Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 10 de Dezembro de 2018

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Benzetacil, olina e mercúrio cromo

11 de outubro de 2018 às 6h00

Sempre contesto a expressão “antigamente era muito melhor!” porque toda generalização é injusta. Afinal, muitos avanços facilitaram a vida. Alguns, é claro, trouxeram consequências nefastas. Como sempre, em tudo, há o lado bom e o negativo.

Nasci em 1960, no interior de Arroio do Meio. A Medicina engatinhava em comparação com os avanços atuais. Pesquisas, descobertas e novas drogas aumentaram a qualidade de vida, ampliaram a longevidade, diminuíram o sofrimento de milhões de pessoas mundo afora.

Por décadas sofri de amigdalite a ponto de ter duas cirurgias adiadas para extração desta proteção natural contra bactérias. A doença me levou a conviver com picos de febres que chegaram a 41 graus para desespero da dona Gerti, minha mãe. Compressas de água gelada ajudaram a baixar a temperatura.

A pior parte do tratamento eram as injeções diárias de benzetacil que causava muita dor durante a aplicação e depois. Minha avó Wilma Kirst tentava sem sucesso me acalmar antes da aplicação na nádega. As sequelas, porém, se mantêm.

Recentemente me submeti a uma infiltração para tratar de uma tendinite. Lembrei da caixinha retangular de alumínio que acomodava a seringa e onde tudo era esterilizado com água fervida a milhares de graus centígrados.

Recordações doloridas que causam riso em conversas entre nós, “dinossauros”

A benzetacil é um símbolo para a minha geração. Sinônimo de dor e sofrimento silencioso. Na minha infância era impensável reclamar diante dos pais. Um samba na voz do genial João Bosco diz que “o mais valente dos homens treme diante de uma benzetacil”. É a mais pura verdade!

Também tomei muito Sadol e Biotônico Fontoura para “abrir o apetite”. Criança saudável era criança gordinha. Outro terror era o intragável bálsamo alemão, de gosto horrível. Minha mãe tentava disfarçar com a adição de açúcar.

Sabor e lembrança levam à Olina, produto longevo detestado por meus filhos que, às escondidas, remexem a “farmacinha” em busca da “essência de vida” pós-excessos. O mercúrio cromo era mais eficiente que o mertiolate, afinal “se está ardendo é porque tá fazendo efeito”. E deixava vistosas marcas avermelhadas.

São recordações um tanto doloridas, mas que suscitam boas gargalhadas em conversas com os “dinossauros” como eu.

Por daiane