Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 21 de Janeiro de 2018

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Jornal da Semana
Carta Branca

As perdas

12 de janeiro de 2018 às 6h00

O tema da perda é sempre atual. Falo das perdas que a vida traz. Perdemos oportunidades. Perdemos tempo. Perdemos pessoas amadas. Acabamos de perder 2017…

Lya Luft publicou um livro em 2003 que fez muito sucesso: Perdas e ganhos. Ali o tema são as perdas que vêm com a idade. Sim, claro, Lya também fala dos ganhos possíveis, mas já que o assunto aqui são as perdas, fiquemos com elas.

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Há outra categoria de perda. Aquela que é resultante dos nossos erros. Por exemplo, calculamos mal quanto tempo é necessário para chegar até a rodoviária e lá se foi o ônibus. Ou, então, diante de dois caminhos, optamos pelo pior. Etc… etc. Grosso modo, a perda resultante de uma escolha errada é o tema sempre presente na tragédia grega – esse gênero de Literatura que vem do século IV antes de Cristo e continua nos apavorando.

A tragédia clássica mais conhecida é Édipo Rei, de Sófocles.

Uma telenovela – Mandala – em 1987-8 trouxe o assunto para os nossos tempos com Vera Fischer e Felipe Camargo e acabou tornando muito popular a antiga história.

Como se sabe, Édipo era filho do rei Laio e da rainha Jocasta. Quando nasceu foi profetizado que mataria o pai e casaria com a mãe. Horrorizado, o rei Laio manda matar o menino. Por circunstâncias várias, o menino sobrevive e – anos depois – a profecia se cumpre. Sem saber, ele mata o pai e casa com a mãe, ou seja, é vítima do seu erro, um erro que cometeu sem saber. Mas cometeu. Intencional ou não, o erro existe.

Mais trágico que tudo é o fato de que a desgraça foi precipitada por uma falha humana. E não se trata da falha do desconhecimento. Édipo pode não ter matado o pai intencionalmente, mas errou ao deixar a vaidade dominá-lo. Foi vítima da sua soberba. Ele se achou melhor do que todos e por isso não pode tolerar que alguém se atravessasse no caminho e o incomodasse – foi o caso da carruagem em que o pai viajava. Édipo é o maioral, ele é o Rei, como alguém se atreve a aborrecê-lo?

A tragédia grega elege para personagens os chamados “homens melhores”- aqueles que aparentemente têm tudo: são ricos, poderosos, belos, famosos e conta a história de sua queda. Na época se dizia que o objetivo era produzir terror e piedade. Abrir os olhos para o fato de que todas as pessoas são falíveis, erram, se enganam. Isto equivale a nos aterrorizar com a nossa natureza. Em seguida, pode vir a piedade. Ou seja, se reconhecemos a nossa fraqueza, abrimos espaço para a compaixão com as nossas falhas.

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Passaram-se séculos desde a criação da tragédia grega e fica a pergunta. Será que aprendemos o quanto é frágil a nossa natureza? E, por outro lado, será que ficou mais fácil ter compaixão por nós mesmos e pela condição humana de um modo geral?

Por daiane