Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 27 de Maio de 2019

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Cotidiano

“Nada é fixo, nada é permanente, a dor existe e o sofrimento é opcional”

, 17 de maio de 2019 às 14h31

Com um sorriso no rosto e um diálogo leve e bem-humorado, a monja budista Coen Roshi semeou, para a região, as reflexões sobre a cultura de paz, a empatia, a meditação e o autoconhecimento. Integrando a programação dos 50 anos de Ensino Superior no Vale do Taquari, ela esteve no Teatro Univates, dia 9, falando para um público de 1.160 pessoas.

Jornalista, trabalhou em sua juventude como repórter de um jornal vespertino, ligado a uma das maiores empresas jornalísticas do Brasil. Segundo ela, a experiência na redação do jornal contribuiu muito para que estudasse o budismo, após ter tido contato com tantas pessoas e realidades diferentes. Coen é a primeira mulher e monja de ascendência não japonesa a assumir a presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil. Além disso, a líder espiritual tem diversos livros publicados, é fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, e tem milhares de seguidores no canal MOVA, no Youtube.

Monja Coen recebeu a imprensa regional no camarim do teatro, antes de falar com o público e falou sobre meditação, autoconhecimento e comportamento em tempos atuais.

 

Cultura de paz

“Ódio, raiva, inveja, vingança, nada disso é novidade para os seres humanos, a proposta é como podemos crescer um pouco, nesse lugar tão individualista e tão competitivo com o outro, para ter mais compartilhamento”, define a monja, referindo-se ao significado de cultura de paz, justiça e cura da Terra.

Segundo ela, não existe paz se não houver justiça social e esta, por sua vez, não existe sem o cuidado com a Mãe Terra e com todos os seres. Ela ressalta a importância de respeitar uns aos outros, principalmente quando existem pontos de vista diferentes. “Imaginem que, em nosso cérebro, temos todas as sementes: de amor, ódio, ternura, altruísmo e egoísmo. Está tudo em nós e o que regarmos é o que vai crescer. Se começarmos a cultivar a raiva, o ódio e o rancor, daqui a pouco, estaremos muito beligerantes e isto não constrói nada. É o processo de destruição de uma civilização, de uma sociedade, de um país. Devo perceber isto e pensar como isto me provoca e como devo dar uma resposta diferente”, reflete. Ela propõe que as pessoas passem a se observar e a regar outras sementes, como o amor e a não-violência. Redes sociais e o respeito às opiniões diferentes

Com milhares de seguidores em sua fanpage e no YouTube, monja Coen vê as redes sociais como uma ferramenta com grande potencial educacional. Porém, considera necessário alfabetizar as pessoas para usá-las com mais responsabilidade. “São um portal de educação, de crescimento, de filosofar, de se questionar, de procurar crescer e aumentar a sua capacidade de compreensão da realidade”, diz.

A líder espiritual considera que, hoje, estas redes são usadas de forma miúda e medíocre, para brigas e bobagens. “É bom que pensemos e que tenhamos pontos de vista diferentes, porque isto contribui para falar melhor, dialogar e defender nosso ponto de vista. Posso articular melhor o meu pensamento para explicar o que penso e posso até mudar de ideia. Porque não é feio mudar de ideia. Se alguém me convencer daquele ponto de vista diferente do que eu tenho, eu agradeço. As pessoas não precisam brigar pelas ideias, elas precisam compreender de onde vêm e o importante é o diálogo”, discorre.

A monja vê como muito valioso, o fato de as pessoas terem pontos de vista diferentes, contanto que sejam sempre respeitados. Ressalta que isto é democracia e enriquecimento do olhar. “Agora, se eu não posso expor o que eu penso porque eu tenho medo, alguma coisa está errada. Isto é uma sociedade de violência e a gente não pode permitir acontecer. Eu vivi em uma época em que havia censura nos jornais e já era triste o suficiente. Meus colegas de redação diziam, pior será quando cada um de nós tiver autocensura. Se você se tornar o censor de si mesmo, significa que nós estamos proibidos de pensar”, completa.

Nada é fixo e nem permanente

Recentemente monja Coen lançou um livro com o filósofo brasileiro, Mário Sérgio Cortella chamado Nem Anjos Nem Demônios – A humana escolha entre virtudes e vícios. A obra fala em como se constrói o “eu” e como ele pode ser mudado. “O professor Cortella diz: estamos grávidos de nós mesmos, estamos nos autogerando o tempo todo. Com o quê estou alimentando este eu, que estou modificando”, questiona. Conforme ela, é importante perceber que cada um é responsável pelo personagem que está manifestando agora e que este também não é fixo, nem permanente. A mudança não é rápida e fácil, mas é possível.

Outro livro, escrito em conjunto com o professor Leandro Karnal, traz como título O Inferno Somos Nós. Segundo a monja, o título vem da conclusão de que as pessoas fazem o céu ou o inferno em suas vidas e que o autoconhecimento as liberta. “Quando não há mais um euzinho menor, que com tudo se ofende e fica brabo, você se transforma. Nós podemos sair de um movimento de xingar o outro e ficar brabo, para construir um diálogo que leve para um relacionamento mais amoroso”, finaliza.

Por daiane