Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 22 de Maio de 2018

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Abobado da enchente

9 de fevereiro de 2018 às 6h00

“Abobado da enchente”. Até hoje costumo empregar a expressão para designar o indivíduo que comete uma asneira ou diz uma grande besteira. Sinal dos tempos. Aos 57 anos, parece que os resquícios da infância se mantêm cada vez mais presentes. Esta tendência se intensificou a partir da presença constante do meu sogro, seu Pedro Pereira Nunes que, aos 87 anos, mudou-se definitivamente para a nossa casa. Passamos horas trocando reminiscências, apesar dos 30 anos que nos separaram em termos de geração, onde as expressões têm espaço generoso nas conversas.

“Este é vinho de outra pipa!” é outra expressão que meus pais adoravam. Era empregada ao referir uma pessoa que era diferente – para melhor ou pior, por ser alguém diferenciado. Até a morte da minha mãe, dona Geri Jasper, há pouco mais de um ano, costumava ouvir dela a frase. Já meu pai, falecido há bem mais tempo, reprovava meu gosto por usar longos cabelos, traço comum de um adolescente dos anos 70/80.

- Vai no barbeiro cortar esta melena! – repetia sem esconder a irritação, indicando o saudoso Cirilo Tischler para deixar o cabelo dentro do padrão que o velho Giba preconizava.

Já referi neste espaço que tão importante aos olhos de meu pai, quanto as minhas notas, era o total de faltas que o documento acusava a cada mês. Até meus 16/17 anos padeci de problemas de amígdalas, a ponto de ter duas cirurgias de extirpação marcadas, mas posteriormente suspensas.

Apesar do esforço em explicar os motivos das notas baixas raramente meu pai aceitava os meus argumentos…

Cioso da minha frequência, o velho Giba anotava num caderno à parte os dias em que a febre – que um dia passou dos 40 graus! – impedia minha ida à escola. Este comportamento inibia qualquer tentativa de “gazear aula”, ou seja, evadir-me para jogar futebol ou praticar outra traquinagem, termo também bastante surrado.

Quando as notas vermelhas proliferavam eu costumava “levar uma prensa” para justificar meu fracasso. A nota auferida no quesito “comportamento” também despertava especial atenção pelo filho de carpinteiro, graduado em contabilidade.

Com estas pequenas pinceladas, os prezados leitor e leitora podem constatar que o “dia do boletim” era, para a gurizada “do meu tempo”, um momento de grande tensão. A adrenalina ia às alturas, não raras vezes gerando crises familiares, quase sempre deflagradas diante da tentativa que as mães da época tinham de defender os filhos.

Apesar do esforço em explicar detidamente cada detalhe que ocasionaram notas baixas, raramente meu pai aceitava meus argumentos. Hoje, com dois filhos, consigo imaginar os motivos…

Por daiane