Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 11 de Dezembro de 2018

O Alto Taquari

Jornal da Semana
Especial

Músico: uma profissão sonhada por muitos e rentável para poucos

, 24 de novembro de 2018 às 9h30

Ser um bom músico vai muito além de apenas sonhar com grandes palcos, shows lotados, fama, dinheiro e glamour. É preciso ter um bom ouvido, estudar e treinar muito. Investir e reinvestir em bons instrumentos e equipamentos em busca do melhor timbre. Se dispor a autodesafios e fazer autocríticas constantemente. Ter comprometimento, esforço, dedicação, persistência, criatividade, sensibilidade, técnica, audácia, trocar informações com pessoas do meio musical e ainda uma boa dose de talento.

Infelizmente, o currículo de muitos artistas nem sempre é reconhecido pelo mercado que é pautado pelo mainstream (principais correntes da moda musical), e a maioria fica de fora da agenda dos grandes eventos e mídia, e nem chega a cair no playlist do público. Inúmeros potenciais acabam desistindo, porque com o mesmo esforço dedicado à arte, conseguem mover ‘montanhas’ em outros segmentos em um curto espaço de tempo. Outros não se desligam totalmente e acabam atuando de forma coadjuvante (correlacionada) na formação, comércio, logística e produção.

A escolha por insistir na pura e simples disseminação da arte na essência, enquanto protagonista, tem ligação com a sensação ‘divina’ que tocar um instrumento e cantar proporciona. Que nada mais é dominar uma força e um dom interior, além da oportunidade de fazer história e talvez, de alguma forma, entrar para a eternidade. Neste contexto, o maior desafio é conquistar o sucesso de forma autoral. Entretanto, poder participar de um seleto grupo de ícones, seja da cena regional à mundial, nunca foi tão difícil como hoje.

Apesar da tecnologia ter facilitado gravações musicais, clipes e a divulgação, atingir o público está mais complicado. Isso, porque a rotina da sociedade mudou, e a música concorre com novas manifestações culturais e de entretenimento. Esse menor espaço para a música na rotina das pessoas exige que o artista seja muito mais completo no que tange ao espetáculo e gerenciamento de carreira, que engloba também o marketing e produção pessoal. Não há mais lugar para aventureiros.

Regionalmente são poucos os exemplos de quem supera esta barreira mercadológica e encontra um nicho rentável para trabalhar com o que se gosta mais.

Uma vocação que exige muita superação

Agricultores e operários de fábrica de calçados na juventude, os irmãos Paulo Jair, 44 anos, e José Luiz Liesenfeld, 45 anos, de Picada Arroio do Meio, já superaram a fase da consolidação da carreira musical, mas a cada subida ao palco não esquecem que na bagagem houve muita luta para dias de glória.

Comprar a primeira guitarra foi sofrido. Para frequentar as aulas do professor Ermilo Berté, Paulo Jair pegava o ônibus das 18h e voltava a pé sete quilômetros com guitarra e cubo na mão, todas as semanas. Já Zé Luiz pegava um violão emprestado dos vizinhos e aguardava ansiosamente para que o irmão lhe passasse os ensinamentos. Logo depois começou a fazer aulas de teclado com Ivo Spohr, do Barbarella, até hoje considerado um grande amigo. “Comprei o primeiro teclado com o 13º salário da firma em 1993. Era meu sonho. Meu irmão buscou em Porto Alegre. Não existia meio termo como hoje. Ou era barato e ruim, ou bom e caro”, relembra Zé Luiz. “Fazíamos amizades com locutores de rádio para gravarmos as músicas para tirar as notas musicais e letras no detalhe, o que possivelmente aperfeiçoou nosso ouvido e afinação. O Ivo também foi quem nos financiou a primeira carteira de músico”, destacam.

As suas primeiras aparições públicas ocorreram de forma amadora em noites culturais. Profissionalmente o início foi no Musical Ver Amar de Forqueta, que era de um primo, conciliando palco e emprego formal. No repertório: Os Atuais, Música de Orquestra e discoteca.

Posteriormente surgiram duas vagas na Banda Ipanema, de Estrela. Paulo Jair se dispôs a tocar contrabaixo. A vivência permitiu um engrandecimento musical, cultural, de trabalho em equipe, comprometimento com parceiros e valorização da aparência e vestimenta. “Na época o reagee do Cidade Negra e o ska do Skank estavam no auge, o que exigiu adequações no estilo de tocar. Ganhávamos em torno de um salário mínimo nos fins de semana e ainda tínhamos agenda no meio da semana”, explicam. Zé ainda conciliava o emprego na firma e palco, até nos fins de semana. Jair já havia escolhido a agricultura para conciliar com menos pressão da agenda.

Recomeço na crise

Em 1997 os irmãos estavam dispostos a desistir da carreira durante a crise no segmento de bandas, devido à febre do som mecânico. “Era praticamente impossível competir com mais de 50 sons mecânicos”, afirmam. Até que um dia um primo, que possuía equipamento de sonorização, fez uma proposta para sonorizar os irmãos em eventos comunitários e sociais e surgiu a ideia de comprar uma Kombi. E foi fundado o Contagem Regressiva.

Assim como todo negócio próprio em tempo de recessão, a nova banda exigiu o dobro de dedicação. Zé Luiz continuou no teclado e começou a cantar as músicas estrangeiras. Seu irmão ficou com as canções nacionais e devido a um acidente com serra elétrica, durante fabricação de um estojo de teclado, perdeu a mobilidade de parte da mão esquerda e teve que migrar para instrumentos de sopro, o que necessitou de nova formação e treino.

À medida que conquistavam a simpatia do público precisavam superar desafios. “Ficamos atolados com a Kombi no fim da subida da serra que dá acesso a Progresso. Na época o trecho ainda não era asfaltado. Precisamos descarregar o equipamento e empurrar. Em outra ocasião ficamos empenhados com o ônibus, numa tarde de sábado onde só conseguimos um frete de emergência de ida para o salão. Enquanto um tocava o baile sozinho, sem playback, o outro procurava um orelhão para socorro para não deixarmos de cumprir agenda à noite. Hoje evitamos realizar duas apresentações num mesmo dia”, compartilham.

Circunstâncias (ou ócios do ofício) à parte, chegou o momento em que Zé teve que optar unicamente pela música. “Não conseguia mais conciliar palco e firma. Estávamos perdendo shows que eram mais lucrativos do que ser empregado”, relembra.

Entre as críticas recebidas (vistas agora com mais maturidade), em 2005 uma fã de Taquari sugeriu a Zé que fizesse um curso de inglês para melhorar a dicção. “Hoje uso pasta para repertório flashback”. E entre os trunfos: reverter o desapontamento de uma contratante da Serra Gaúcha pelo fato de a banda chegar com ônibus velho. Entretanto, a apresentação acima das expectativas, garantiu cinco recontratações seguidas para o mesmo evento. “Ficou claro que ônibus não toca baile”.

Decisões necessárias

Eis que um dia a estrutura do conjunto começou a crescer demais e os irmãos tiveram que tomar a decisão de revitalizar o projeto de forma mais enxuta, para se manter competitivos e terem condições de continuarem as atividades. “Tínhamos equipamentos a perder de vista, o que no meio da correria dificultava um controle detalhado. A iluminação, por exemplo, tinha uma manutenção muito cara, e paralelamente a rede elétrica dos locais onde nos apresentávamos era precária. Chegávamos aos salões pelas 17h e só desligávamos o equipamento de som às 7h do outro dia, pois também fazíamos o serviço de DJ. E às 9h já tínhamos que estar com o som montado em outra cidade. Chegamos ao limite e o faturamento não acompanhou o desgaste. Infelizmente tivemos que desligar amigos”, comenta Paulo Jair.

A estrada, exigências de mercado e busca por resultados, fizeram os irmãos se complementarem no palco e bastidores. Enquanto Zé tem a incumbência de montar o repertório e se relacionar com clientes, Paulo dirige o ônibus e faz a manutenção dos equipamentos. O controle técnico do som e luz, também é feito por eles antes e durante cada apresentação. O fato de os dois cantarem na banda sempre possibilitou manter o máximo da agenda já marcada, inclusive em casos em que a saúde vocal de algum fica comprometida. “Já abrimos shows para grandes bandas com a garganta sangrando. Mas com o passar do tempo entendemos que em situações mais extremas precisamos nos preservar e optar em não tocar para poder cumprir sequências estratégicas. Os leigos não entendem. Isso faz com que tomemos cuidados redobrados com o calor corporal e vento frio, e adotarmos cuidados especiais, como comer alho em jejum”, revelam. Até hoje Zé precisa conviver com uma hérnia de esôfago que causa refluxos e atrapalha o desempenho.

Desde 2010 a dupla virou trio e conta com o apoio do acordeonista Jair Henrique Liesenfeld, 18 anos, o Baby, filho de Paulo Jair. A introdução de Baby no conjunto fluiu naturalmente. Durante um intervalo de ensaio, os irmãos foram assistir TV e tomar café, quando de longe ouviram o menino, então com cinco anos, tocando Rádio Pirata do RPM no teclado. O tio se entusiasmou em lhe dar as primeiras aulas e, aos sete anos de idade, Baby começou a frequentar aulas com professores mais renomados. E na comemoração dos 100 anos da Escola São Caetano, fez sua estreia no palco após pessoas do público ouvi-lo reclamar porque não podia tocar. Sua participação fixa no line up da banda foi questão de tempo. Hoje o jovem é professor de música na localidade.

A consolidação de um sonho

Com uma média de quatro shows por semana, o Contagem Regressiva se especializou em atender sociedades comunitárias, e cumpre agenda em 200 municípios num raio de 400km. A Lei de Incentivo a Cultura (LIC) só representa 1% do faturamento e os contratos com prefeituras apenas 10%. A maioria das datas é fechada por conta própria e com 0% de inadimplência.

Como no início da carreira, a agenda de sábados à noite continua sendo a mais rentável, pelo fato de haverem poucas bandas especializadas em jantar-bailes e casamentos. “Ainda chegamos cedo nos salões. O equipamento precisa estar montado e testado até o final da missa. Apesar do baile só começar às 23h, nem sempre é possível tirar um soninho, pois precisamos atender os organizadores dos eventos com informes na sonorização. Durante a janta fizemos algumas sondagens de repertório para acertar o gosto do público. Cada região curte estilos diferentes. Não seguimos uma ordem fixa. O direcionamento varia conforme o feedback da pista. A interatividade com o público é muito importante para a receptividade e andamento dos eventos. Também fizemos muita propaganda nas redes sociais no pré e no pós das apresentações. É uma vitrine que está aí para ser utilizada”, explicam.

O set list conta com 300 músicas de diferentes estilos, girando entre 3h a 4h30min. A maioria das canções são executadas em medleys. Embora tenham 30 anos de experiência, 90% do repertório aprendido na carreira é descartável, ficam apenas as clássicas de cada gênero e as modernas. “Enquanto funcionários do povo, é nosso dever tocar sertanejo universitário. As nossas preferidas são as músicas da década de 1980. Pink Floyd, A-Ha, Roupa Nova, Dire Straits e Eraser. Gostamos de encerrar com Creedence. É o estilo que nos marca porque foi o que nos motivou a começar. Nunca compomos nossas próprias canções porque antigamente a gravação era cara. Hoje ficou mais barata, mas a divulgação em massa é muito restrita. Sem dinheiro não há retorno. É perda de tempo ficar questionando ”, comentam.

Questionados a respeito do assédio de fãs e a boemia da profissão, o trio revelou que não existe espaço para luxúrias. “A música enquanto forma de trabalho ainda não é reconhecida pela maioria. Acham que somos bagaceiros. Mas só é rentável porque somos profissionais. Oferecem bebida à vontade, mas não bebemos, pois assim como o excesso de confiança, são atitudes que comprometem a apresentação. Tudo o que conquistamos na vida, como realizações materiais importantes, foi através da música. Em outro segmento com certeza teria sido muito mais difícil. Se a música desse errado, não teríamos mais energia para conciliá-la com outra profissão. No meio da semana buscamos compensar a distância da família. Hoje nossas esposas Solange Beatriz Veruck e Rejane Grazzioli, também encontraram um nicho de trabalho para os fins de semana, então temos uma rotina semelhante”, ressaltam. Ainda integra a família, Gabriela Liesenfeld, de 11 anos, filha de Jair.

Os ensaios continuam, só que de forma individual. Apenas faixas novas, mais desafiadoras, são passadas em grupo. E nas segundas-feiras de madrugada, depois das agendas dos fins de semana, é comum ocorrerem trocas de telefonemas com Ivo Spohr, para longas conversas em torno dos bastidores, balanço econômico e técnico e causos.

Reviravolta na legislação cultural pode dar oportunidade a músicos locais

O maior rigor e mudança de regras na liberação de recursos da Lei Rouanet (Programa Federal de Incentivo à Cultura), a partir do novo governo deve acarretar numa tentativa de maior democratização e melhor distribuição da verba.

Para o produtor Paulo Schnorr, o Tety, é difícil manifestar uma opinião concreta, mas a maior fiscalização é considerada um avanço. “Vão continuar existindo maracutaias. Mas muitos artistas que recebiam centenas de milhares de reais, terão que fazer a dança do índio ou se contentar com seu valor real de mercado”, explica.

Já na Lei Estadual de Incentivo à Cultura (Lic) há uma tendência de queda nos shows nacionais abrindo mais espaço para valorização dos músicos locais. A principal dificuldade dos artistas e produtores tem sido a elaboração dos projetos, que é complexa. “É preciso se especializar mais”, pontua Tety.

Evolução no fazer musical

A venda de alguns instrumentos musicais populares, como a guitarra, caiu quase 80% nos últimos cinco anos no Brasil. Fato é que a música eletrônica e pop, criada em casa com computadores e até mesmo smartphones é o que tem atraído a molecada com seus 14 ou 15 anos, que criam músicas, EPs e até álbuns dessa forma. Na nova fase os instrumentos passam a ser apenas mais alguns elementos de mentes magistrais.

Por daiane