Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 21 de Novembro de 2018

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Saúde

Cura da Aids pode ser anunciada até 2020

, 11 de fevereiro de 2018 às 10h00

Doutor em Biotecnologia e Biociências pela (UFSC), Tiago Gräf, 31 anos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador científico, avalia estudos regionais, nacionais e mundiais a respeito do tratamento da Aids. Considerada até pouco tempo uma doença devastadora, pesquisas cientificas têm levado a tratamentos que elevam a qualidade de vida e esperança de cura dos portadores do vírus. Mas o pesquisador alerta que a possibilidade de cura não exclui a necessidade de prevenção.

Formado em Biomedicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2007, Dr. Gräf começou a estudar a Aids e o vírus HIV em 2011, ainda durante o mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Durante o doutorado se envolveu em um grande projeto de pesquisa que tinha como objetivo pesquisar as características do HIV em várias cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, inclusive Lajeado. “Já se sabia por estudos anteriores que o vírus que circulava nesses dois estados era diferente do encontrado no resto do Brasil, mas nós queríamos saber mais detalhes sobre isso”, revela.

Em 2014 se mudou para a Bélgica onde por meio de bolsa aprofundou os estudos do doutorado. O período foi de intenso aprendizado em que pesquisadores o ajudaram a analisar os dados que ele havia coletado no Brasil.

Em 2015, depois de concluir o doutorado, surgiu o convite para um pós-doutorado na University of KwaZulu-Natal (UKZN) na África do Sul, que durou entre 2016 e agosto de 2017. Lá integrou um grupo de pesquisa sul africano que havia considerado seu trabalho sobre a epidemia do HIV no Sul do Brasil muito interessante. Por isso pediram sua ajuda para compreender melhor a disseminação da epidemia de Aids naquele país, que apesar de ser relativamente rico e desenvolvido para os padrões africanos, é devastadora. Em algumas regiões mais de 30% da população está infectada com o HIV (no Brasil, por exemplo, menos de 1% da população está infectada).

Atualmente no RJ, além de professor Dr. Gräf faz parte do grupo de pesquisa do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ que não estuda apenas HIV, mas também vários outros vírus de importância médica, como o vírus da Zika, Chikungunya e da Febre Amarela. Confira entrevista exclusiva concedida ao AT.

AT – Quais os principais objetos de pesquisa? Em que áreas ocorrem os principais avanços?

Dr. Tiago Gräf: A minha principal linha de pesquisa visa entender os padrões de disseminação do HIV entre diferentes grupos da população e também entre diferentes locais geográficos. Simplificadamente, o que tentamos identificar são características de pessoas que possam agir mais intensamente na disseminação do HIV, ou se há locais (cidades/estados/países) que contribuem mais na dispersão do vírus. Esse tipo de informação pode ajudar os sistemas públicos de saúde a desenvolver campanhas de prevenção mais efetivas.

Eu diria que os principais avanços na pesquisa sobre o HIV ocorrem nos seguintes campos:

- Aprimoramento do tratamento – a Aids hoje é uma doença controlável, mas que envolve a ingestão de vários comprimidos diariamente pelo paciente. Esses medicamentos podem causar vários efeitos colaterais e também parar de funcionar quando o vírus adquire uma mutação que o deixa resistente ao medicamento. Há várias pesquisas que tentam tornar o tratamento mais efetivo e mais confortável para o paciente.

- Busca de uma vacina – esse é um objetivo antigo dos pesquisadores e seria a forma mais eficaz de acabar com a epidemia de Aids. Entretanto, devido a capacidade de mutação excepcional do HIV, potenciais vacinas vêm apresentando resultados frustrantes.

- A cura da Aids – talvez este objetivo seja alcançado nos próximos anos. Entretanto isso não significa que a cura esteja disponível para toda a população em um curto período de tempo. Provavelmente, no início, a cura seja acessível financeiramente apenas para poucos.

AT – Há estatísticas do avanço da Aids no Brasil e no mundo, e sobre o aumento da expectativa de vida dos soropositivos nos últimos anos?

Dr. Tiago Gräf: Um estudo recente feito na Inglaterra mostra que, devido aos enormes avanços na terapia, a expectativa de vida de alguém infectado com HIV, mas em tratamento, é quase igual ao de alguém não infectado. No Brasil não existem dados recentes sobre a expectativa de vida das pessoas infectadas e tratadas, mas com certeza ela tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. Entretanto, esta sensação de que a Aids não é mais uma doença mortal, faz com que muitas pessoas não se previnam adequadamente contra os riscos de infecção. Essa “banalização” da Aids tem feito com que o número de novas infecções anuais esteja aumentando no Brasil, enquanto no mundo houve uma queda de 11% entre 2010 e 2016.

AT – Há esperança de encontrar a cura? Quais os caminhos possíveis?

Dr. Tiago Gräf: Curiosamente, a cura da Aids já foi encontrada, pelo menos para um afortunado indivíduo. Entretanto este foi um caso singular de um indivíduo que era soropositivo para o HIV e também tinha leucemia. Este indivíduo, conhecido na literatura médica como o paciente de Berlim, teve que passar por um transplante de medula óssea para se curar da leucemia. Existe uma mutação genética muito rara nos seres humanos que os tornam resistentes ao HIV, ou seja, eles não se infectam. No caso do paciente de Berlim, o doador da medula óssea possuía essa mutação e, portanto, a medula óssea transplantada passou a produzir células que não se infectavam pelo HIV. À medida que as novas células substituíam as antigas, o vírus não tinha mais como se reproduzir dentro do paciente. Assim ele se curou da leucemia e da infecção pelo HIV após o transplante. Entretanto, este método não é aplicável em larga escala pois apenas poucos indivíduos seriam compatíveis para receber um transplante de medula de alguém imune à infecção pelo HIV.

Nos últimos anos há um grande otimismo em alcançar a cura da Aids e uma previsão que isso ocorra até 2020. Alguns dos caminhos apontados para a cura são:

- Inserir artificialmente a mutação que promove resistência ao HIV em indivíduos infectados - Isto seria feito por novas técnicas de engenharia genética em células troncos da medula óssea do próprio paciente (portanto não há necessidade de transplante). Depois de mutadas, estas células seriam reimplantadas no paciente e começariam a produzir novas células resistentes (como ocorreu no caso do paciente inglês).

- Forçar o HIV a sair de seus esconderijos dentro do corpo humano - O HIV pode ficar dormente em algumas células e órgãos do corpo onde o tratamento não faz efeito. É por isso que o indivíduo nunca pode parar o tratamento, pois o vírus ressurge de dentro dos esconderijos. Hoje estão sendo desenvolvidos novos medicamentos que revelariam os vírus escondidos e isto permitirá que os medicamentos antirretrovirais (medicamentos anti-HIV) limpassem completamente os vírus de um indivíduo.

- Cura funcional – esta abordagem não tem por objetivo eliminar completamente o vírus do corpo, mas sim mantê-lo em quantidades tão baixas que o próprio corpo poderia controlar o vírus. Estudos têm observado que se o tratamento convencional for iniciado logo após a infecção, a cura funcional pode ser atingida. O grande desafio desta abordagem é fazer com que as pessoas sejam diagnosticadas como infectadas pelo HIV num tempo muito curto. Normalmente o diagnóstico ocorre apenas quando alguns sintomas da doença começam a surgir, ou seja, meses ou até anos após a infecção.

AT- O que tem feito longe dos amigos de Arroio do Meio?

Dr. Tiago Gräf: Acho que meu principal hobby é a música. Tanto ouvir quanto tocar um instrumento musical. Este é um hábito que comecei a cultivar quando tinha uns 14 anos, época em que sugiram várias bandas de rock/metal em Arroio do Meio. Infelizmente hoje não faço parte de mais nenhuma banda, mas quem sabe eu não encontro algum grupo aqui no Rio?

Um segundo hobby que tenho, este aprimorado no período em que vivi na Bélgica, é degustar cervejas artesanais. Até já me aventurei fazendo minhas próprias cervejas, mas devido às várias mudanças de endereço tive que largar as panelas de brassagem.

Acho que viajar também entra na minha lista de coisas que não posso viver sem. Eu e minha esposa, a jornalista Lívia Allgayer Freitag, com quem estou casado desde 2013, estamos sempre planejando o próximo roteiro e reservando algum dinheiro para realizá-lo.

Por daiane