Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 24 de Fevereiro de 2020

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Carta Branca

Guayasamín

16 de fevereiro de 2018 às 6h00

O equatoriano Oswaldo Guayasamín, (1919 – 1999), foi pintor, escultor e muralista de extraordinário talento. Sua obra tem fama internacional.

Na cidade de Quito é possível visitar a Casa-Museu da Fundação Guayasamín, que é a casa onde o artista viveu seus últimos anos e, ainda em vida, transformou em local de visitação pública. Ali se encontram muitas obras de sua autoria, como também pinturas que recebeu de presente de colegas ilustres. É o caso de quadros recebidos de Marc Chagal, de Juan Miró e de Pablo Picasso.

Além de telas, é possível ver na Casa centenas de objetos belos que foram colecionados por Guayasamín durante a vida inteira. Especial destaque para a arte sacra equatoriana do século XVIII. Até um altar revestido em ouro se encontra na sala de estar, junto a um fantástico piano de cauda que o dono da casa pedia para ser usado por algum dos convidados, quando promovia em casa um dos seus famosos saraus. Ele mesmo não tocava piano, mas era exímio no violão.

Outra atração do Museu são dois ateliês, um de pintura e outro de escultura. Era ali que Guayasamín passava horas e horas trabalhando. Todos os instrumentos foram deixados nos seus lugares. Há inclusive bisnagas de tinta usadas em parte, as quais ficaram assim mesmo, sobre a mesa onde o pintor as misturava.

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Oswaldo Guayasamín foi também um grande pintor de rostos. Quando mais jovem, pintou os ricos, como forma de ganhar a vida. Mais tarde, dedicou-se principalmente a pintar o rosto dos seus amigos ou de pessoas de sua admiração. A galeria de retratos inclui Mercedes Sosa; José Saramago; o rei Juan Carlos, da Espanha; Gabriel García Marquez, Fidel Castro, François Mitterrand, entre muitos outros. Dizia que o tempo necessário para a pintura de um rosto dependia da velocidade com que ele conseguia entender como o rosto mostrava o caráter do retratado. Podia levar vinte minutos ou se estender por vários dias.

O interessante é que aprendeu a captar a linguagem do rosto. Pintou retratos impressionantes e também escreveu sobre o processo, disse coisas assim:

Há olhos de violência e olhos de ternura; olhos que estão a ponto de chorar e olhos que sorriem.

“A forma de respirar, as narinas de uma pessoa ambiciosa, por exemplo, são largas, absorvem tudo, querem tragar todo o ar, querem tudo para si.”

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Guayasamín teve uma origem muito pobre. Conheceu a fome e a injustiça que os desvalidos costumam conhecer desde muito cedo. Boa parte de suas obras retrata o sofrimento humano. Também é autor de frases impactantes sobre isso. Exemplo:

“Minha pintura é para ferir, arranhar, golpear o coração das pessoas. Para mostrar o que o homem faz contra o homem.”

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“A mim me toca pintar para perguntar, para que as pessoas vejam as monstruosidades que se cometem contra os seres humanos e também se decidam a agir.”

Por daiane