Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 20 de Agosto de 2018

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Jornal da Semana
Carta Branca

Farmácia de livros

10 de agosto de 2018 às 6h00

Tive a oportunidade de assistir nesta última semana a uma palestra do escritor angolano José Eduardo Agualusa. A fala se deu dentro do ciclo chamado Fronteiras do Pensamento, que consiste em um conjunto de conferências proferidas por personalidades brasileiras e estrangeiras. Nesta edição de 2018 o tema central é: “O mundo em desacordo: democracia e guerras culturais”.

Pois bem, Agualusa falou sobre a capacidade que os livros têm de criar pontes entre as pessoas. Ou seja, de romper com o desacordo que separa pessoas e populações e promover o diálogo, a troca.

Quem lê um livro que conta histórias de vida – diz Agualusa – tem chance de se colocar na pele das personagens e avaliar como elas se sentem face às diferentes situações. Com isto, fica mais fácil de entender os sentimentos e os dramas alheios. O resultado é a chamada empatia, quer dizer, a identificação com o outro e a possibilidade de compreender seu comportamento. Compreender que, por mais estrangeiro que pareça, o outro é simplesmente uma versão diferente do eu.

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Na sua fala José Eduardo Agualusa referiu a ideia de um amigo seu que está tentando viabilizar em Lisboa a farmácia de livros. Uma farmácia que, em vez de oferecer medicamentos, oferece livros. Agualusa falou a sério. Não me pareceu que a tal farmácia seria apenas uma brincadeira para divertir a plateia.

Segundo a explicação, a farmácia dos livros estará instalada em um antigo hospital. Na sala da farmácia haverá uma quantidade de prateleiras com livros de todo o tipo. Os pacientes que chegarem ao balcão vão descrever os seus males para um funcionário muito atento. Por exemplo, vão dizer que sofrem de depressão, tristeza. O funcionário há de escutar com atenção. Provavelmente, fará uma série de perguntas, envolvendo a experiência de leitura e o gosto do paciente. Depois, vai pensar, pesquisar. Por fim, buscará a solução em uma das prateleiras. Voltará com um volume ou mais de um, cuja leitura vai prescrever.

Para o seu caso, este é o livro indicado – o funcionário dirá.

Ao receber a prescrição – no caso, o livro – o paciente fica com a opção de se dirigir a um dos quartos disponíveis no próprio local e ali se acomodar para ler, ou pode levar o “medicamento” para casa. Se pretende devolver, paga a taxa X. Se prefere ficar para si, paga X + 1.

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Não é a primeira vez que se fala no poder terapêutico da leitura. Existe toda uma área de estudos chamada de biblioterapia. Se você procurar na internet, vai encontrar muitas referências ao tema. Também vai encontrar o relato de experiências em várias partes do mundo.

Parece até que uma nova profissão está surgindo. É o reading coach. Semelhante à atuação do personal trainer é a atuação do reading coach. Um, na área do desenvolvimento físico; outro, no campo da leitura.

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Não sei se haveria demanda, mas aí está uma ocupação que eu adoraria ter. Reading coach! E ainda por cima, com esse nome impressionante!

Por daiane