Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 17 de Julho de 2019

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Um coração e muitos filhos

, 12 de maio de 2019 às 8h00

Lidar com situações chocantes, angústias e injustiças, acolher e dar carinho a crianças que, por algum motivo muito sério, sofreram a ruptura do convívio familiar, nunca foi tarefa fácil. Aspira vocação, sensibilidade e uma dedicação quase sobre-humana.

São fatos como estes que narram a trajetória da voluntária Leda Maria Poletto, 72 anos, mãe do representante comercial, Juliano Feldens e da relações públicas, Daniela Feldens, avó coruja das jogadoras de vôlei, Manuela e Rafaela. Fora do círculo familiar de sangue, ela construiu uma família muito maior por meio da solidariedade. Grande parte das ações foi desenvolvida na Associação de Menores de Arroio do Meio (Amam), entidade que ela integra desde a sua fundação há 49 anos, ocupando a presidência por 16 anos, além do abrigo de menores que é mantido pela instituição desde 2006. Neste período, mais de cinco mil crianças foram atendidas pela instituição.

Com muita emoção, Leda recorda dos motivos que levaram o casal Jorge e Dirce Vasconcelos, a liderarem a criação da Amam e da importância da entidade em promover a igualdade social. O município não possuía a pujança econômica de hoje. Havia muitas crianças pobres, moradoras especialmente do bairro Navegantes, que pediam comida, de porta em porta, em residências do Centro. A desigualdade era gritante e machucava a sociedade que clamava por condições mais dignas em torno de direitos básicos e garantia de um futuro melhor para os menos favorecidos. As famílias não tinham oportunidade de trabalho, renda e prosperidade.

Neste contexto, a Amam foi fundamental para dar comida, assistência básica humanitária, educação e encaminhamentos para tratamentos em saúde. “As crianças passavam o dia com a gente. Só voltavam para casa para dormir, pois conosco tinham oportunidade de vivenciar rotinas de desenvolvimento pessoal de forma mais ampla do que com suas famílias, que na maioria dos casos não tinham culpa da vulnerabilidade em que se encontravam”, dimensiona Leda.

Entre projetos que marcaram época, estava a banda de percussão que era presença constante em desfiles cívicos e o grupo de pagode, entre muitos outros que envolveram desporto, cultura e integração social. “O vínculo com ex-alunos ainda é muito forte. Constantemente nos procuram para compartilhar sonhos, desafios e conquistas e agradecer”, explica.

Atualmente a Amam oferece oficinas de contraturno para cerca de 80 crianças e adolescentes, com idade entre seis e 14 anos, dos bairros Navegantes, São José, Centro, Aimoré, Morro Vermelho e São Caetano, sendo essencial para as famílias se manterem ativas no mercado de trabalho.

Já o abrigo de menores recebe crianças de zero a 18 anos ,que por motivo de maus-tratos, abuso, pobreza, negligência, vulnerabilidade, abandono afetivo e deficiência, são encaminhadas pelo Poder Judiciário à entidade. A ideia inicial era atender apenas jovens de Arroio do Meio e, posteriormente, toda a comarca. Hoje, a casa está lotada com menores de diversas regiões do RS, mas apenas três crianças são de Arroio do Meio, porque o município está evoluindo no desenvolvimento social.

Neste ambiente as crianças recebem muito mais do que alimento, medicamentos, acesso à higiene e educação. Elas voltam a ter afeto e se sentir importantes dentro de um contexto social, pois a ruptura com a família e o passado turbulento deixa mágoas que demoram para serem superadas. Os momentos mais emocionantes são durante o processo de adoções que também são intermediadas pelo Judiciário em âmbito nacional, em que a entidade não tem poder de arbitrar, mas se envolve com o acolhimento e o direcionamento a novos lares. Em média ocorrem até duas adoções por ano.

A manutenção do abrigo e do contraturno só são possíveis graças a repasses do Poder Público e Judiciário, e a ajuda de empresários e pessoas solidárias com a causa humanitária. Os desafios são diversos e contínuos. O mais complexo é a gestão financeira em torno da equipe de profissionais necessários para o funcionamento da entidade, que precisa estar em dia para garantir continuidade dos repasses.

Leda, que preside a Amam, e sua diretoria agradecem muito a solidariedade de parceiros e voluntários. Entretanto, pedem que mais pessoas da sociedade arroio-meense conheçam a entidade. E que se não possuem disponibilidade financeira, dediquem um pouco de afeto, carinho e energia positiva para os jovens que num futuro bem próximo, também estarão integrados à comunidade.

Por daiane

Leda Poletto, 72 anos, tem como hábito, inclusive nas folgas dos fins de semana ir ao encontro dos jovens do abrigo de menores e equipe de trabalho da Amam