Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 15 de Setembro de 2019

O Alto Taquari

Jornal da Semana
História Viva

Hilma e Urbano Lohmann

, 24 de agosto de 2019 às 9h05

O domingo será especial para a família de Urbano e Hilma Lohmann. Neste dia, o casal irá celebrar as Bodas de Vinho, 70 anos de casamento. O salão evangélico do Aimoré, em Arroio do Meio, sediará o momento, que está sendo organizado pelos filhos Elaine, Clari, Ivane, Rudi e Roni e demais familiares.

Urbano, 99 anos, nasceu em Erebango, noroeste do Estado, em 20 de julho de 1920. O pai era natural do então distrito de Arroio do Meio e, a mãe, de Lajeado. O casal, juntamente com dois tios paternos de Urbano mudou-se para aquela região em busca de melhores condições de vida. Não foram dias fáceis. Urbano lembra que a mãe contava que foi um período muito sofrido, no início não tinham abrigo e nem comida. Criava patos, num açude próximo para, com as penas, fazer cobertas para aquecer a família no rigoroso inverno.

Passados cerca de 10 anos, a família decidiu voltar para o Vale do Taquari. As dificuldades maiores tinham ficado para trás. Tinham casa, comida e cinco filhos. Mas, agora, o problema era mais assustador: grupos de saqueadores passavam nas propriedades procurando por comida e outros bens, saqueando, agredindo e ameaçando as famílias. Por conta desta insegurança a família decidiu retornar para Arroio do Meio.

Num primeiro momento o pai Francisco Jacob Lohmann adquiriu uma área de terras em São Caetano e, depois, em Palmas. Em Arroio do Meio a família cresceu. Nasceram mais seis irmãos, totalizando 11 filhos. Em Palmas, os Lohmann se dedicaram à agricultura e à fabricação de tijolos, com a instalação de uma das primeiras olarias da região.

Aos 22 anos, Urbano foi convocado para servir o quartel, em Santa Maria. Era época da II Guerra Mundial. Permaneceu aquartelado por três anos. No período pôde voltar para casa apenas uma vez e recebeu somente a visita de um primo, de Porto Alegre. Só não foi para a guerra porque ela encerrou. “A viagem de volta para casa foi muito alegre. Me receberam com carinho e me empregaram logo”, recorda.

Hilma Rahmeier, 90 anos de idade, nasceu em Dona Rita em 18 de abril de 1929. É de uma família de cinco irmãos, que se dedicava à agricultura. Recorda que no local onde sua família residia, havia mais três vizinhos nas proximidades e era preciso fazer um longo percurso até encontrar outros moradores.
Para estudar, ela e os irmãos iam até a escola Getúlio Vargas, em São Caetano, a cavalo e, às vezes, a pé. As facilidades de hoje sequer eram imaginadas. Eram épocas de recursos escassos, não só em termos financeiros. No inverno era comum irem para a escola com pouca roupa e sem calçados, o que fazia o andar a cavalo se tornar ainda mais frio.

Urbano e Hilma atentam para o fato de que, há quase um século, praticamente não havia outro meio de transporte. Todas as famílias tinham cavalos e era comum percorrer grandes distâncias no lombo deles, assim como andar a pé. E foi a pé que Hilma e um grupo de amigas, se deslocaram até Palmas, para um baile no salão de Carlos Prediger. “Não era perigoso como é hoje”, observa. Foi nesse baile que conheceu aquele que seria seu companheiro de vida.

Namoraram por cerca de um ano e meio antes de casar. Viam-se aos domingos à tarde. “Eu era um guri pobre. Quando começamos a namorar, eu e meu irmão, o pai comprou duas bicicletas. As outras famílias tinham cavalos. No domingo eu trabalhava até o meio -dia na olaria. Depois do almoço pegávamos as bicicletas e íamos para São Caetano”, conta Urbano, relatando que o irmão Arlindo, namorava uma prima da esposa.

O grande dia

Do casamento e dos preparativos lembram bem. O terno foi feito pelo alfaiate Spelmeier, que residia no hoje município de Colinas e passava a cavalo pelo interior fazendo encomendas. Já o vestido da noiva foi confeccionado pela costureira Flora Henz. O vestido e o paletó foram preservados e o casal ainda os guarda como recordação.

O casamento foi em 20 de agosto de 1949, em São Caetano, no salão que pertencia ao pai da noiva, Gustavo Rahmeier e sócio Gilberto Ehrenbring. Bruno Klein, primo do noivo, levou Urbano e Hilma para o cartório e depois para a igreja. O pastor Edvino Hoerlle, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, foi o celebrante. Os padrinhos foram Bruno e Loni Klein e Alfredo e Irena Suhre. Antes de ir para a festa passaram no estúdio fotográfico de Oscar Mayrhofer para uma foto do casal. O fotógrafo também fez um registro na festa, com os noivos e familiares.

Como o casamento foi realizado durante o dia, houve almoço, café da tarde e música. No cardápio do almoço, carne assada no forno, massa e batata. Tudo foi servido em grandes mesas, com os cerca de 150 convidados se revezando para almoçar. A animação ficou por conta dos músicos Mário e Marino Halmenschlager. No café da tarde foram servidas cucas, biscoitos e várias tortas, feitas por familiares do casal. A festa foi até o anoitecer.
O novo casal se estabeleceu na casa dos pais de Urbano, em Palmas. Lá permaneceram por dois anos, quando adquiriram a propriedade em São Caetano, onde ainda residem. Ali se dedicaram ao cultivo da terra e também à produção de suínos e à pecuária leiteira e de corte. Os filhos sempre ajudaram na agricultura e foram incentivados, especialmente pela mãe, a estudar. Os cinco cursaram o Ensino Superior, na Ufrgs e na Univates, e são profissionais bem-sucedidos nos segmentos que escolheram para trabalhar.

Dos 70 anos de casados, Hilma e Urbano dizem que houve momentos mais fáceis e outros mais difíceis. Mas num geral, mais momentos bons e felizes. Entre as grandes alegrias, valorizam que sempre tiveram saúde para trabalhar e cuidar da família, bem como o fato de não terem inimizades. Observam que houve safras frustradas pela seca e por inundações, mas sempre se mantiveram firmes e unidos.
Com muito trabalho e esforço a família prosperou. Os filhos passaram menos dificuldades do que os pais. Urbano, que quando jovem andava de bicicleta, comprou uma camionete nova em 1974. Muito bem conservada, ela é mantida pela família. Antes, já havia tido um Ford 1951, adquirido em Porto Alegre.

Sobre Arroio do Meio, o casal destaca que houve mudanças consideráveis neste quase um século de vida. A população cresceu, tudo evoluiu rápido e hoje a vida se tornou muito mais fácil. Antigamente tudo era precário, distante, a locomoção era difícil. Com o passar dos anos, viram a estrada que passava em frente à casa passar a ser a “estrada velha” para Palmas e a ERS-130 se tornar a propulsora do desenvolvimento regional.
Nasceram antes de Arroio do Meio se emancipar e hoje contemplam com orgulho o crescimento que o município teve e a posição de destaque que ocupa na região. Presenciaram fatos e momentos históricos e são testemunhas de uma grande transformação na sociedade. Dizem que na atualidade tudo é muito diferente, mas compreendem que a maioria das mudanças veio para melhor.

Hoje, com o físico um pouco debilitado, passam os dias na companhia das cuidadoras Iraci Inês Thomas, Arsênia Leidens e Laides Huber, além dos filhos que os visitam praticamente todos os dias para vê-los e conversar.

A família

A união sempre foi uma característica da família constituída pelo casal. Mesmo depois do casamento dos filhos e do nascimento dos 12 netos e dos sete bisnetos, há datas em que o encontro de todos é sagrado. O kerb, realizado sempre no segundo domingo de outubro, é um desses dias que os Lohmann se juntam para confraternizar. Natal, Páscoa e o Dia dos Pais e das Mães também são datas especiais. No Natal e na Páscoa, dona Hilma faz questão de presentear todos os integrantes da família. Os pequenos se divertem com a procura dos ninhos e os adultos curtem o carinho da matriarca.

E, para celebrar todas as conquistas e alegrias que vieram a partir do ‘sim’ que uniu o casal há 70 anos, a família vai estar reunida neste domingo, numa grande comemoração. A festa, que também terá um momento religioso, vai reunir os filhos, genros, noras, netos, bisnetos e os familiares mais próximos. Assim como em agosto de 1949, Hilma e Urbano, vão celebrar o amor, agora inúmeras vezes multiplicado.

Por daiane