Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 21 de Fevereiro de 2020

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Jornal da Semana
Carta Branca

O caso das Telas Arenhart

2 de março de 2018 às 6h00

Ouvi na Rádio Independente de Lajeado anúncio das telas Arenhart. Parei tudo para escutar melhor.

Não é que esteja precisando de telas nem que tenha um particular interesse pelo produto. Acontece que fui fisgada pela voz do locutor, a qual reproduz o jeito de falar daqui do vale, particularmente, do pessoal de origem alemã.

Claro que nem todos falamos exatamente igual, mas – até sem que notemos – há um toque que bem nos caracteriza. Um toque que aparece nas expressões utilizadas, no sotaque, na entonação da frase. Sem falar no gosto por mostrar convicção. Nossa fala é bem direta. Diferente do estilo cauteloso dos mineiros, por exemplo, ou do jeito finório dos malandros de todo tipo.

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O anúncio se destina a vender telas. A peculiaridade é que faz associação com a pessoa que está falando. O sotaque e o teor da conversa mostram a origem do locutor e sua condição de falante bilíngue. Provavelmente aprendeu alemão antes que falasse português e usa as duas línguas com naturalidade. O entusiasmo da comunicação leva a pensar que o cara já utilizou produtos congêneres. Agora que encontrou estas telas tem muito gosto em recomendar. O locutor, além disso, provavelmente trabalha na roça – pois é ali que mais facilmente se encontram os brasileiros de origem alemã que continuam bilíngues e é ali também que se precisam de telas com regularidade.

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Ao ouvir o anúncio, minha reação foi sorrir.

Sorri ao constatar que o comercial é um primor de síntese e de eficiência. É capaz de condensar muita informação no espaço de um ou dois minutos. E o faz de um jeito que atrai a atenção, principalmente porque é incomum um locutor comercial se expressar fora do padrão Globo de comunicação – mesmo que a maioria de nós não fale assim. Neste caso o microfone vai para um colono da nossa região. Ele fala do que conhece. Já deve ter utilizado a tela, por isso está contando para todo mundo. Como regra, o pessoal daqui é confiável. Se faz um elogio, dá para acreditar. Tanto mais, que as telas não vêm do Paraguai ou da China, são fabricadas na redondeza, por gente que o locutor parece conhecer. Impossível pensar que haveria a intenção de nos botar numa fria.

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Houve quem se mostrasse desconfortável com o anúncio.

Tenho dificuldade de achar algo negativo ali. Aliás, antes o contrário. A fala é espontânea, divulga um produto bom e útil. O sotaque pode ser meio exagerado, mas funciona como garantia da idoneidade do falante e, por extensão, da mercadoria.

Afinal, quem está ao microfone não é um almofadinha empetecado. É um dos nossos. É alguém que come o pão com o suor do seu rosto e não tem tempo nem vocação pra conversa fiada.

Por daiane