu junto aos municípios e garante que tudo valeu a pena