Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 21 de Março de 2019

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Produzir de forma consciente para garantir o futuro das próximas gerações

, 22 de setembro de 2018 às 9h30

Toda vez que um consumidor vai até a propriedade da família Ferrari e compra um produto orgânico não está apenas investindo na própria saúde. Está fortalecendo um sistema de produção sustentável que oportuniza trabalho, gera renda e se preocupa em preservar o meio ambiente para as futuras gerações.

Há mais de 15 anos uma necessidade fez com que o casal Márcia e Carlos Ferrari, de Forqueta, Arroio do Meio, visse no quintal de casa uma oportunidade. Sem escola infantil para deixar a filha Hélen, que acabara de nascer, Márcia teve que sair do emprego na fábrica de calçados. Sem outra opção de trabalho e com uma propriedade pequena, percebeu que a solução estava na horta. Como sempre produzira de forma orgânica, não teve dificuldades em ingressar no grupo de Agricultores Ecologistas de Forqueta. Com orientação da Ascar-Emater/RS, ampliou a produção de legumes, verduras, hortaliças e morangos, que até então eram apenas para consumo próprio, e se tornou uma fornecedora de alimentos saudáveis.

O reinício da Feira do Produtor e a aquisição de alimentos orgânicos para a merenda escolar ampliaram as possibilidades de comércio e assim, Carlos também deixou a iniciativa privada para se dedicar à agroecologia. Há sete anos a horta que ocupa meio hectare de terra é a única fonte de renda da família.

Certificados como produtores orgânicos desde 2012, nunca deixaram de se aperfeiçoar e inovar. O grande salto dos Ferrari, e que os torna uma referência regional e estadual no ramo, foi o sistema colhe e pague. Implantado há quase cinco anos, o colhe e pague deu outra perspectiva para a propriedade. Hoje Carlos e Márcia oferecem não só um produto saudável e nutritivo, mas a experiência de o consumidor colocar um chapéu de palha, ir na horta, escolher e colher o alimento que vai levar para casa. Para muitos é a oportunidade de voltar a sentir o cheiro e o contato com a terra da infância.

Para oferecer este diferencial foi construído um espaço para receber os turistas e a horta foi diversificada. “O mix é muito importante. Quem vem colher quer variedade e não quantidade”, observa a empreendedora. Para poder ofertar a variedade desejada pelo consumidor, o conhecimento na lida com a terra e a observação são fundamentais. Mesmo num espaço pequeno conseguem oferecer várias opções: alho poró, aipim, cenoura, rabanete, couve-flor, espinafre, alho, beterraba, morangos, três tipos de batata, tomate pequeno, pimentão, pepino, berinjela, tempero verde, chás, entre outros.

Como não é feito o uso de qualquer produto químico na produção orgânica, nem na adubação, nem no controle de pragas, é preciso entender como o ecossistema se comporta. Desde a função de cada inseto, até o uso do inço na proteção do solo. Por isso é muito comum ver nos canteiros a produção consorciada, a fim de que uma planta proteja a outra de predadores.

Plano de negócios e qualificação

Márcia, que em fevereiro de 2014 foi agraciada com o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios – categoria produtora rural – ciclo 2013, diz que de nada adianta ter uma boa produção se não houver consumidor. Elenca o plano de negócios como uma ferramenta imprescindível para o sucesso do empreendimento. “Se tu não tiveres um plano de negócios para vender, tu te frustras porque vai perder produto. Quando está no ponto precisa ser colhido”.

Neste sentido, o sistema colhe e pague acaba oferecendo mais uma vantagem. Sem intermediário, o consumidor vai até a propriedade comprar. Assim Carlos e Márcia não precisam colher, lavar e embalar, e sim apenas atender a quem chega. Se por um lado as visitas demandam atenção e tempo, por outro, é justamente isso que fideliza o cliente. Desde que a Agroecologia Ferrari inaugurou esse sistema de vendas, já recebeu pessoas de vários lugares, de outros estados e até do exterior. Muitos chegaram até a Forqueta atraídos pelas postagens em redes sociais, uma ferramenta que tem ampliado os negócios. “O consumidor não leva só nossos produtos. Leva também a experiência e conhecimento. Nós também aprendemos com eles. É uma troca. É difícil ter um dia que não venha ninguém, mas quando isso acontece sentimos falta”, dizem.

Carlos, Márcia e Hélen vivem uma vida simples, de interior. Têm a consciência de que a agroecologia não é apenas um negócio, é uma escolha de vida. “Tem quem veja só o lado econômico. Mas estamos fazendo bem para nossa comunidade, cuidando do planeta, vivendo num ambiente saudável. Vendendo saúde. A agroecologia é amor à terra, ao planeta. Estamos felizes no nosso trabalho. As vezes pode ser mais trabalhoso do que o convencional, mas compensa. Levamos uma vida simples, administramos o nosso negócio. Vivemos bem em meio hectare de terra”.

Desenvolvimento sustentável

A Agroecologia Ferrari é apenas um dos vários exemplos de produção orgânica bem-sucedida que Arroio do Meio contabiliza. O engenheiro agrônomo André Michel Müller, do escritório local da Ascar/Emater-RS conta que em 1999, quando sequer existia a legislação dos alimentos orgânicos, teve início um trabalho focado neste modo de produção. Quando a legislação foi finalizada, no início dos anos 2000, os agricultores já estavam produzindo.

Nestes quase 20 anos, as famílias que apostaram na agroecologia como uma alternativa de diversificação e renda, ajudaram a desencadear mudanças significativas no modo de pensar e de produzir. Impulsionaram uma forma de desenvolvimento mais sustentável e que por vezes, passa despercebido, quase engolido pela ideia de que desenvolvimento só tem valor quando envolve grandes cifras e ações.

Para as famílias que produzem alimentos mais saudáveis, agregando renda e preservação ambiental às suas propriedades, os ganhos vão muito além dos financeiros, já que existe um aspecto social relevante. “O retorno social é muito importante. Temos jovens voltando para o meio rural porque sabem que a produção da família tem o reconhecimento da sociedade. São reconhecidos por produzir alimentos saudáveis”, observa Müller.

Tanto que o mercado para os produtos orgânicos não para de crescer. Hoje as possibilidades de venda incluem a Feira do Produtor, a merenda escolar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mercados e restaurantes, feiras regionais e a venda direta. Em Arroio do Meio são 15 famílias que se identificam e assumem serem produtoras de orgânicos. Destes, sete possuem certificação de produto orgânico, o que os habilita a vender também em mercados; quatro tem o reconhecimento de produto orgânico, podendo comercializar para o consumidor final e outros quatro ainda não possuem certificação ou reconhecimento.

Assim como aumentou o número de produtores ao longo dos anos, houve avanços na variedade e na quantidade produzida. Não há um levantamento preciso do volume produzido no município. Contudo, André destaca que a inclusão dos orgânicos na merenda escolar expandiu consideravelmente a produção. “Provocou a busca da diversidade, a expansão de potenciais dos produtores, agregando variedade”.

Na avaliação do agrônomo, a qualidade também está muito melhor nos dias atuais. Isso porque os produtores agregaram conhecimento e a fase de transição – do convencional para o agroecológico – ficou para trás. “À medida que se avança na proposta de produção orgânica o produto fica mais bonito, mais apresentável”. Ele observa ainda que o conhecimento de quem produz, adquirido na prática, faz toda a diferença. “O técnico repassa princípios, mas é o agricultor quem sabe como sua propriedade funciona. É ele que está lá todos os dias observando”.

Quanto à forma agroecológica de produção, André aponta que só há ganhos. Ganha quem consome, ganha quem produz e ganha o planeta. Salienta, inclusive, que os custos de produção costumam ser menores, já que são usadas apenas caldas e adubo orgânico e os recursos da biodiversidade têm melhor aproveitamento.

Mais ação concreta

A forma de produzir alimentos hoje pode impactar diretamente na vida das futuras gerações. A preservação do solo, de sementes e variedades crioulas, da água e, sobretudo do conhecimento repassado através das gerações, são fundamentais para garantir água potável e que a terra continue dando bons frutos.

A consciência de produção sustentável cada vez ganha mais espaço de discussão na sociedade. E é justamente para ampliar e aprofundar este debate que se originou o Instituto de Sustentabilidade e Resiliência (ISR). Trata-se de uma organização sem fins lucrativos criada por um grupo de diversos profissionais que visa, entre outros aspectos, fomentar valores e princípios filosóficos sustentáveis, bem como elaborar projetos sustentáveis para o benefício das comunidades e ampliar o conhecimento técnico e científico sobre a questão.

Na opinião do presidente do Instituto, Volnei Alves Corrêa, ainda há um longo caminho a ser percorrido no quesito desenvolvimento sustentável. Ele adverte que, na realidade, quase a totalidade dos modelos de produção e desenvolvimento são insustentáveis. Isso porque os insumos, o processo e o resultado final não leva em conta o melhor aproveitamento da matéria-prima. “Sem falar, na necessidade de os recursos humanos serem, devidamente treinados. Todo o modelo que não se preocupa com o desperdício está fadado a ser insustentável. Um dos princípios básicos da sustentabilidade é reduzir ao máximo todo e qualquer tipo de desperdício”.

Para o ambientalista, falta ação por parte da população e dos governos. Observa que há mais pré-ocupação do que ocupação, de fato. Explica que palavra preocupado, tem a sua formação do prefixo pré e do adjetivo ocupado. “Quando alguém se preocupa, ela, na realidade está gastando energia, sem se ocupar. Ela apenas gasta energia em pensamento. Dentro desta lógica, na minha opinião, a população precisa se preocupar menos e se ocupar mais com a questão da sustentabilidade. O investimento dos governos tem sido mínimo, porque como um reflexo dos hábitos da população, eles se pré-ocupam, e consequentemente não se OCUPAM, na busca de solução para os problemas, que muitas vezes exigem menos recursos do que se imagina”.

Corrêa, que é bacharel em Economia e em Administração Pública e de Empresas, com mestrado em Auditoria e Gestão Ambiental, pela Universidad de Leon, em Madri, reforça que mesmo que não haja um plano de ação maior, é de suma importância que cada um esteja consciente e faça sua parte, seja com pequenas ações, como a produção agroecológica de alimentos, para um mundo mais sustentável.

Para exemplificar lembra de uma historinha que relata a ocorrência de um grande incêndio numa floresta e todos os animais correram em direção a um pequeno arroio. “Uma raposa, em sua disparada em direção ao arroio, viu um beija-flor voando em direção ao fogo. Logo pensou consigo mesma: este beija-flor está louco, vai morrer! Segundos depois viu o beija-flor voltar, indo ao arroio onde com seu pequeno bico pegou algumas gotas de água e, começou a voar em direção ao fogo. A raposa o interrompeu e perguntou: beija-flor o que estás fazendo? Pensas que com este mínimo de água, carregado em teu bico, irás apagar o fogo? Não, respondeu-lhe o beija-flor. Mas eu ESTOU FAZENDO A MINHA PARTE. Moral da história: se cada um de nós fizermos a nossa parte, com certeza teremos um planeta melhor cuidado, uma vida mais sustentável, um futuro para as novas gerações”.

Por daiane
Carlos e Márcia Ferrari: estamos felizes no nosso trabalho. Estamos fazendo bem para nossa comunidade, cuidando do planeta, vivendo num ambiente saudável, vendendo saúde

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