Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 20 de Junho de 2019

O Alto Taquari

Jornal da Semana
Em Outras Palavras

A eterna cicatriz da perda

31 de maio de 2019 às 8h00

Estava preparado para falar do que vi no centro de Arroio do Meio no final de semana. Como faço mensalmente, estive na terrinha, circulando, conversando com amigos, indo às lojas e supermercado, até o carro foi lavado no capricho. Sábado à tarde conversei com o professor Fernando Campos, dono de uma academia de ginástica e artes marciais na rua Maurício Cardoso.

Vi a muvuca na Rua de Eventos, na Praça Flores da Cunha, no entorno da igreja católica e prefeitura. Conferi o movimento saudável da cidade, bares, padarias e outros estabelecimentos lotados, a vida pulsando e a economia girando.

À noite, a hora do anúncio dos resultados da gincana, degustava um xis bacon com os amigos Enio e Carla Meneghini. A festa contagiante, o barulho da comemoração, a alegria dos vencedores, ao lado da conformidade de quem não conseguiu chegar lá.

A gincana é uma instituição arroio-meense, consagrada a partir da criação dos amigos do The Horse. Há pouco tempo a promoção foi encampada pela prefeitura, quando sofreu mudanças e adaptações, mas continua o grande evento da cidade.

Há décadas defendo a necessidade de Arroio do Meio manter uma festa, como a Frangofest, com calendário fixo de atividades, eleição da corte com rainha e princesas. Além de movimentar a economia, o evento gera repercussão na mídia, divulgando o nome do município e nossas potencialidades.

 

A sensação de impotência é total. Faltam argumentos,

energia e ânimo para consolar quem sofreu as perdas

 

A gincana do final de semana polarizou o Vale do Taquari, com eco pelas ondas da Rádio Emoção FM, que falou durante todo o sábado de seu estúdio instalado na Rua de Eventos, um espaço consagrado de multiuso. Tudo isso, porém, se esvaiu, a partir da tragédia representada pela morte de dois jovens diretamente envolvidos com a agitação.

Rigorosamente não há consolo, palavras ou gestos para atenuar para o que as famílias estão passando. Ninguém pode sequer imaginar o sentimento que permeia a vida dos familiares envolvidos neste doloroso evento. Infortúnios deste tipo subvertem a ordem natural da vida, onde filhos partem antes dos pais.

Arrancar jovens do convívio familiar de maneira abrupta constitui um fenômeno cuja explicação desafia a compreensão humana. Desde o momento que soube do ocorrido, através da amiga e competente jornalista Maica Viviane Gebing, tudo que vivi na minha ida de sábado e domingo despareceu da minha memória, voltando à medida que redigi esta crônica.

Pai de dois filhos – o mais novo, de 23 anos, morando longe de casa – não consigo deixar de pensar nos pais. A alegria, abruptamente atropelada pela dor, dilacera o coração, põe em xeque as convicções religiosas e impõe um novo patamar para enxergar a vida.

A sensação de impotência é total. Faltam argumentos, energia e ânimo para consolar os que estão mergulhados neste precipício de sofrimento incomensurável. Condolências são comuns, mas a cicatriz da perda é eterna.

Por daiane