Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 30 de Setembro de 2020

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A profissão que tem como missão passar segurança e tranquilidade nas alturas

, 30 de abril de 2018 às 9h00

Uma ou duas vezes por mês a arroio-meense Diana Regina Rockenbach, 31 anos, que saiu de Arroio do Meio em 2009, volta à Pérola do Vale para visitar a família. A frequência das visitas depende do tamanho da saudade e compromissos, ou quando consegue uma folga do trabalho, que envolve boa parte do seu tempo.

A filha de Terezinha Fuhr Rockenbach e Simplicio Rockenbach é comissária de voo da Gol Linhas Aéreas Inteligentes há três anos e meio. O interesse pela aviação despertou em Diana quando ela estava na Alemanha, quando uma amiga falava que queria ser comissária de voo. “Comecei a procurar sobre a aviação, que nunca cogitei ser algo tangível, mas que me identifiquei de imediato”. Com os requisitos, foi morar por um ano nos Estados Unidos para adquirir fluência no inglês, mas a paixão pelo país fez com que ficasse em terras americanas por dois anos.

Quinze dias após retornar ao Brasil, já estava se mudando para Florianópolis para fazer o curso de comissária de voo. “São aulas diárias durante cinco meses. É necessário fazer exames médicos da cabeça aos pés para verificar que sua saúde está íntegra, o que chamamos de Certificado Médico do Aeronauta. A aviação demanda de muita saúde e energia, então são bem criteriosos quanto a isso. Ao final do curso temos dois dias práticos de sobrevivência na selva, água e mar, onde podemos colocar em prática o que aprendemos em caso de emergências ou acidente aeronáutico”.

Diana explica que após o curso é preciso passar na banca da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que engloba disciplinas passadas em sala de aula como conhecimentos gerais de aeronaves, regulamentação da profissão do aeronauta, primeiros socorros, emergências a bordo, sobrevivência na selva, meteorologia e navegação. “O comissário de voo é um agente de segurança, onde somos capacitados a lidar com as mais diversas emergências e situações adversas a bordo de um avião, bem como evacuar todas as pessoas a bordo em menos de 90 segundos. O servir aos passageiros com empatia, cordialidade e simpatia, fazer com que se sintam bem e seguros a bordo faz parte do nosso dia a dia integralmente, mas a segurança de voo deve ser sempre o nosso dever número um”.

O processo para entrar na aviação entre curso, prova e ser chamada para a seleção durou um ano. Diana entrou na primeira seleção de linha aérea que fez. “A aviação é feita de fases de aceleração e pausa. Peguei uma breve fase de aquecimento na aviação após anos sem contratação. No meu processo seletivo havia mais de sete mil inscritos para sair a primeira turma de 30 novos comissários, e a maioria dos colegas já estavam há mais de cinco anos esperando a oportunidade. Tenho certeza que o processo anterior, de ter morado fora do país, contribuiu muito para ter essa oportunidade”.

Além dos Estados Unidos, ela também morou na Alemanha. Em ambos países fez um programa chamado de au pair, onde se mora com uma família, cuida das crianças, e faz alguns cursos em escolas de sua escolha. “Na Alemanha pude entender muito das minhas origens e culturas pela descendência alemã. Nos Estados Unidos pude identificar muito a minha personalidade e valores. Super recomento às pessoas a morarem fora do país. A experiência que se adquire e o quanto a mente se abre é algo impagável e que ninguém vai tirar de você”.

A profissão escolhida pela arroio-meense dá a oportunidade de conhecer muitos lugares, pessoas e culturas diferentes. “A gente brinca que é umas das principais características se identificar com a profissão. Tive a oportunidade de conhecer a trabalho os 26 estados brasileiros, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia e República Dominicana, no Caribe”.

Em relação aos desafios que a profissão nas alturas coloca, está o fato de saber lidar com escala mensal e ter que programar sua vida em cima dela. Com isso, estar ciente que vai faltar a muitos compromissos sociais, datas comemorativas, e segundo Diana, quanto antes a pessoa se desapegar, será melhor. “Eu amo trabalhar sob escala e não me imagino mais trabalhando de segunda a sexta-feira em horário fixo. Já vejo isso como algo maravilhoso. Numa segunda-feira posso estar de folga, de pernoite em uma praia, ou trabalhando normalmente, assim como no sábado à noite, domingo posso estar trabalhando muito enquanto os ‘terráqueos’ estão tendo folgas normais. Há a vantagem de ter horários diferentes mas há as desvantagens de por exemplo de virar madrugadas trabalhando, ou acordar a 1h para trabalhar, pois os horários variam conforme escala. Às vezes é difícil conciliar o sono que não vem na hora que se tem que dormir, assim como a alimentação que não tem horário”.

Diana frisa justamente a questão da alimentação e do sono como os pontos negativos, pois não é possível almejar isso como se gostaria, já que é preciso muita disciplina, o que pode acabar prejudicando a saúde. “Por isso nosso alerta situacional e conhecer nosso corpo e seus limites é muito importante. Temos que estar com a saúde excelente porque há 40 mil pés de altitude, em uma cabine pressurizada, tudo muda”.

A arroio-meense salienta que a aviação é para quem escolhe de coração ser um aeronauta, pois “ou você ama ou você não aguenta”. Para ela voar é a melhor coisa do mundo, e encontrar um lugar seguro para pousar é fundamental. “A profissão do comissário de voo reflete muito isso, pois somos nós que estamos cara a cara com todos os passageiros a bordo. Eles esperam de nós cordialidade, educação, simpatia, empatia para escutar o problema ou suas histórias. A bordo somos um pouco de tudo. Transformamos medo em tranquilidade, mostramos segurança ao desconhecido, recebemos o estranho como um velho amigo, fazemos companhia ao solitário com palavras ou apenas atenção, tentamos trocar tristezas por alegrias, irradiar sorrisos mesmo quando por dentro estamos gritando. Trabalhar sentimentos sem ser terapeutas (principalmente entre tripulantes, pois recém nos conhecemos e já nos tornamos grandes amigos e família), é dar o seu melhor sempre. Para mim isso é uma das coisas mais gratificantes”.

Tanto ela como os demais colegas são surpreendidos, assim como eles surpreendem a cada instante. Seja o abraço inesperado da criança em um embarque, o olhar terno e a segurança que você devolve ao adulto que cochicha para que ninguém escute que tem medo de voar, a empolgação de quem está voando pela primeira vez e a satisfação que dá de fazer uma demonstração de segurança especialmente para essa pessoa, entre tantas outras situações. “Nenhuma etapa é igual a outra. Sempre novos destinos, outras pessoas, outra tripulação. Muitos ‘mundos’ dentro de um mesmo avião e você está ali para ser o melhor elo entre todos, entre chegadas e partidas. O coração de um comissário de voo é a linha de frente que mantém as linhas aéreas voando. Espalhamos alegria, amor, ideais, esperança, compaixão”.

Por daiane

Diana (2ª E/D) em apresentação de voo com os amigos Guilherme Altmann (também de Arroio do Meio), a esposa de Guilherme, Renata Pastorelli e Gysele Karine que mora com Diana em São Paulo e tem avós em Nova Bréscia. Eles fizeram um voo juntos para Punta Cana